Ator e diretor de teatro, Cássio Scapin acumula mais de 35 anos de carreira, trabalhando com os maiores nomes das artes se dividindo entre TV, cinema e principalmente os palcos, sua grande paixão. Ao ser perguntando sobre quantas peças teatrais já fez, nem mesmo ele se recorda. São muitas, inúmeras, de uma extensa carreira pautada em muito estudo e dedicação ao ofício.

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Ele já deu vida a personalidades como Ary Barroso, Jânio Quadros, Santos Dumont, Olavo Bilac, Brás Cubas (na peça Memórias Póstumas), além de ter conquistado o público infantil, marcando a memória de uma geração no celebrado seriado Castelo Rá-Tim-Bum exibido pela TV Cultura e reprisado por anos. O programa também deu origem à peça Admirável Nino Novo, 20 anos após a sua interpretação na televisão.

Em uma entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR, Cássio Scapin fala sobre política, televisão, redes sociais, haters, censura e a arte de representar.

Castelo Rá-Tim-Bum Cássio Scapin
Foto: Sérgio Santoian/Mensch

Você fez diversos trabalhos na televisão e em diferentes emissoras, no entanto a sua imagem/carreira é intensamente ligada ao teatro; afinal são incontáveis peças teatrais de sucesso. O que você quis dizer quando certa vez declarou “para mim o teatro é mais sacerdócio que profissão”?

Dado que é mais sacerdócio que profissão porque você dedica a sua vida ao teatro, mesmo que você não esteja em cena, mesmo que você não esteja atuando, todo tempo da sua vida é dedicado a observação e entender como aquilo se transforma pode ser material de uso para o teu trabalho, pra tua vida; então é nesse sentido e, muitas vezes, o trabalho no teatro é sacerdócio sim (risos), também no sentido que não é um trabalho tão bem remunerado. Às vezes você consegue sentir muita sorte de conseguir fazer a vida muito mais fazendo teatro do que televisão, mas no sentido de abnegação muito grande para fazer teatro, é uma dedicação imensa, onde as expectativas do sucesso e da devolução para você. Ela fica no sentido da realização pessoal, da realização daquele trabalho e aquilo que te dá o prazer principal. Então é nesse sentido que eu digo que é muito mais um sacerdócio do que uma profissão (risos).

Você fez EAD (Escola de Artes Dramáticas), Projeto Cacilda Becker (palestras, cursos e debates), Célia Helena e balé. Além de ator, você também é diretoer. Como você avalia quando percebe jovens querendo estudar teatro visando a fama, a TV e o glamour da profissão?

Quando jovens vão para o teatro buscando exatamente o sucesso ou uma via de passagem para a fama e para a glória, eu acho um equívoco; porque o teatro nem sempre te oferece isso, não é nenhuma garantia; eu sempre falo que se você tem pretensão a fama, objetiva no lugar onde ela tem um valor primordial, onde ela tem o seu principal valor, que são esses meios todos outros de comunicação. Para você ser famoso não precisa ser artista. E você ser artista não quer dizer exatamente que você vá ser um cara famoso; então, às vezes eu falo com as pessoas: “Olha, não perca o seu tempo, se é isso que você quer é em outro lugar que você tem que procurar”. Então é assim um pouquinho do que eu penso em relação às pessoas que vão buscar o teatro como só uma fonte de passagem, como só um caminho. Este não é o caminho, isso é uma arte específica, um trabalho, um ofício, um sacerdócio específico desta linguagem e que nem sempre vai ser glorificado com a expectativa que este sujeito tem a respeito de ser famoso ou de conseguir dinheiro, fama, prestígio, principalmente comercial.

Em uma ocasião você disse que fez duas peças teatrais que não gostaria de ter feito; isso já aconteceu contigo em relação à televisão?

É, eu já fiz bastante TV também, acabei fazendo, aceitando trabalhos de TV. Não acho um sofrimento fazer televisão, não me dá o prazer pessoal que eu tenho fazendo teatro, mas eu não acho nenhum sofrimento, você pode se divertir na televisão, você pode fazer coisas boas na televisão. Eu tive sorte de fazer coisas interessantes na televisão além do Castelo, eu fiz coisas interessantes, fiz uma minissérie da Maria Adelaide, eu fiz uma novela do Miguel, eu fiz uma coisa que eu chamo de (risos) aventura, na TV Record, Os Mutantes, que era uma diversão fazer aquilo. Então, isso eu acho também um pouco de exagero dizer que a televisão só te dar o dinheiro – não, ela te dá o dinheiro sim, mas você tem que saber aproveitar também como ator o prazer que ela pode te dar. Aí tem uma questão de preferência, eu sempre brinco assim: “O teatro é a tua casa, a televisão é a sua visita”, então você pode ter uma visita muito agradável e ser uma visita muito bem recebida, é só essa a diferença.

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Como foi reviver no teatro uma personagem da TV, na peça ‘Admirável Nino Novo‘? Foi difícil ‘entrar’ na personagem anos depois?

Retomar o Admirável Nino Novo foi uma experiência muito legal. Grande parte da minha vida adulta eu passei me relacionando com esse personagem, com o Nino do Castelo Rá-Tim-Bum, que foi um produto da TV Cultura que surpreendentemente é uma TV aberta, mas não é uma das principais da televisão, é uma TV estatal; ela não é uma TV comercial, ela não tem o suporte ou o alcance das TVs comerciais como a Globo, Record, SBT e Bandeirantes, ela é um lugar ali meio diferenciado e que fazia uma programação infantil diferenciada, que foi muito significativa em algumas gerações. O Castelo Rá-Tim-Bum ficou reprisando acho que durante uns 15 anos, portanto são mais ou menos cinco gerações que assistiram ao CasteloO Admirável Nino Novo foi esse reencontro, foi um pouquinho esse questionamento comigo mesmo. Mais uma vez o teatro está aí para isso, para você poder reavaliar as coisas, reestudar, repensar o que foi a trajetória no Admirável Nino Novo; ele ficava sozinho no Castelo depois que todas as crianças tinham ido embora, então, como que é esta questão? Tinha um personagem no Admirável Nino Novo que era o Ney Matogrosso que fazia, que se chamava Sr. Aventura e para mim foi importante que o Ney fizesse, pois o Ney foi referência na minha infância, com o Secos e Molhados. Ele era uma figura que virou referência, que fez parte da minha infância. Era muito icônico, o Ney era muito lúdico para as crianças e, olha que loucura, a que ponto nós chegamos hoje que aquela figura do Ney, hoje eu não sei se seria possível, apesar de todos os avanços que a gente teve na questão LGBT, mas hoje (risos) eu não sei como é que seria, visto tudo que tem acontecido. O Admirável Nino Novo era um questionamento sobre o tempo, tinha até uma musiquinha do Daniel Mike que falava isso “Para onde foi o tempo que passou…” , enfim… é um pouquinho isso. 

Castelo Rá Tim Bum o tornou conhecido para o público infantil que hoje já são adultos; ouvir frases como “você fez parte da minha infância” ou “minha infância foi assistindo ao Castelo” é cansativo?

Sobre as pessoas que me viam na infância e hoje estão crescidas e tal… é… tem essa coisa mesmo, as pessoas falam “ah, você fez parte da minha infância”. Eu não me aborreço com isso porque ou você encara com bom humor ou não tenho jeito, porque você é o inusitado do encontro pra aquela pessoa, mas a tua vida faz parte da tua vida. Então você se irritar ou se aborrecer com isso é um pouco se aborrecer com o teu histórico, se aborrecer com a tua vida, com a construção do que você fez. Então eu acho que não me sinto nem no direito. Claro que é estranho, né, você muda de assunto, as coisas mudam de assunto, mas você tem que entender que você é o inusitado daquele momento na vida daquela pessoa quando ela te encontra. “Você fez parte da minha infância” e é a primeira vez que ela está te vendo em carne e osso, está te vendo ali e é natural. Você não, você dorme e acorda com a tua história, então você tem que ter esta compreensão. Mais uma vez eu acho que o teatro ajuda as pessoas para isso também, para elas terem um olhar mais generoso com o outro, com as outras pessoas e ter um entendimento melhor do comportamento do outro; então não me aborreço não.

Foto: João Caldas

No passado você fez uma peça chamada “Harmonia em Negro” (1999) com a Ana Paula Arósio, como foi essa experiência?

Pois é… eu fiz muita coisa (risos), eu fiz muitos espetáculos (risos), até eu já perdi as contas. Fiz Harmonia em Negro com a Ana Paula, quem diria, fiz par amoroso com Ana Paula Arósio nesse espetáculo. Eram três microespetáculos de um autor italiano chamado Aldo Nicolai, que eu tinha ganho os direitos, e a gente fazia três casais diferentes em situações diferentes. Então, eu já fui par amoroso desta linda mulher, dessa atriz fantástica que é a Ana Paula Arósio, que aliás eu morro de vontade de reencontrar, porque a Ana Paula é uma pessoa muito, muito especial e a conduta dela eu acho bárbara, na verdade, eu acho ela de uma retidão bárbara… E, enfim, fiz muitos espetáculos variados. 

Em algum momento, lidar com a fama foi algo difícil pra você?

Falando um pouquinho dessa questão da fama, eu tenho o meu ponto de vista. É o seguinte: não dá, a nossa profissão é pública; como você disse… não sei se a palavra é exatamente atrelada a fama, porque fama é uma outra coisa, mas você se torna uma pessoa pública. Eu acho que cabe ao ator ele não se confundir, ele saber estabelecer limites que acho que hoje não acontece. As pessoas neste momento têm muito mais a tendência de vender a privacidade delas no mercado, de colocar a privacidade no mercado; não me interessa saber se você está trepando ou não na quarentena, quantas vezes você trepa por dia com o seu namorado, com o seu marido, com a sua esposa; não me interessa a sua casa; isso acho que as pessoas confundem, elas vendem isso e depois elas não querem um compromisso com isso que elas venderam. Então acho que, principalmente o artista, ele deve prezar o seu trabalho e não se tornar um personagem dele mesmo e vender esta imagem, e aí eu acho justíssimo que sejam cobrados. Eu acho ridículo não corresponder, não entregar o produto que você vendeu. Você vende isso, você vende a sua vida pública e aí você quer privacidade? Eu acho um pouco um contrassenso, né, acho uma contradição. Por isso eu tento ao máximo manter a privacidade, a minha vida pessoal, dentro de um lugar de segurança, mesmo porque eu acho que, tão mais interessante vai ser para o público se ele não souber nada de você (risos). Você tem tão mais liberdade para oferecer o que vier pela frente se o público não tiver uma ideia pré-formatada da sua vida e das suas capacidades e do seu histórico. Você tem muito mais chance de surpreender o público com um trabalho mais interessante.

Você ficou com o corpo definido/sarado, fruto de muita malhação; você acredita que o seu ofício exige também a vaidade? 

Tem a questão da vaidade sim. Eu acho que não é exatamente uma questão só da vaidade, mas o corpo do ator é um pouco do instrumento do tempo dele. A gente é um retrato do tempo da gente, os atores são este registro. E outra coisa, o teu material de trabalho ele tem que estar muito acordado para fazer teatro, o teu corpo tem que estar muito disponível. Então eu malho, eu faço aula de balé clássico até hoje, tenho feito durante a quarentena com o professor Paulo Vinícius aulas online para não perder a bolsa que eu tenho na Escola Livre de Dança do Teatro Municipal aqui, que eu era aluno assíduo, eu ia todos os dias para aula de dança. Então eu acho que você tem sim a sua obrigação de estar com o teu instrumento muito bem afinado, porque se um músico não tiver o seu violino afinado, o trabalho dele não vai ser bom, então eu faço aula de canto, eu estudo até hoje. Eu não parei de estudar, eu digo que eu nunca sei, eu fiz tantos espetáculos e nunca sei como é que faz, eu nunca sei como começa, eu não sei se vai dar certo, eu não sei se eu vou ter capacidade, a gente tem medo de tudo na verdade. O teatro é muito assustador, quanto mais você conhece, mais assustador ele vai ficando, porque a responsabilidade com o teu trabalho, com você dentro do que você já fez, as tuas expectativas com você mesmo, elas vão aumentando porque você não quer parar no tempo. Eu abomino os atores que param e arranjam uma fórmula para fazer. Eu não tenho fórmula, não sei como é que começa, não sei como é que termina, eu não sei nada… E a gente vai descobrindo.

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Aliás em um dos trabalhos na TV, você raspou a cabeça… 

Pois é, uma das novelas que eu fiz O Rico e Lázaro, eu raspei a cabeça e eu não tenho medo nesse sentido. A vaidade do ator reside em outro lugar para mim, é a capacidade que você tem de se transformar. Isso me envaidece na profissão, falar “ah, gente, virei outra coisa, consegui”. A gente se dispõe né, a gente tá a serviço, eu não aguento muito também ator que fala “ah não, mas isso não vai ficar bem”, não! A gente está a serviço, o nosso trabalho é estar a serviço de um personagem, de uma imagem diferente. Não dá para ficar parado e se congelar numa única coisa, numa única forma. Isto eu acho lindo da profissão, hoje se fala tanto em lugar de fala, eu acho que este é o lugar de fala do ator. O ator, ele pode ser qualquer coisa: de sexo, gênero, idade; está é a graça da representação, essa é a graça do nosso trabalho, é não ter limite de tempo, de sexo, de local, de nacionalidade e isto está um pouquinho se perdendo. Essa é uma discussão que a gente teria que ter muito aprofundadamente a respeito do ofício do ator. O ator ele representa, ele é uma representação, ofício dele é de representar algo, ele não precisa ser algo; o ser algo é uma outra coisa, a gente vai encaminhar essa discussão em um outro lugar; então eu acho que as coisas estão tendo que ser reconversadas, porque as pessoas estão confundindo muito as coisas, do ser e do representar que é. Nosso trabalho é de representação, a gente representa algo, a gente necessariamente não tem que ser algo, e a partir da representação, quem assiste tem uma visão crítica distanciada que pode, inclusive, ser melhor aproveitada e ajudar em todas as causas.

Teve uma minissérie que eu fiz, da Maria Adelaide Amaral, que era genial. Se chamava ‘Um Só Coração’, que eu fazia o Santos Dummont, e mais que raspar a cabeça, eu tive que raspar o cabelo na frente para ficar calvo. Então eu fiquei com a aparência complicada, porque eram dois dedos de um cabelo do personagem que era meu, mas já tinha dois dedos da minha cabeça raspados, porque ele era calvo. Então é mais complicado até do que ficar careca, mas era uma delícia de fazer e, mais uma vez trabalhando com a Ana Paula Arósio, eu era apaixonado pelo personagem da Ana (Yolanda). A questão da vaidade do ator para mim reside muito mais na felicidade, na capacidade que você tem de transformar a sua cara e dizer “olha que bacana, eu posso ser várias coisas posso ter vários aspectos, posso ser mutante” (risos) uma metamorfose ambulante.

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E por falar em televisão, você assiste TV aberta? E como você analisa a qualidade da programação hoje em dia? 

Tenho assistido muito pouco TV aberta. Na TV aberta, o que eu vejo principalmente são noticiários e, se me indicam uma coisa muito interessante na TV aberta, uma série, eu acabo assistindo. Mas eu não tenho assistido muito TV aberta não, vou confessar. Eu tenho visto muito mais os canais fechados, as séries dos canais fechados. Eu acho uma chatice esses programas de fofoca, é um rendimento… uma mais valia do trabalho do outro, né (risos)? Mas se os canais de fofoca existem, é porque há mercado para eles, não é mesmo? Para esse tipo de programa se satisfaz de alguma maneira uma certa audiência – se não uma grande audiência – e satisfaz também, quem sabe, até a expectativa de alguns artistas (risos)… voltando a falar da questão da fama. Corresponde talvez a necessidade tem gente que gosta de estar nestes programas de fofocas, acha interessante. Eu sou um cara que odeia reality show, seja lá de que gênero for, eu detesto. Não sou fã de reality shows porque não tem nada de reality ali, não tem nada de real… Enfim, é uma bobajada pra dar a impressão que as pessoas estão vendo alguma coisa inédita e estão perscrutando a vida alheia, mas eu acho tudo uma chatice.

Com o avanço da internet, das redes sociais, muitas pessoas questionam o futuro da televisão. Você acha que o futuro da TV é incerto?

Eu não acho que futuro da televisão seja incerto, acho que o futuro no geral é incerto. Eu acho que o futuro deste país tá incerto, o futuro deste país não é promissor; então, não é especificamente a televisão. A televisão está enfrentando dificuldades… várias, desde os novos meios de comunicação, que tiraram a hegemonia da televisão o poder hegemônico que ela tinha de comunicação, de ação no cotidiano da população até a situação econômica do país. Está todo mundo numa situação complicada, de entender o que somos e o que seremos e pra onde vamos; então o futuro é incerto. 

Foto: Sérgio Santoian/Mensch

Você é muito ativo nas redes sociais, e ela possibilita esse contato direto com o público. Como você lida com a abordagem nas mídias sociais? Alguma vez já teve que lidar com haters?

Eu aprendi a ser ativo nas redes sociais, é uma ferramenta que eu tô dominando há uns 2 ou 3 anos e não domino. Eu faço muitos erros, eu sou da geração analógica (risos), eu não sou tão tecnológico. Tive problemas sim com haters, principalmente no período da eleição, porque eu coloquei qual seria o meu candidato, na época foi o Ciro Gomes. Não aprovo esse governo, não é meu candidato, eu acho que não foi um grande equívoco nacional, é possível sim o equívoco coletivo, em massa, assim como existe consciente coletivo existe também os equívocos coletivos; então, este é um equívoco terrível que a gente tem. É um governo definitivamente que eu acho que não tem um descaso com a cultura, eu acho que faz caso da cultura sim, numa tentativa inclusive de destruir a cultura. É um governo que necessita da destruição do pensamento: se você não tem cultura, você não articula o pensamento, Se você não tem educação, você não articula o pensamento, você não tem saúde, você não articula o pensamento, são três bases fundamentais que este governo faz questão de… não digo nem de mostrar descaso, no caso da cultura é um combate que faz muito caso da cultura, né, tanto que tem uma preocupação muito grande em desmerecer e desconstruir a cultura. 

Por você ter se posicionado politicamente, você chegou a ser alvo de ataques na internet de apoiadores do Bolsonaro?

Na época das eleições eu cheguei a receber telefonemas anônimos de que eu ia morrer (risos), porque eu postava, seguidamente, que a gente precisava do debate público com todos os presidentes ou seus representantes para dizer o plano de governo. A gente teve uma presidência que se elegeu sem contar qual era o plano de governo e a gente vê que o plano de governo não existia. Existe um plano de poder que a gente tá se deparando aí e não tá lidando de uma maneira boa ou eficaz contra esse plano de poder; a gente tá muito instável, a gente tá muito ameaçado, a gente numa situação muito, muito delicada. 

Como você avalia o descaso do Governo com a causa LGBTQ+?

Quando você tem uma política que ela é repressora de novos pensamentos, novos comportamentos, claro que este segmento LGBTQI+ nesse momento vai sofrer, como está sofrendo. É muito difícil você lidar com uma política que não admite outros padrões de comportamento a não ser os estabelecidos por eles mesmos, dentro de uma moralidade hipócrita, mentirosa, tacanha, de uma educação excludente, de uma formação onde você exclui várias minorias. Eu falo a gente tá tendo problema, não que não tivesse antes, mas a questão do racismo, acho que no Brasil se exacerbou. Se exacerbou também porque as comunidades começaram a se defender mais, com mais clareza, porque está tendo um ataque velado, está tendo um ataque autorizado. Então, o pior tá surgindo da gente nesse momento, não é o melhor. Quem sabe o pior tá vindo à tona para depurar no futuro, eu acredito pouco, eu ando bem pessimista neste momento. Tinha no começo da pandemia essa conversa de quê “ah, que bom paramos todos para pensar, o mundo precisava dessa parada”, não tô achando melhor, eu tô achando bem pior. As pessoas, as coisas vão voltar ao normal, tem um novo normal, o novo normal talvez seja uma piora de comportamento, as pessoas não estão mais humanizadas, elas estão se lixando para a quantidade de mortos no país, elas querem tocar a vida delas. Você vai dizer “ah, ok, é porque a população do Brasil é muito grande, então este percentual de mortos corresponde…” O caralho, né? É uma guerra, você tem uma contagem já de guerra. São vidas e as pessoas estão correndo pela raia de fora, parece que tudo tá normal e não tá, não está. Acho que existe também essa questão LGBTQI+, eu acho que existe sim uma tentativa de que as coisas voltem para as caixas, para os armários, para que o padrão da família estabelecida por uma parte estúpida da sociedade seja respeitado… preservado.

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Como é a sua relação com a nudez na arte? Você já encenou algumas peças teatrais em que ficou nu/semi nu nos palcos. Inclusive, em 2018, você postou no um “TBT no Instagram de uma espetáculo de 1990 e essa foto foi censurada pela rede social, não foi?

Eu tive problema no Instagram, eu acho que sou um dos atores que mais ficaram nus no teatro paulista – dos que não fizeram Zé Celso Martinez Corrêa, né? Então não estando protegido com um grupo, eu acho que eu sou um dos atores que individualmente mais ficou sem roupa no teatro. Já tive cenas muito fortes dentro do teatro, com nudez, com sexo. Eu fazia um espetáculo chamado Pantaleão e as Visitadoras, do Mário Vargas Llosa, que eu fazia um militar que era interrogado e eu tinha uma cena nu inteiro dentro de um espaço absolutamente vazio, nu, falando ao microfone no interrogatório do exército. E essa cena foi fotografada e saiu na capa da Folha de São Paulo (Ilustrada) na época e, num TBT, eu resolvi postar essa foto. Na época que postei, os haters tinham este controle [de ficar reportando a foto como inapropriada], esta milícia das redes sociais estava muito mais ativa; agora estão mais quietos por causa de todos os processos das fake news, dos hackers e tudo mais… Enfim, agora eles estão mais quietos, mas eu quase tive o meu Instagram excluído, eu tive que retirar a fotografia. 

Eu fiz vários espetáculos, fiz Pasolini, que eu ficava sem roupa e tinha cenas de sexo, Angels in América, com João Vitti, tinha cena na cama… Enfim, é uma coisa muito maluca, não existe a relação do corpo com a arte. Se você parar para pensar está todo mundo pelado embaixo da roupa, é uma coisa ridícula este comportamento moralista, censor, dizendo que o corpo é proibido. A gente tá num retrocesso muito violento, né?

Eu danço, sempre fiz aula de dança, os corpos nus dançando são uma das coisas mais bonitas que você pode ver num palco, a linha do corpo… enfim. É uma visão tola, é uma visão tosca essa censura com o corpo. O corpo é liberto, todos nós nascemos nus, todos nós morreremos nus, nada sobrará, entendeu? É muito idiota você sexualizar tudo que é nu. A nudez é uma coisa, é a maior simplicidade que você pode ter, é o despojamento de tudo, é a maior entrega que você pode estar, você não tem artifício nenhum dos teus defeitos, qualidades… Enfim, está tudo à mostra, o corpo nu em cena, um resumo de uma existência.

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Você já trabalhou com grandes nomes, como a saudosa Marília Pêra, Jô Soares, Tarcísio Meira, Marco Nanini, Marieta Severo e tantos outros consagrados. Diversos espetáculos foram sucesso de público e crítica, além de prêmios recebidos. Podemos dizer que você já conquistou aquela autonomia, a liberdade de poder escolher os trabalhos que quer fazer?  

Pois é, eu trabalhei com tanta gente bonita, tanta gente bacana, se tem uma coisa que eu me orgulho é das pessoas que eu conheci, da gente que eu cruzei na vida… Paulo Autran, Antônio Abujamra… pessoas maravilhosas. Eu tive uma sorte de transitar numa geração que pegou umas feras da formação, inclusive do pensamento, que eram pessoas que se focavam na profissão. Não só na subsistência, mas a subsistência aliada à formação do pensamento, à formação da cultura, à inteligência, à descoberta, à discussão do humano. Então, eu peguei uma ossada que era sangue no olho (risos), que eram lindos, então tive esta sorte. 

E, não, eu não alcancei a autonomia. Eu tenho um pouco mais de liberdade de escolha, é um pouco mais, mas eu não tenho autonomia. É difícil para um ator brasileiro, ainda mais neste momento, determinar… falar “não, não, isso eu não faço”. Muitas vezes a gente precisa fazer por uma questão objetiva de sobrevivência, de subsistência. A subsistência não está resolvida, a gente tá num país que não tem apoio. Você não tem um plano de estrutura de suporte para os atores ou para as pessoas que trabalham com a arte; então não, eu não posso me dar ao luxo de negar coisas. Escolho mais? Sim, posso escolher mais, falo “não, aqui tá demais, não vou fazer” e se não tenho vontade, OK, tá bom, vamos abrir mão deste cachê, desse dinheiro, porque vai custar mais caro no meu travesseiro, vou ficar insatisfeito, vou ficar triste. Então eu já posso me dar a um certo luxo, mas não é tudo, tem coisas que “ah não, tudo bem, aqui não me violenta, não me faz mal, não vai me fazer mal”. Se eu pudesse não faria, mas no momento eu vou fazer, eu acho que isso acontece para todos. Eu acho que é difícil, você tem uma gradação aí de quem pode mais ou quem pode menos, mas tem uma hora que todos precisam. 

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E por falar em prêmios, você já conquistou vários… 

Pois é, verdade, eu ganhei bastantes prêmios, que é uma loucura, né? Se fosse nos Estados Unidos ou na França… você tem o Tony, você tem o Molière… isso agrega na sua carreira, isso faz você valer mais no mercado. Aqui no Brasil os prêmios são muito legais, é muito bom receber um prêmio porque o teu trabalho foi reconhecido naquele momento, mas ele não valida o teu passe, a gente não é jogador de futebol (risos). Você não tem o passe validado se você ganha um prêmio, não melhora o teu salário, é uma coisa muito ingrata, mas é claro que é melhor ganhar do que não ganhar, né? Quando você ganha um prêmio você fala “p****, que bom, meu trabalho foi reconhecido”. Fui indicado para vários prêmios e ganhei alguns, é bom saber que você significa dentro do que você tá fazendo, você tem um peso, uma significância. A gente não se deslumbra com o sucesso da profissão quando a gente coloca atenção na história, e isso tem a ver com o conhecimento, eu conheci tantos atores maravilhosos e que tiveram uma vida tão difícil, como a própria Myriam Muniz, que era fenomenal e a sua vida foi muito difícil, muito árdua, principalmente no final de carreira, no final da vida porque ela ainda trabalhava, tinha recentemente feito Nina (filme) quando faleceu… e você vê o histórico de tantos grandes atores que no fim da vida têm uma vida tão difícil que você não pode se deslumbrar. Você tem que entender que a tua profissão é muito árdua e pode ser que não tenha um final feliz, então, isso te aterra de uma maneira, te coloca presente e atento e pronto para o trabalho, para trabalhar. A Bibi Ferreira, aos noventa e tantos anos, ela precisava trabalhar para poder se sustentar: primeiro que ela trabalhava por prazer sempre, mas também porque precisava pagar as contas. As aposentadorias que nós recebemos são pífias ou você paga o plano de saúde, que é quando você vai precisar, ou você paga o condomínio. Para entender que a vida da gente, é a vida de qualquer trabalhador. Nós temos esta questão, é um trabalho muito interessante, é um trabalho lindo, mas é um trabalho, a gente não escapa do cotidiano, a vida não termina com um “The End” e uma música grandiosa no final, não é assim.

Nestes tempos de pandemia, isolamento social, você chegou a fazer ou recebeu alguma proposta de encenar uma peça de forma virtual?   

Eu fiz algumas experiências, eu fiz “Eu Não dava Praquilo”, acabei adaptando, fiz para o “Sesc ao Vivo” e depois fiz para APA. E fiz um solo Os Malefícios do Fumo, do Tchekhov, para a Vivo. Um está disponível no meu canal do YouTube. Eu tenho um canalzinho com pouquíssimos seguidores porque eu não sei operar (risos), eu preciso sempre de socorro dos universitários para que eles me ajudem a operar, o que nem sempre é possível, mas tá lá: o Eu Não Dava Praquilo no meu canal do YouTube e Os Malefícios do Fumo. Não é teatro, na minha opinião, né? Isto é um paliativo, é uma linguagem audiovisual, não tem outra denominação, estamos no audiovisual, é bom para lembrar que o teatro existe e que os atores estão vivos, estão prestes a retornar, prontos para retornar, assim que possível, mas isto não é teatro; não adianta você gravar do palco e transmitir, não é teatro. O teatro se faz do encontro presencial, você pode dominar de uma outra maneira, uma experiência… mas não, o teatro é presencial. Você precisa do encontro da plateia e não estou falando só do encontro do ator com o público, mas do público com o público. Uma sala. Quando você vir um desconhecido do lado, numa mesma coisa, e vocês participam de uma mesma ficção criada naquele momento para vocês que não se conhecem, vocês são colocados em sintonia também, tanto entre vocês entre o público e os atores. Então esta coisa eu acho interessante como experiência. Eu acabei de fazer um filme também, um longa que a gente gravou dentro do protocolo de saúde, gravou tudo no Chroma Key e foi uma experiência bem maluca. Os grande atores gravaram individualmente, por protocolo de segurança. Então, eu estou pronto a experimentar dentro da minha profissão e experimento sim, sem medo; vamos lá, vamos dar a cara para bater, a gente não tem muito o que perder, né? Tem um ditado judaico que diz “tema quem não tem nada a perder, porque quem não tem nada a perder, não tem nada a perder”. Então, vamos lá. Já fiz sim essas experiências todas, gravei uma campanha contra a violência infantil, contra o abuso infantil também, que vai para o ar daqui a pouquinho, uma campanha chamada “Não Mexe Comigo”, gravei para o ursinho Kim também, fiz uma experiência em casa para postar nas redes sociais também sobre violência infantil na quarentena. Então a gente vai fazendo coisas, a gente experimenta, a gente está aberto, a vida continua. A gente tem que se adaptando e fazendo o melhor que a gente pode com o que a gente tem. 

No final dos anos 80, você fez participações no programa Perdidos na Noite (Band) do Faustão, não é?

O Perdidos na Noite no Faustão eu fui para anunciar, para fazer propaganda de espetáculo de teatro. O Faustão tinha esta coisa… ele recebia os atores e os atores faziam propaganda dentro do Perdidos na Noite. Quando o Faustão foi para Rede Globo fazer o Domingão do Faustão, eu fui convidado para fazer o programa dele e estreei o programa junto com a Adriana Esteves, que para mim foi uma loucura. Eu era meio que recém-saído da escola de arte dramática e tinha uma questão com o ser ator. E fui cair num programa de auditório, de jogos, chamava Controle Remoto, e pra mim foi um choque (risos). Tive essa experiência lá e fiquei um tempo no Controle Remoto, depois entrou o Pedro Cardoso e a Stella Freitas depois da Adriana e eu termos saído. Mas é isso, mas eu nunca trabalhei na Band no Perdidos na Noite, não.

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Pra terminar a nossa entrevista, é verdade que no início dos anos 1990 você foi clubber?

Pois é menino, eu fui clubber, eu frequentava a noite… Muito. Eu era muito notívago quando era jovem e, por acaso, o Castelo Rá-Tim-Bum também virou uma coisa meio ícone-clubber, eu acho que por causa do figurino, de todo o aparato que tinha. Então eu era muito bem recebido na noite paulistana e na noite carioca. Eu ia muito, eu saía muito, fui muito baladeiro e foi um período muito bom da vida, era muito divertido, era muito feliz, tinha bons amigos, fiz bons amigos na noite, boas relações, me diverti muito, namorei muito. Foi um período muito legal, acabei virando capa da Veja São Paulo, da Vejinha (1993) que a gente chama aqui, da noite clubber. Então a gente tem uma baita quantidade de gente lá que era umas figuras proeminentes da noite paulistana, da noite clubber na capa dessa revista, foi um período muito gostosinho da minha vida, devo confessar.

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