USP busca voluntários para testar nova droga de prevenção ao HIV

Estudo avaliará se a injeção de longa duração é tão eficaz quanto a medicação oral utilizada atualmente para profilaxia

O Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) compõe a rede de mais de 43 centros em sete países que testam uma nova medicação injetável, de longa duração, que poderá revolucionar a prevenção contra o HIV. Trata-se do medicamento Cabotegravir, uma injeção intramuscular da droga, aplicada a cada dois meses, capaz de manter níveis adequados do medicamento no sangue.

Jovens com menos de 30 anos de idade, gays masculinos e mulheres transexuais podem participar do primeiro estudo no Brasil. O objetivo é saber se a injeção a cada oito semanas é segura e tão eficaz para prevenir o HIV quanto a medicação oral, atualmente utilizada para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Hoje, a PrEP oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é uma combinação de drogas na forma de comprimidos.

O ensaio clínico internacional, financiado pela Divisão de Aids do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, já testa mundialmente a forma injetável da Cabotegravir, que possui alta eficácia no tratamento contra a multiplicação do HIV.

“Quanto mais estratégias de prevenção, mais fácil será contemplar os diferentes contextos de vida, da mesma maneira que o anticoncepcional. Hoje, há 17 formas de contracepção. A prevenção contra infecções sexualmente transmissíveis deve seguir os mesmos passos”, argumenta o médico infectologista Ricardo Vasconcelos, coordenador clínico no HC do chamado Projeto HPTN 083.

Centros

A iniciativa deverá acompanhar o total de 4,5 mil voluntários ao longo de três anos e meio, em mais de 40 centros de pesquisa em países como Estados Unidos, Peru, Argentina, África do Sul, Vietnã e Tailândia, além do Brasil, onde os testes são feitos em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, cidades de alta incidência de infecção por HIV nos grupos de risco.

Além do Hospital das Clínicas da USP, os testes em São Paulo também são realizados no Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS-SP. O Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) da Fundação Oswaldo Cruz–FIOCRUZ do Rio de Janeiro, além do Hospital Nossa Senhora da Conceição de Porto Alegre, integram a rede no Brasil.

Os interessados em participar do estudo em São Paulo devem entrar em contato pelos telefones (11) 94996-6134 e (11) 2661-2275, pelo e-mail agendamento.estudo@gmail.com ou pelo twitter @pec.hcfmusp.

Monitoramento

Além das pesquisas voltadas à prevenção, a USP trabalha no monitoramento do vírus da família do HIV, o HTLV-1, que também infecta milhares de pessoas em todo o País. O Brasil já é o líder em casos de HTLV-1, o vírus linfotrópico de células-T humanas, pertencente à mesma família que o vírus da Aids e que afeta mais pessoas do que o HIV, a hepatite C ou a tuberculose.

Apesar disso, o agente ainda recebe pouca atenção não só da população como da própria comunidade médica. “Não existe um programa nem nacional, nem estadual, nem municipal”, afirma Augusto Penalva, coordenador do serviço de HTLV-1 no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, ambulatório em São Paulo que acompanha mais de 700 pacientes. “É a doença mais negligenciada das negligenciadas. Inclusive, quando se lança um programa sobre doenças negligenciadas, não é incomum deixar fora o HTLV”, acrescenta.

Detecção

Uma das possíveis razões pelas quais o vírus não é alvo de ações mais enérgicas é que a maioria dos pacientes é assintomática. “Como é um vírus antigo, evolutivamente falando, e está bem adaptado, a maioria das pessoas não desenvolve as complicações mais graves, o próprio sistema imunológico do paciente controla o vírus”, explica Arthur Maia Paiva, médico da Universidade Federal de Alagoas, em Maceió.

Ele ressalta que, apesar de só entre 5% e 10% dos portadores desenvolverem complicações médicas, essas podem ser graves e inclusive fatais. A dificuldade de detecção do diagnóstico também não ajuda nos estudos do desenvolvimento da doença mais a fundo.

“Normalmente, os pacientes nem percebem. Eles têm uma dificuldade de subir escada ou uma dor. Quem vai ao médico quando tem isso? É muito difícil. E às vezes vai e faz raio-X, tomografia, ressonância. Geralmente isso está normal e acaba acontecendo que a pessoa passa sete, às vezes até dez anos, sem descobrir a causa”, diz Jorge Casseb, médico do Ambulatório de HTLV e professor associado do Instituto de Medicina Tropical da USP.

Resultado

Existem três formas de contrair o vírus: por relações sexuais desprotegidas, por contato com sangue infectado (por transfusão, compartilhamento de seringas) e através do aleitamento materno. Adele Schwartz Benzaken, diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST [infecções sexualmente transmissíveis], do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, disse que está em andamento um estudo nacional para conhecer a prevalência do HTLV-1 em gestantes no Brasil.

O resultado servirá para definir as linhas de ação futuras no combate à transmissão do HTLV-1 de mães para filhos. “O estudo mostrará quais são as regiões do Brasil em que precisamos estipular esse tipo de regra. Tem muito HTLV-1 na região Norte, no Nordeste, na Bahia. Mas tem regiões do País que não têm casos. Então, para que é que você vai fazer uma norma nacional de testar todas as gestantes do País quando a infecção pode estar concentrada?”, indaga.

Os resultados ainda são aguardados. Além disso, o Ministério afirmou trabalhar na atualização do protocolo de HTLV-1, para facilitar a capacitação dos profissionais da saúde em relação à chamada “nova onda”.

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