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Nascida em Milão, na Itália, a cantora e compositora Gala conheceu a fama e o sucesso aos 22 anos, quando lançou seu primeiro álbum em 1997. Em pouco tempo entrou nos charts mundiais com os hits Come into my Life, Freed from Desire e Let a Boy Cry.

Inteligente, talentosa e determinada, a cantora mudou para os Estados Unidos aos 16 anos em busca de novas experiências culturais. Enquanto estudava artes, a italiana passou a se dedicar à música, compondo tudo o que nós bem conhecemos. Nos anos 2000, Gala Rizzatto passou a se dedicar a projetos autorais através de sua gravadora independente Matriarch e, claro, fazendo shows, principalmente na Europa.

Em uma entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR, Gala lembrou com carinho do público brasileiro nas duas vezes que esteve no país e assinalou outros assuntos envolvendo a a comunidade LGBTQ+.

Gala – reprodução

Antes de mais nada, é um prazer para nós do GAY BLOG BR entrevistá-la. Sua música “Come into My life” foi lançada há 23 anos e fez um grande sucesso no mundo todo, principalmente no Brasil. Não acha incrível que passados mais de 20 anos as pessoas ainda se lembram e curtem essa música?

Isto significa muito para mim. Enquanto eu estava lendo a sua pergunta, fiquei chocada ao saber que já se passaram 23 anos. Sei que racionalmente é assim, mas absolutamente não percebo o tempo como a maioria das pessoas. Para mim foi ontem. Não só porque o tempo passa rápido e como todos se sentem, mas particularmente sinto que vivo em um mundo atemporal. Não vejo o tempo como uma flecha disparada para frente, mas vejo o tempo como circular. Quando eu tinha 16 anos, entendi bem os problemas das pessoas mais velhas e me senti mais próxima de questões profundas envolvendo a vida e a morte. À medida que envelheço, fico mais leve e jovem de espírito. Eu era uma alma sábia em um corpo jovem e agora sinto que tenho uma alma de criança, mas sou uma mulher adulta.

Outras músicas suas que fizeram grande sucesso foram “Freed from Desire” e “Let a Boy cry”, essa última tinha um videoclipe com uma atmosfera LGBT+, certo?

Eu mesma não posso dizer, mas muitos jornalistas têm falado sobre LET A BOY CRY como sendo um vídeo pioneiro no conceito “queer”. Na música, eu falei sobre como não me identificava pessoalmente nem com as meninas, nem com os meninos, mas sentia como um ser único que não pode ser colocado numa caixa azul e nem numa rosa, “eu fui um pirata, eu naveguei livre”.

No início dos anos 90, eu estava estudando Fotografia em Nova York e me inteirei sobre ‘estudos de gênero’. Eu estava muito bem informada sobre assuntos que as pessoas negras da minha idade na Europa não conheciam. Eu li livros sobre feminismo, psicologia masculina, papéis de gênero, etc. De “O Mito da Beleza“, de Naomi Wolves, a livros como “A vida dos homens“, esses eram requisitos no meu curso de estudos de gênero. Também fui criada por uma mãe muito feminista em um país muito machista, o que me fez duvidar desde que eu era jovem a validade dos papéis de gênero. Por que uma mulher não pode jogar futebol e um cara não pode amar balé, sem ser gay? Agora, isso parece ser um exemplo bobo nos dias de hoje, mas você ficaria surpreso com o quão fortes esses preconceitos ainda são.

reprodução

Eu pedi à gravadora que é detentora dos vídeos que postasse esse vídeo em alta qualidade online, pois nos anos 90 fiz ele propositalmente em 35 milímetros, pensando no futuro, que um dia esse nível de qualidade de imagem seria importante, mas a gravadora ainda não apresentou uma versão em alta qualidade o que realmente me parte o coração. Eu gravei este vídeo com meu amigo Philippe Antonello e o incrível vencedor do Oscar Luca Bigazzi (“The Great Beauty” – 2013). Eu escolhi cada rapaz e garota que você vê no vídeo. Encontrei as crianças nas ruas da Itália. Um deles se tornou ator e agora mora em Los Angeles.

Você nasceu na Itália, por que decidiu viver em Nova York?

Aos 16 anos, eu me sentia muito limitada no meu país. A Itália, nos anos 80, era um país machista. também tive alguns momentos difíceis em casa, senti a necessidade de ir a algum lugar e procurar por algo mais do que o mundo que eu conhecia. Pensei em qual seria a melhor cidade: Madrid tinha o Flamenco que era um tipo de música e dança que me fascinava, Londres estava mais perto e falam inglês, que é uma língua que eu adoro e conheço bem, Paris tinha uma ótima escola de cinema e eu estava interessada em filmes. Mas Nova York tinha tudo. É minha cidade favorita no mundo. Não é a América/Estados Unidos, é Nova York.

Você começou sua carreira muito jovem, sempre quis ser cantora? Porque eu sei que você estudou Artes/Fotografia.

Eu queria ser dançarina. Aos 13 anos me disseram que eu não poderia dançar porque tinha um problema nas costas. Foi traumático, como se fosse a dor do luto. Era minha vocação, minha paixão, minha razão de ser, meu destino; e senti que isso me foi levado de um dia para o outro. Minha vida é uma dança em torno da minha busca pela dança… Cantar também faz parte de mim desde que eu era criança, mas não como acontece com as crianças americanas, onde uma vez que elas têm uma paixão, elas têm um sistema que apoia essa paixão desde o ensino médio e faculdade, onde muitas vezes elas têm a possibilidade de frequentar aulas de dança/música. Quando eu era criança, na Itália, não tínhamos nada assim. Nos Estados Unidos também existe uma cultura de entretenimento, então, uma vez que uma criança é talentosa em alguma coisa, há uma maneira de perseguir seus sonhos.

Como compositora, o que te inspira?

Amo escrever canções e poesia. As músicas podem ser limitantes hoje em dia para mim, porque sinto que a maneira perfeita de me expressar seria elaborar uma pequena tese de um conceito. Por exemplo, eu estava caminhando outro dia e percebi que a única maneira de ver o sol é graças às nuvens. Eu nunca poderia olhar diretamente para o sol, ficaria cega, então a maneira que eu posso aproveitar o sol no céu é olhando para seu reflexo dourado nas nuvens. Eu escrevi uma página sobre isso e, então, se eu precisar encaixar um conceito em uma música, ele pode se tornar mais poderoso graças à música, mas também menos claro porque não há espaço suficiente para explicar todos os pensamentos que eu tive sobre isso e todas as ramificações que esse simples pensamento teve em minha mente… Músicas pop (em comparação com, digamos: baladas folk) podem ser muito limitantes para expressar tudo o que eu quero expressar. Mas eu tento o melhor para pegar algo mais complexo e depois colocá-lo na forma pop, que geralmente tem dois versos, um pré e um refrão.

Você esteve no Brasil em 2010 e 2011, quais lembranças você tem do país?

As melhores. Em todas as conversas que tenho sobre os shows que fiz, conto que o melhor público que eu já tive foi no Brasil. As pessoas aí não brincam quando o assunto é diversão. Elas suam, gritam, dançam, vivem. Elas amam. Lembro que no Rio, em uma boate pequena, e em São Paulo, no Sambódromo, as pessoas sabiam todas as letras das minhas músicas e gritavam com vontade, sem pudor. Eu detesto aquele tipo de público que não se diverte e fica preocupado com a própria aparência para as outras pessoas ao redor. Gosto quando as pessoas perdem o controle, no bom sentido. A vida é curta. A música é uma celebração. O Brasil sabe disso.

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Você conhece a música brasileira?

Sim, algumas. É linda, relaxante e apaixonada ao mesmo tempo. Feliz e melancólica, assim como as pessoas.

Você define seu estilo musical como Eurodance?

Eu não me identifico com este gênero. E eu não conheço esse gênero, na verdade. Algumas pessoas me colocam nesta caixa, mas meus fãs mais próximos não. Sempre fui uma exceção nesse sentido, posso ser colocada nessas definições, mas não me identifico com isso. Talvez os DJs que remixaram minhas músicas, mas eu as compus inspirado no blues, pop, rock, new wave, etc.

Em 2013, você gravou um vídeo sobre violência/homofobia gay. Eu lembro que naquela época havia muitos casos de bullying acontecendo.

Recebi a notificação de um comentário postado na caixa de comentários de um vídeo. Dizi algo como: “dOrty gay” [dOrty é uma gíria para se referir a uma pessoa promíscua]. Eu não posso acreditar como as pessoas podem ser horríveis. Mas isso me mostrou o quão é importante eu falar, mesmo que eu corresse o risco de ser insultada. Acima de tudo, sempre vou defender a comunidade LGBTQ+.

Ao longo de sua carreira, você tem participado de algumas Prides na Europa, principalmente na Espanha, como foi essa experiência?

Foi fantástico. Principalmente a Parada Gay de Madrid e a de Barcelona, na Plaza de España. Adoraria ser convidada para uma parada LGBT no Brasil. Um sonho. Simplesmente o melhor público de todos: LGBTQ+ e no Brasil. O melhor. Tive orgulho de não apenas cantar, mas de representar também!

Quais são seus próximos projetos quando a pandemia acabar?

Tenho escrito muito nos últimos anos. Eu tenho guardado músicas incríveis. No meu computador tem poesia, música, ritmos, ideias e singles já prontos. O problema é encontrar uma equipe e ter verbas para fazer um disco, fazer a produção, mixagem, masterização, videoclipes, promoção, capa do CD… Um disco requer um trabalho sério e algum dinheiro. Eu sei que as pessoas que não vivem os bastidores podem entendem isso. Nem todas as pessoas são privilegiadas e têm a sorte de uma equipe ou dinheiro disponível para investir na sua própria arte. Há muitos poetas, músicos, pintores, bailarinos, artistas que sonham em se expressar, mas são limitados pelas condições financeiras. Todo o mundo acha que, por eu ter escrito hits, eu ganhei milhões e assim posso produzir um disco a cada poucos anos, como a Beyoncé, mas não é o caso. Minha ex-gravadora tem esse tipo de poder, eu não. Porque como uma jovem e ingênua artista, assinei um contrato que não me dava o controle sobre as minhas próprias criações, as quais eu deveria ter direito. Vou explicar isso melhor abaixo.

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Nos últimos cinco anos, analisei todos os principais lançamentos de música pop de cantores e cantoras. E a maioria dos grandes artistas pop teve cerca de 85% de colaboradores masculinos. Geralmente a cantora é mulher, mas quando se trata de produção, compositores, músicos, engenheiros de gravação, engenheiros de mixagem, engenheiro de masterização, diretores de vídeo, equipe de turnê, empresários, diretores de vídeo, coreógrafos, fotógrafos, etc, eles são principalmente homens. Então, mesmo que a garota-propaganda da banda seja uma mulher, a indústria da música sempre está dando trabalho e dinheiro para uma quantidade absurda de homens, em comparação com as mulheres. Então imagine uma mulher depois dos 30-40… A menos que você tenha dinheiro ou uma equipe de empresário/gravadora unida com você, é difícil conseguir o apoio de uma gravadora. Uma pena, porque eu sou uma compositora, cantora, artista e letrista muito melhor hoje; e eu tenho muito a compartilhar e a ensinar e eu estou tão apaixonado por isso. A gravadoras, hoje em dia, não estão investindo. E tudo que elas olham é o número de seguidores. Eu me apresento em grandes locais às vezes; no ano passado fiz show em um estádio de futebol, mas um estádio lotado não é diferente do número de seguires que você possui em uma rede social… Então as gravadoras têm uma falsa ideia de como as pessoas são impactadas por um artista. Os seguidores online nem sempre representam o real afeto ou conexão que um artista pode ter com seu público. Eu tenho uma forte ligação com o meu público através das minhas canções, que ainda hoje tocam depois de 20 anos. Essa é a minha conexão, minha música. A propósito, eu escrevi uma música chamada “HAPPIEST DAY OF MY LIFE”, que fala sobre sair do armário como gay, sair da depressão, sair de uma vida que você odeia para uma vida que você ama. Essa música fez parte do filme FAVOLA, de Sebastiano Mauri, com o ator Filippo Timi e Lucia Mascino. O filme fala sobre uma transexual nos anos 50, você deve encontrar no iTunes e assistir, é um filme indie único. Se você não encontrar no Brasil, procure a música HAPPIEST DAY OF MY LIFE na minha conta no SPOTIFY – ela está lá!

Infelizmente eu não tive budget para gravar um videoclipe dessa música ainda, mas essa canção é muito boa. É uma trilha sonora para um filme, então não espere uma faixa dançante de rádio, mas é uma música ótima, universal, que vai fazer você feliz se você está triste. O melhor trecho é uma das minhas frases favoritas, já que também conheci a depressão: “SE NÃO HÁ SOL, EU PINTAREI UM, EM UM CÉU AZUL BRILHANTE”. Significa que quando tudo está escuro/sombrio, é você que tem que se levantar e pintar seu próprio sol. Faça isso agora! Mude seus pensamentos, se eles forem pensamentos negativos sobre você mesmo, transforme-os em bons pensamentos… é terrivelmente difícil… e ainda assim tão simples.

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Sobre premiações… Em 1996 você foi eleita a Melhor Cantora do Ano na Itália pela revista Música e Dischi. Em 1997 você recebeu o Prêmio Italiano de Dança como a melhor artista de dança pop do ano. No mesmo ano, você foi nomeada a Melhor Artista de Dança no Mobo Awards no Reino Unido e ainda em 1997, você ganhou um prêmio de Melhor Artista Estrangeiro do Ano no Midem em Cannes, França. Você conquistou em seu primeiro álbum o que muitos artistas levam anos para conseguir. como você lidou com isto? Sucesso, fama enfim…

Foi um momento muito difícil, meu Deus. Por um lado, como uma mulher jovem, eu percebi o poder de visionar algo, acreditar em si mesmo e fazer as coisas acontecerem com força de vontade, paixão e o impulso de transmitir algo valioso. Por outro lado, também vim a conhecer muito rápido o “mal”. Pessoas que mentiam para mim, pessoas que eram gananciosas e me usavam. Eu era uma alma muito pura… Eu não cresci em um berço familiarizado com o showbizz e na época não havia como me informar online com Google, e-mails e todas essas informações disponíveis agora; então eu estava sozinha no meu quarto e sozinha com pessoas que diziam o que queriam me dizer. E eu acreditei nelas. Eu não tinha uma equipe que acompanhasse a minha carreira, ou um agente, ou um advogado em quem eu pudesse realmente confiar. Todos eles estavam cuidando de seus próprios interesses e eu era muito jovem e inexperiente. Então foi uma época muito difícil. A razão pela qual minha voz estava tão baixa em LET A BOY CRY é porque eu tinha perdido a voz por medo e estresse. Tive que trabalhar para recuperar a minha voz em uma escola especial, com crianças pequenas que tinham problemas psicológicos e fisiológicos e que também haviam perdido a voz. Tão doce (sobre elas).

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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns por essa super entrevista com a Gala!
    Ela é um ícone dos saudosos anos 90 e fez muita gente delirar nas pistas de dança…
    Fico feliz de ver páginas brasileiras divulgando e relembrando estes artistas. Faz tanto tempo, mas a música dela continua viva, estimulante e atual! E ela também é bem simpática e sociável…
    Muito obrigado por me proporcionar esta leitura!!
    Faça mais….mais e mais!