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Paraibano de Rio Tinto, o ator Kelner Macêdo (27) começou na carreira artística na infância e aos vinte anos estreou no cinema com os curtas Terceiro Prato” (2014) e “Moído” (2014). A consagração veio em 2017, com o longa-metragem “Corpo Elétrico“, onde protagonizou um assistente de uma confecção de roupas no centro de São Paulo que mantém pouco contato com a família e passa seus dias entre os tecidos do trabalho e encontros com homens.

O caminho para a TV foi uma transição natural na vida do paraibano que tinha o hábito de assistir novelas com a avó na infância. Tendo resposta positiva de público e crítica em obras como “Sob Pressão” (Globo), “Todxs Nós” (HBO) e “Verdades Secretas 2” (Globo), Kelner Macêdo venceu o Poc Awards 2021 na categoria “Ator” na escolha do júri.

Repleto de planos para 2022, o ator aguarda o lançamento de dois trabalhos, “A Vida que Resta” e “Promessa de um Amor Selvagem”, um longa e um curta, respectivamente. Mas Kelner Macêdo não pretende ficar apenas diante das lentes: para o segundo semestre, ele tem o projeto de rodar seu primeiro curta, intitulado de “Ponte sobre Rio Seco”.

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Kelner Macêdo (Foto: Reprodução)
  • “Corpo Elétrico” teve uma repercussão bem positiva, inclusive em festivais. O filme explora a liberdade de modo geral, principalmente sexual. Aliás, seu personagem é muito liberal em relação a amores, envolvimentos… Havia muito do Kelner no Elias?

Kelner Macêdo: O nosso processo de preparação para o ‘Corpo Elétrico’ foi bem intenso e feito de muitas desconstruções de olhares antigos e acostumados. Foi um momento de olhar o mundo sob uma nova ótica. E o Marcelo Caetano falava muito pra gente que ‘mais do que construir os personagens, nós precisávamos nos aproximar deles’, diluir o limite que separava o Kelner do Elias. Então, sim, há muito do Kelner no Elias, e há muito até hoje do Elias no Kelner.

  • Certa vez, você disse que o “set de Corpo Elétrico era muito libertário”…

Kelner Macêdo: O ‘Corpo Elétrico’ foi um destrave da vida em todos os sentidos. Um destrave do corpo, da mente, do olhar, do desejo… Foi preciso desconstruir muitas ideias limitantes que estavam arraigadas no meu corpo. Foi preciso descentralizar o desejo, abrir o olhar para todas as belezas do mundo, se abrir aos atravessamentos da vida e dos encontros. Foi libertário em todos os sentidos… mexeu na minha auto estima, comecei a me enxergar mais no mundo, e mudou o meu modo de atuar também. Aprendi muito fazendo esse filme, e acho que me tornei uma pessoa muito melhor, mais poroso e disponível.

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Kelner Macêdo (Foto: Reprodução)
  • Você fez um caminho um pouco diferente, começou no cinema e foi para a TV. A televisão sempre foi o objetivo na sua carreira, seja como forma de projeção ou artisticamente?

Kelner Macêdo: Eu comecei fazendo teatro, depois veio a performance, o cinema, até desembocar na televisão. Eu fui fluindo com os acontecimentos da vida, e fui me abrindo e me interessando pelo que atravessava o meu caminho. Então, tudo que fiz foi muito significativo no que eu sou hoje. A televisão sempre esteve presente no meu dia a dia… Eu morava com minha avó quando era criança e assistia-se muita novela lá. Então, essa é uma referência muito forte pra mim, está bem presente no meu imaginário. Quando comecei a atuar, entendi que era um trabalho de muitas ramificações e desdobramentos e abri o coração para o que viria a partir dali. E curioso que sou, tinha sim desejos de trabalhar na televisão, de poder alcançar tantas pessoas de uma só vez, e agora, tendo vivido essa experiência, posso dizer sim que é um desejo que continua vivo, quero experimentar muito mais dessa plataforma. Mas acho que os trabalhos que foram me escolhendo e a televisão veio como um desdobrar dos passos que havia dado até então. Eu acho muito forte a possibilidade de ser visto por milhares e milhares de pessoas, de chegar em lugares que a gente nem imagina, de entrar na casa e na vida das pessoas, e acho que é um lugar muito importante para se estar. Eu amo muito ser ator, e me entrego completamente ao ofício, ao projeto da vez, seja qual for a área; hoje posso dizer que meu principal objetivo é continuar vivendo disto, continuar essa caminhada que nem sempre é tão fácil e tão deliciosa, mas que me move na vida e me transforma numa pessoa mais potente e mais aberta pro mundo. Então, tudo me interessa.. .Acho que todos os caminhos são os meus caminhos. E que venham muitos trabalhos na TV, no cinema, no teatro e onde mais for possível.

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Kelner Macêdo (Foto: Júlio Aracack/Reprodução)
  • E por falar nessa visibilidade, você acabou de partipar de “Verdades Secretas 2”, como tem sido a repercussão? Cantadas?

Kelner Macêdo: ‘Verdades Secretas 2’ me trouxe um novo espaço de visibilidade e me deu a possibilidade de mostrar outras facetas do meu trabalho, desde a composição do personagem ao alcance de público. É um produto muito visto, e conseguiu chegar em pessoas muito diversas. Recebo várias mensagens diariamente de homens e mulheres falando sobre o Mark, sobre meu trabalho, e claro, mensagens mais ousadas (risos). E acho que quando for para TV aberta vai ser ainda mais vista, e chegar em lugares ainda mais plurais.

  • Na série, o personagem acaba criando um triângulo amoroso; você viveria uma relação assim?

Kelner Macêdo: Nunca vivi um triângulo amoroso como o do Mark, nada entre familiares. E não sei se também me disponho para isso. É uma situação bem especifica e delicada. Acho que cada situação é cada situação, e precisa ser sentida, pensada. Mas me considero bem aberto à viver as possibilidades de amor. Hoje eu estou solteiro, mas se me surgir um amor a dois, a três, eu sou de ir, estou aberto!

  • Assim como “Corpo Elétrico”, “Verdades Secretas 2” também explorou muito a liberdade sexual dos personagens, tivemos muitas cenas de sexo e nudez… Você lida bem com esse tipo de cena?

Kelner Macêdo: O meu corpo é meu instrumento de trabalho, e quando estou num projeto eu vou com tudo, eu me jogo e me entrego, tudo está implicado em contar essa história. E acredito que todas as cenas narram um pouco dessa trajetória, e todas são importantes e requerem atenção. Nas cenas de sexo são os mesmos cuidados e outros mais, estamos mais expostos que o normal, mas para mim é algo tranquilo hoje. Geralmente a gente conversa sobre todas as cenas, pensa, desenha, se prepara, e nas cenas de sexo é igual. É uma união ali dos atores, atrizes, atuantes, com a preparação e a direção principalmente. Conversamos muito sobre o tipo de sexo que queremos representar, e acordamos os detalhes dessa relação. Tudo muito acordado entre todas as partes. Para mim é mais uma cena, mais um momento da vida dessas pessoas, e mais uma etapa dessa história.

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Kelner Macêdo em Todxs Nós (Foto: Reprodução)
  • Em 2019 você protagonizou um beijo gay na TV aberta, na série “Sob Pressão”, com o ator Bruno Garcia. O beijo foi exibido no dia em que o STF votou a criminalização da homofobia. Como foi esse momento pra você e a repercussão na época?

Kelner Macêdo: A comunidade LGBTQIAP+ abraçou o Kléber, acolheu de um jeito muito lindo a sua chegada. E o primeiro episódio em que ele aparece, acabou sendo exibido bem no dia em que o STF criminalizou a homofobia no Brasil. E lá estavam Kléber e Décio dando aquele beijão em rede nacional. Foram dois acontecimentos simultâneos que causaram grande comoção. Precisávamos disso no Brasil. E a recepção foi a mais calorosa possível. Recebi muitas mensagens de carinho, e de agradecimento por estar representando a comunidade em rede nacional, e contando essa história tão necessária. Ainda temos muitos tabus na programação nacional da TV aberta, muitos assuntos não explanados, ou explanados muito superficialmente, e a chegada desse personagem foi de uma alegria descomunal pra mim. Acho que traz um ar de novidade, de outros pontos de vistas existentes no mundo, de outras trajetórias. E é o tipo de história que eu quero ver e consumir mais e mais.

  • Você declarou recentemente, em uma entrevista ao GShow, que pretende ter um filho com uma amiga. Quando surgiu esse desejo pela paternidade? É algo que deve acontecer em breve?

Kelner Macêdo: Ter um filho é um projeto pro futuro, não vai ser agora, e também não sei dizer exatamente quando será, mas é um desejo que permeia meus dias há algum tempo.

  • Você foi um dos protagonistas da série “Todxs Nós” da HBO, qual a sua opinião a respeito da linguagem neutra?

Kelner Macêdo: Acho que o uso da linguagem neutra de gênero é uma necessidade de acolher, incluir e representar as diversas existências que não se identificam com a binaridade de gênero. Eu acho que o mundo muda, que a terra gira, que o tempo passa, e com ele novas necessidades vão surgindo. Tudo se modifica, e a linguagem é mutável também, já passou por muitas mudanças, essa é mais uma delas. Eu sou muito a favor da modificação das coisas que separam, que distanciam, que segregam poder, que levantam muros. Quero mais é diluir esses limites e encontrar um mundo mais plural, inclusivo e menos careta. E acredito que a linguagem inclusiva é um passo importante para chegar um dia nesse mundo mais possível.

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Kelner Macêdo em “Corpo Elétrico”  (Foto: Reprodução)
  • E como você lida com essa indústria de fofocas de sites e programas de TV que muitas vezes invadem a privacidade, a vida pessoal do artista?

Kelner Macêdo: Acho bastante desnecessária a necessidade de transformar um acontecimento íntimo da vida de alguém, num evento público. É muito sensacionalismo das mídias, e falta de ética até. Vejo muitas notícias dispensáveis, diariamente, quando poderiam estar mais preocupados com os rumos que o país está tomando, por exemplo. Poderiam estar fazendo campanha de apoio às famílias que perderam suas casas com as enchentes da Bahia nesse fim de dezembro, ao invés de expor espaços íntimos da vida de alguém, que ninguém tem nada a fazer.

  • Mais recentemente, o ator Marcos Pigossi assumiu o namoro com um diretor de cinema. De certa forma, temos visto a classe artística mais livre para abordar sobre sexualidade, o que pode ser encarado como uma evolução. No passado, muitos artistas ficaram no armário com receio de serem boicotados ou de perderem bons papéis na TV, mas os tempos hoje parecem ser outros. Como você vê isso?

Kelner Macêdo: Acho que demorou pra gente lidar com isso, que nem deveria ser uma questão. Mas estamos em outro tempo agora, temos a necessidade de mais representatividade em todos os espaços, e na arte também. Acho que estamos no momento de trazer essa questão à tona, e desmitificar esses lugares e essas caixas que criaram pra gente viver. O nosso trabalho não tem que passar pelo “mérito” da sexualidade, e acho importante que os atores, as atrizes, os artistas em geral se posicionem, se coloquem e requeiram o reconhecimento pelos seus trabalhos e o respeito pelo que se é. Acho muito injusto ter que encubar um sentimento, encubar o jeito natural de ser, entrar numa forma para ser aceite, para ocupar um espaço, em qualquer situação, em qualquer área. Estamos criando novas perspectivas, novas possibilidades para nossos corpos, e acredito que estamos caminhando para um momento mais possível, preparando o terreno para quem vir depois, encontre um espaço mais acolhedor e menos opressor.

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Kelner Macêdo (Foto: Reprodução)
  • Para finalizar, qual é o seu ponto de vista sobre o atual momento político no país?

Kelner Macêdo: 2022 começou e eu fiquei bem esperançoso com as possibilidades que se apresentam para o Brasil, porque esses últimos anos foram devastadores com a presença desse homem [Jair Bolsonaro] na presidência. Com a chegada do coronavírus então, tudo que parecia péssimo, conseguiu ficar ainda pior, uma espécie de pesadelo consentido, porque foi um presidente que as pessoas elegeram. E tá aí o resultado desse voto errado, todes pagamos o preço. O Brasil está devastado pela sombra de Bolsonaro e sua turma, um completo desgoverno. Mas é 2022, é a chance de mudar os rumos dessa história mais uma vez, e eu acredito que esse cenário mudará, precisamos de alguém capaz de retomar a força do país, de levantar de novo o orgulho de viver num país acolhedor e mais igualitário. Espero uma resposta esse ano, e só vejo um caminho possível, nas urnas. Precisamos tirar esse homem da presidência e voltar a sonhar um país mais possível. É Lula 2022.

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