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Uma operadora de telefonia celular lançada nos Estados Unidos resolveu transformar o velho medo da diversidade em produto com mensalidade. A Radiant Mobile se apresenta como a “primeira operadora cristã” do país e vende planos de celular com filtro de conteúdo incluído. O plano individual custa US$ 29,99 (algo em torno de R$ 150) por mês, com chamadas, mensagens e dados ilimitados, segundo o site oficial da empresa.

Na prática, o “chip cristão” não é um aparelho especial nem um telefone diferente. Trata-se de um serviço de telefonia móvel que opera como uma MVNO, sigla em inglês para operadora móvel virtual. Esse tipo de empresa não possui torres próprias e usa a infraestrutura de outras redes. A própria Radiant afirma ser parceira da Compax, integrada à rede da T-Mobile, embora a T-Mobile tenha dito à imprensa internacional que não mantém relação direta com a Radiant Mobile.

O ponto mais controverso está no filtro vendido como “proteção familiar”. A Radiant diz que bloqueia conteúdos “prejudiciais” em nível de rede, antes que eles cheguem ao celular. Em seu FAQ, a empresa afirma que a categoria “sexuality” inclui conteúdos sobre LGBTQIA+, identidade de gênero e temas relacionados. A justificativa oficial é oferecer conteúdo alinhado a uma “visão bíblica” de identidade, sexualidade e família.

Empresa de telefonia cristã bloqueará páginas com conteúdo LGBT
Empresa de telefonia cristã bloqueará páginas com conteúdo LGBT (ILustração)

Em entrevista à MIT Technology Review, reproduzida por veículos como The Advocate, o fundador Paul Fisher afirmou que a proposta é criar um ambiente “centrado em Jesus”, livre de pornografia, de conteúdos LGBT e de conteúdos trans. A fala resume a lógica do serviço: vender conexão 5G enquanto tenta criar uma bolha digital onde pessoas LGBTQIA+ aparecem como risco moral.

A tecnologia de filtragem é fornecida pela empresa israelense Allot, segundo a própria Radiant. O serviço organiza domínios em categorias e pode impedir o acesso a páginas específicas. Segundo a cobertura internacional, isso permitiria barrar uma página LGBTQIA+ dentro de um site maior, como uma área temática de universidade, sem necessariamente derrubar o domínio principal.

BICHO-PAPÃO

O filtro leva o drama moral a outro nível. Como tudo acontece em nível de rede, antes de o conteúdo chegar ao aparelho, a empresa oferece uma internet domesticada, sem sustos, sem perguntas e sem LGBTQIA+ no caminho. A lista de categorias configuráveis confirma o tom do produto. O discurso é de segurança digital, mas o pacote mistura controle parental, moral religiosa e censura privada. Não se trata apenas de impedir golpes, vírus ou páginas ilegais. Informações sobre diversidade sexual e de gênero entram no mesmo circuito de conteúdos que precisam ser filtrados, como se identidade fosse ameaça técnica.

A estratégia comercial também tem altar e comissão. A página de parceria para pastores oferece 60 dias gratuitos e informa que a Radiant doará 5% da mensalidade de fiéis indicados para a igreja ou ministério participante. Em outras palavras, a bolha anti-LGBTQIA+ vem com programa de afiliados para congregações.

Além do chip, a empresa tenta montar um ecossistema religioso próprio. A área Radiant Life promete vídeos “centrados em Jesus”, histórias bíblicas para crianças, séries sobre santos e apóstolos, entrevistas, devocionais e jogos inspirados nas escrituras. O site ainda fala em pontos, prêmios mensais e valores acima de US$ 1 mil, porque até a fuga da realidade pode ganhar gamificação.

A política de privacidade acrescenta outra camada ao produto. A Radiant informa que pode coletar dados de conta, identificadores de aparelho, registros de chamadas, SMS e MMS, logs de sessão de dados, endereços IP, consultas DNS, informações de torre e dados de localização. A empresa diz que essas informações podem ser usadas para ativação, cobrança, prevenção de fraude, cumprimento legal, desempenho de rede e publicidade direcionada.

Filtros em nível de rede não são novidade. Operadoras já bloqueiam sites associados a malware e oferecem controle parental. A diferença, neste caso, é o uso religioso da filtragem e a tentativa de tratar conteúdos LGBTQIA+ como ameaça familiar. O próprio discurso da Radiant expõe a contradição: a empresa diz querer “retomar a internet para o povo de Deus”, mas cria uma internet filtrada para que determinados fiéis não encontrem temas que existem fora da tela. A realidade, no entanto, não desaparece porque uma operadora decidiu classificá-la como tentação.

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