A Meta Platforms, controladora do Instagram, passou a enfrentar nova pressão pública e institucional no Brasil após a suspensão de páginas LGBTQIA+ na plataforma. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), parlamentar trans eleita por São Paulo com 256.903 votos e com atuação em direitos humanos, manifestou-se no X após a multinacional voltar a ativar as páginas banidas, incluindo o perfil do @GayBlogBr, veículo jornalístico cuja conta havia sido desabilitada sem explicação pública individualizada.
O caso ocorre em meio a um inquérito civil do Ministério Público Federal (MPF) sobre possíveis prejuízos à população LGBTQIA+ decorrentes de mudanças recentes nas políticas da Meta. A investigação foi citada pelo Sleeping Giants Brasil em notificação extrajudicial enviada à big tech, e a apuração envolve preocupações relacionadas à segurança, à integridade e ao bem-estar de grupos historicamente expostos a discursos de ódio no ambiente digital.
A pressão também ocorre em um momento de avanço regulatório sobre plataformas digitais no país. Segundo a Agência Estado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em 21 de maio, decretos que alteram a regulamentação do Marco Civil da Internet e tratam da responsabilização de big techs após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o tema. A discussão envolve pontos diretamente relacionados ao caso dos perfis LGBTQIA+, como canais de denúncia, comunicação a usuários afetados e possibilidade de contestação de decisões de remoção.

Em seu pronunciamento, Hilton criticou a suspensão de perfis LGBTQIA+ sem explicação ou possibilidade de contestação e mencionou que a Meta restabeleceu as contas de @GayBlogBr, @Ezatamentchy, @UniversoLGBTQ, @SitePeeno e @ComunidadesLGBTQIA após sua denúncia. Segundo ela, o episódio ocorreu em um momento em que o Instagram estaria abrindo espaço para discursos LGBTfóbicos, misóginos e racistas, o que reforçaria a preocupação com a moderação da plataforma.
No ofício à Meta Platforms Brasil, Erika Hilton e a vereadora de São Paulo pelo PSOL Amanda Paschoal cobraram a reativação imediata dos perfis suspensos e pediram explicações sobre os critérios adotados pela plataforma. As parlamentares classificaram as páginas atingidas como espaços relevantes de comunicação e acolhimento para a população LGBTQIA+ no Brasil. O documento enviado descreve o episódio como um “apagamento simultâneo e coordenado” de páginas consolidadas de mídia independente, jornalismo de nicho, ativismo digital e economia criativa.
A cobrança inclui cinco pontos centrais: revisão das suspensões, indicação objetiva dos conteúdos ou condutas que teriam fundamentado eventuais punições, análise humana qualificada, preservação de dados e abertura de um canal direto de diálogo entre a Meta e os administradores dos perfis. O pedido de análise humana menciona a necessidade de equipes capazes de compreender o contexto cultural, as gírias, a liberdade artística e as dinâmicas sociais da comunidade LGBTQIA+ brasileira. O caso também foi noticiado pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo.

A arquitetura do apagamento
Em países como o Brasil, onde redes sociais concentram parte relevante da circulação de notícias e da mobilização pública, decisões de moderação podem produzir efeitos que não se limitam à gestão interna das plataformas. Para veículos, coletivos e criadores LGBTQIA+ que dependem dessas redes para distribuir conteúdo, alcançar audiência e preservar histórico de publicações, uma suspensão pode significar interrupção de receita, bloqueio temporário de arquivos digitais e redução da circulação de informações sobre direitos, saúde, cultura e violência.
Ao jornal Folha de S.Paulo, o GAY BLOG BR relatou que percebeu a indisponibilidade do perfil @gayblogbr em 30 de abril, quando a equipe preparava uma notícia sobre medida protetiva da Justiça de Goiás a um homem gay vítima de violência doméstica. Segundo Vinícius Yamada, editor-chefe do portal, o Instagram inicialmente solicitou reconhecimento facial, como se houvesse uma verificação de identidade pendente. Dois dias depois, em 2 de maio, a plataforma enviou um e-mail informando que a conta havia sido desabilitada definitivamente.

Segundo prints exibidos por Yamada, a mensagem da Meta dizia que a conta @gayblogbr havia sido desabilitada permanentemente por “não seguir os Padrões da Comunidade”. No entanto, não havia indicação objetiva de qual publicação, conduta ou conteúdo teria motivado a medida.
A reversão da suspensão do @gayblogbr ocorreu durante a apuração da Folha de S.Paulo. Enquanto era entrevistado por Vinicius Macêdo sobre a desativação do perfil, Yamada recebeu da Meta um comunicado informando que o nome de usuário poderia ser utilizado novamente. À reportagem de Macêdo, a empresa comandada por Mark Zuckerberg disse que não comentaria o caso.

Ofensiva do Sleeping Giants Brasil
A notificação extrajudicial enviada pelo Sleeping Giants Brasil deu contorno jurídico ao caso (leia na íntegra). A organização afirmou ter recebido inúmeras denúncias de remoções em massa envolvendo coletivos, veículos e páginas ligados aos direitos da população LGBTQIA+. Segundo a entidade, os relatos apontavam um mesmo padrão: contas retiradas do ar sem comunicação prévia e sem indicação da regra que teria sido violada.
No documento, o coletivo pediu que a Meta restabelecesse os perfis removidos em até 48 horas ou apresentasse as razões específicas para as suspensões. A notificação também cita o inquérito civil do Ministério Público Federal (MPF) sobre possíveis prejuízos à população LGBTQIA+ decorrentes de mudanças recentes nas políticas da empresa.
Humberto Ribeiro, diretor do Sleeping Giants Brasil, também relacionou o caso brasileiro a um debate internacional sobre a moderação de conteúdos LGBTQIA+ pela Meta. A notificação menciona relatos de censura a canais LGBTs em outros países, incluindo a remoção do perfil da BUTT Magazine, publicação queer fundada em Amsterdã, em 2001, por Gert Jonkers e Jop van Bennekom.
A notificação também cita mudanças anunciadas pela Meta em janeiro de 2025, criticadas por flexibilizar regras relacionadas a discursos sobre orientação sexual e identidade de gênero. Para o Sleeping Giants Brasil, esse contexto reforça a necessidade de explicações públicas sobre os critérios aplicados pela plataforma a conteúdos ligados à diversidade.

A sombra sobre Google e TikTok
O caso também dimensiona uma preocupação que não se limita ao Instagram. Para o GAY BLOG BR, a suspensão do perfil se soma a uma sequência de instabilidades em outras plataformas usadas para distribuição de conteúdo, descoberta de notícias e formação de audiência.
Em relação ao Google, o portal já vinha relatando problemas de indexação, perda de visibilidade no Google News, aumento anormal de URLs parametrizadas no Search Console e suspeitas de interpretação inadequada de páginas internas, buscas e estruturas multilíngues por sistemas automatizados. Em um site jornalístico de grande volume, esse tipo de falha pode deslocar a visibilidade de reportagens originais para páginas sem valor editorial, afetando tráfego, reputação técnica e receita.
No TikTok, a preocupação segue lógica semelhante. Segundo relatos recorrentes de criadores e veículos LGBTQIA+, conteúdos do segmento frequentemente esbarram em restrições de alcance ou leituras automatizadas rígidas de termos ligados à sexualidade, identidade de gênero, saúde, violência e cultura queer. O problema não está apenas na existência de regras, mas na dificuldade de saber quando uma regra foi aplicada, por qual motivo e com que possibilidade real de revisão.

Presença digital, risco real
Para leitores estrangeiros, esse quadro ajuda a explicar por que a suspensão de perfis no Instagram ganhou dimensão pública no Brasil. Segundo o IBGE, 168 milhões de pessoas com 10 anos ou mais usaram a internet no país em 2024, o equivalente a 89,1% dessa população; a internet também estava presente em 74,9 milhões de domicílios, ou 93,6% do total.
Nesse ambiente, páginas LGBTQIA+ não atuam apenas como perfis de entretenimento. Elas funcionam como canais de notícia, memória comunitária, serviço, acompanhamento de decisões judiciais e documentação de violações de direitos. Em 2024, o Grupo Gay da Bahia registrou 291 mortes violentas de pessoas LGBT+ no Brasil, incluindo 273 homicídios e 18 suicídios, dado que dimensiona a relevância de redes voltadas à informação e denúncia.
Quando esses canais perdem alcance ou saem do ar sem explicação clara, a consequência não se limita à esfera técnica: afeta a visibilidade de denúncias, reduz o acesso a informações de interesse público e fragiliza espaços que, para uma população vulnerabilizada, funcionam também como presença social. Para quem historicamente precisou lutar pelo direito de existir em público, a invisibilidade nunca é um detalhe operacional.
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