Na década de 90, um estilo de música fazia sucesso nas pistas de dança não apenas da Europa mas no mundo inteiro. Era o fenômeno da Eurodance. O berço da dance music europeia era a Itália, de onde surgiram uma variedade de grupos e cantores que emplacaram vários hits mundo afora, inclusive no Brasil. 

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Apesar da origem italiana (era comum alguns talentos da Alemanha também), o idioma inglês era o que predominava nas canções de refrão chiclete (aquele trecho que não sai da cabeça), fáceis de cantar e melhor ainda para dançar.

Corona, Fun Factory, Whigfield, Snap, C&C Music Factory, Real Mccoy, Black Box e Ondina, são apenas alguns exemplos de projetos musicais que marcaram época nas discotecas do mundo inteiro. Numa época pré-internet, pouco se sabia a respeito desses grupos, o público estava mais interessado em dançar, nas coletâneas (CD) que eram lançadas à exaustão, mas com o surgimento da internet anos depois e a popularização dela, muitos segredos “obscuros” do passado desse ritmo musical vieram a tona.

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A farsa da Eurodance revelou que muitas mulheres belas que estavam a frente de projetos de sucesso, não eram as reais vozes daquelas canções. Por razões comerciais, os produtores não achavam que uma cantora profissional e fora dos padrões de beleza (acima do peso ou idade por exemplo) não era algo vendável. 

O processo era simples, no backstage (bastidores) uma cantora com poderosos vocais gravava as músicas em estúdio, porém nos shows, videoclipes e apresentações na TV, era substituída por uma modelo jovem, bela e de corpo escultural, que apenas dublava.

Todos os grupos citados anteriormente utilizaram esse artifício, venderam milhões de cópias, conquistando fama, sucesso e dinheiro para estes cantores fake, que ficavam com todo o mérito; contudo anos depois a farsa foi revelada. 

Um dos casos de maior repercussão na Europa, envolveu o grupo Black Box nos anos 1990, os vocais pertenciam a cantora Martha Wash (do clássico It´s Raining Men) que estava longe de qualquer padrão estético. Entretanto nos palcos e clipes, a bela negra Katrin Quinol fingia ser a dona da voz, Wash processou o grupo alegando desconhecer que seria substituída, exigindo os créditos pelas canções, terminou faturando uma fortuna na época. Até hoje ela faz shows cantando sucessos do Black Box como Strike it Up, Everybody Everybody e a ótima I don´t know anybody else, enquanto que o grupo também continuou na estrada reprisando os antigos sucessos mas dessa vez com uma cantora que pelo menos canta de verdade (Celestine).

Katrin Quinol cantora fake (reprodução)
Martha Wash (reprodução)

Outro caso semelhante, porém sem envolver ação judicial, foi o projeto Corona. A brasileira de Vigário Geral (uma comunidade carente no Rio de Janeiro), Olga de Souza tirou a sorte grande quando decidiu passar uns tempos na Itália e por obra do destino conheceu o idealizador do projeto italiano, que mudaria radicalmente a sua vida. 

Entretanto, a brasileira que ficou famosa no mundo inteiro no início da década de noventa com o hit Rhythm of the Night, não era a verdadeira voz por trás da canção. Corona (Olga) apenas dublava quando projeto musical foi lançado, emplacando três músicas de sucesso após o primeiro hit que a consagrou, vendendo aproximadamente 5 milhões de cópias.

Olga/Corona (reprodução)

As reais vozes por trás dos êxitos musicais, pertenciam a italiana Giovanna Bersola (mais conhecida como Jenny B) e a britânica Sandy Chambers. O ano era 1993, e ninguém naquela época imaginava essa jogada de marketing dos produtores. Hoje, basta dar um google para achar alguns sites internacionais (e até mesmo do Brasil) onde expõem a realidade que o Corona e tantos outros cantores tentaram esconder por anos.

O brasileiro Rikardo Rocha, um especialista em Eurodance, criou um site especialmente sobre este estilo musical, com sólidas informações  sobre os grupos e cantores (fakes e reais) que marcaram uma geração.

Jenny B (reprodução)

O projeto Corona já estava pronto antes mesmo de Olga fazer parte dele. No cenário musical da Eurodance naquela época, era comum lançar músicas a exaustão para estourar nas pistas de dança, em que uma mesma cantora (profissional) emprestava a sua voz para diversos singles de projetos musicais diferentes, pois na realidade alguns deles sequer tinham um cantor(a) oficial. É claro que houve exceções, e alguns grupos/cantores tinham tudo (integrantes e álbuns) já prontos previamente (como o Culture Beat).

Sandy Chambers (reprodução)

Jenny B, uma bela negra dona de uma voz espetacular, emprestava seu “gogó” para diversos grupos na época (Playahitty, Red Velvet, Corona e diversos outros), tendo sido uma das principais vozes da dance music europeia naquela época, e a imagem em completo anonimato.

Olga foi descoberta em um momento em que a música Rhythm of the Night (voz de Jenny B), explodiu nas rádios ficando por 16 semanas entre as mais tocadas, indo muito além do continente europeu, por razões que somente o criador/produtor Lee Marrow poderá esclarecer, não foi possível que Jenny B assumisse o projeto Corona (é provável que ela estivesse comprometida gravando para outros grupos ou mesmo por outras razões), foi nesse momento que a brasileira Olga entra para estampar a imagem do Corona. 

Sua voz estava longe de ser como a de Jenny B, além disso o inglês da brasileira não era fluente, porém fisicamente ela se encaixava como a “capa” do projeto –  jovem, bela, extrovertida e na ocasião com a regra de só cantar em playback (como vários grupos faziam).

De modo geral, o mercado musical da Eurodance na década de 90 na maioria das vezes (salvo algumas exceções) funcionava da seguinte forma:

A música é gravada em estúdio => uma vez que faça sucesso nas rádio e casas noturnas => cria-se o grupo (com a voz original ou não) => é realizado o videoclipe (em uma época onde a MTV estava no ápice) => e por fim os shows e apresentações em festivais, TV no mundo inteiro.

O estrondoso e imediato sucesso de Rhythm of the Night surpreendeu até mesmo os produtores, e com a repercussão positiva, logo trataram de realizar um álbum com várias canções. Jenny B pula fora do Corona e entra a inglesa Sandy Chambers que assim como Jenny, também emprestava a sua voz para diversos outros grupos de Eurodance. 

Chambers é a voz nas canções Baby Baby e Try me out, que logo atingem o topo das paradas, consagrando ainda mais a brasileira Olga que já havia se tornado a porta-voz do projeto, trazendo fama e dinheiro para a carioca.

Após o sucesso dessas 2 canções e muitos shows na Europa, Estados Unidos, Reino Unido e inclusive Brasil, Sandy Chambers ainda volta aos estúdios para gravar “The power of love“, uma boa canção que não teve o mesmo êxito das anteriores. Em seguida, ela deixa o Corona em função de uma gravidez. Olga faz uma tentativa de gravar um álbum usando dessa vez a sua real voz, que na época foi um fracasso, mesmo assim, ela começa a cantar os antigos sucessos que a consagraram mas dessa vez ao vivo, usando a sua real (e precária) voz em shows pela Europa e Brasil.

Em algumas apresentações que soam melhores, nota-se o provável uso de auto-tune (recurso tecnológico que “limpa” as imperfeições da voz, fazendo qualquer pessoa cantar muito melhor, a estrela teen Britney Spears é fã dessa tecnologia em seus shows).

Felline cantora fake do PlayaHitty (reprodução)

Seria injusto afirmar que todos os projetos musicais de Eurodance faziam esse esquema, até porque havia grupos como Masterboy, Scatman John, Culture Beat, Outta Control, Regina, Martine, Double You, Alexa e diversos outros, que tinham vocais autênticos, sendo as verdadeiras vozes por trás dos seus sucessos. O que fazia a diferença, era que nas apresentações ao vivo (os famosos festivais europeus como Dance Machine, Festival Bar etc) quem realmente cantava, fazia ao vivo, já os que não, a regra era apenas dublar.

Real MCcoy

Questionada sobre isso (raras vezes), Olga/Corona negou, afirmando ser a real voz por trás dos megahits, entretanto, além dos diversos sites internacionais que revelaram a farsa, é nítido a diferença na voz entre o playback e as apresentações ao vivo. Todavia, Corona não foi a primeira e nem será a última no que se refere a “cantores” que apenas emprestaram a sua imagem, sem ter o talento vocal, seguiram-se nessa linha grupos já citados como Black Box (Martha Wash vs Katrin Quinol), Playahitty (Jenny B vs Felinne), Real MCcoy (Karin Kasar vs Patsy Petersen) e muitos outros.

Isso soa como o slogan de um velho comercial de TV de uma marca de refrigerante no Brasil, “Imagem não é nada, sede é tudo“, será mesmo que talento não é nada e imagem é tudo?

Confira o site Eurokdj que aborda sobre o projeto Corona

Jenny B, a  dona da voz do hit Rhythm of the Night:

Sandy Chambers:

Jenny B cantando um trecho ao vivo:

Todas as canções de eurodance que Jenny B emprestou a sua voz:

Por onde anda a cantora Corona?

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