Queermuseu: as obras mais polêmicas e as explicações de quem criou 🎨

Adriana Varejão, Nino Cais, Cândido Portinari, Alfredo Volpi, entre tantos outros artistas, dividiam as paredes da instituição

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Milton Kurtz (Foto: Santander Cultural/Divulgação)

A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, com curadoria de Gaundêncio Fidelis, reunia 270 obras do início do século 20 até os dias de hoje, dialogando com a diversidade de expressão de gênero. Adriana Varejão, Nino Cais, Cândido Portinari, Alfredo Volpi, entre tantos outros artistas, dividiam as paredes da instituição. A mostra iria até 8 de outubro, mas foi cancelada no último sábado após receber inúmeras críticas via redes sociais.

“A exposição não era temática e nem uma tese ilustrativa das questões de gênero. Era uma plataforma para alavancar os questionamentos e desdobramentos do assunto”, explica Gaudêncio. Portanto, pinturas, gravuras, fotografias, serigrafia, desenho, colagem, cerâmica,  escultura e até vídeo instalação não ditam regras ou comportamentos ideais, discutem apenas as “questões relativas à formação do cânone artístico e a constituição da diferença na arte.”

A palavra queer aparecia como uma confluência de forças estéticas, políticas e institucionais, para traduzir visualmente algo com infinitos significados. O curador disse que não foi consultado sobre manter ou não a exposição em cartaz, foi uma posição unilateral do Santander.

As denúncias de zoofilia atingem uma obra específica: Cena de Interior II, tela da artista visual carioca Adriana Varejão pintada a óleo em 1994. A denúncia de profanação repousa sobre mais de uma obra – a mais citada, no entanto, principalmente no vídeo que deu início à polêmica, é Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, tela de 1996 do porto-alegrense Fernando Baril. Por fim, a acusação de pedofilia atinge a exposição como um todo. No entanto, as obras Travesti da Lambada e Deusa das Águas e Adriano Bafônica e Luiz França de She-há, ambas de autoria da cearense Bia Leite, são as mais contestadas.

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“Cenas do Interior II”, de Adriana Varejão. Foto: Tadeu Vilani

Cenas do Interior II mostra cenas de sexo entre duas figuras femininas japonesas, uma figura japonesa e um negro, dois homens brancos e um negro e duas figuras masculinas brancas indistintas com uma cabra – esta última imagem, recortada da obra completa e compartilhada sozinha nas redes, foi a que causou polêmica. Adriana Varejão, responsável pelo trabalho, ressalta que “busca jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas” e que Cenas do Interior II é “uma obra adulta feita para adultos”.

— Esta é uma obra adulta feita para adultos. A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as chungas, clássicas imagens eróticas da art coisas que muitas vezes existem escondidas. É um aspecto do meu trabalho, a reflexão adultae popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil. O trabalho não visa julgar essas práticas. Como artista, apenas busco jogar luz sobre — afirma Varejão.

No catálogo da exposição, o curador Gaudêncio Fidelis escreve que a tela é uma “manifestação crítica diante do processo de colonização do país” e “perturba as relações verticais e eventualmente as horizontaliza (com as figuras deitadas ou reclinadas) por meio de relações sexuais heterossexuais e homossexuais”.

– É uma obra extremamente política, que questiona e critica todo o processo de colonização do país, as consequências da escravidão, além dos diversos aspectos de raças, crenças e culturas. É uma obra histórica – diz o curador.

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“Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva”, de Fernando Baril. Foto: Tadeu Vilani

A acusação referente a Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva trata do desrespeito à figura religiosa. Na obra, a figura de Jesus crucificado recebe diversos braços extras, como a deusa hindu Shiva, em que são adicionados elementos referentes à cultura ocidental, à cultura pop e ao consumismo. As denúncias usam como base o artigo 208 do Código Penal, em que “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso” é tipificado como crime. Fernando Baril, artista que pintou a obra em 1996, explica suas intenções:

– Aquele quadro tem 21 anos. Era uma semana santa, e eu estava lendo sobre as santas indianas, então resolvi fazer uma cruza entre Jesus Cristo e a deusa Shiva. Deu aquele montaréu de braços carregando só as porcarias que o Ocidente e a Igreja nos oferecem – explica Baril, que desabafa: – Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse “desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde”, ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser.

O curador Gaudêncio Fidelis ressalta que a arte ocidental baseia-se muito nos ícones e figuras religiosas e diz ser perigoso o precedente aberto em proibir obras do tipo:

– Grande parte da história da arte ocidental é baseada, depende e foi fundada na iconografia cristã. São obras importantes, como o Cristo Crucificado, de Roberto Cidade, que estava no centro da exposição, que estão em acervos de museus, já estiveram expostas em diversos museus. Agora, em um momento de conservadorismo, alguém decide que eu não posso mais vê-las. É algo estranho.

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Travesti de lambada e deusa das águas, de Bia Leite, 2013

A acusação mais grave que a exposição recebeu diz respeito à possível apologia à pedofilia: nos vídeos e textos que motivaram o fechamento da exposição, entretanto, há poucas acusações diretas a obras específicas. A mais contundente, no entanto, se refere às obras de Bia Leite. Nas telas, a artista se inspira em publicações do site Criança Viada – em que pessoas enviavam “fotografias antigas enquanto crianças que tinham traços/trejeitos não heteronormativos; com a intenção de celebrar esses traços, que durante toda a infância foram motivo de xingamentos e violência”, segundo Bia.

– Nós, LGBTs, já fomos crianças. Esse assunto incomoda porque nunca viramos LGBTs, nós sempre fomos. Todos devemos cuidar das crianças, e não reprimir a identidade delas ou seu modo de ser no mundo. Isso é muito grave. Sou totalmente contra a pedofilia e o abuso psicológico de crianças. O objetivo do trabalho é justamente o contrário, é que essas crianças tenham suas existências respeitadas – diz a artista.

Iuri Giusti, criador do site Criança Viada, também se manifestou sobre o assunto no Facebook:

“As frases que ilustram as obras da Bia são minhas e me doeu pra c… ver algo que eu escrevi, que foi tão lindamente entendido por anos, acabar sendo colocado como apologia à pedofilia por tanta gente inconsequente e desinformada”.

Gaudêncio reforça o posicionamento e ressalta o viés de combate ao preconceito contra crianças que não seguem os padrões:

– A obra é feita sob uma perspectiva positiva da comunidade LGBT sobre enfrentar o preconceito, o bullying e todas as questões que dizem respeito à manifestação de gênero. Nunca imaginei na minha vida profissional que uma pintura como aquela pudesse ser atribuída ao caráter de incitação à pedofilia. É uma desconexão.

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Obra de Thiago Martins
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Obra de Odires Mlazho
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Obra de Lygia Clark
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Obra de Cibele Bastos
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Vestimenta de noivo da época de 1950 por Flávio de Carvalho

Com informações de Vogue, RBS e Santander