Os desafios do primeiro ano de implementação da PrEP em São Paulo

Na cidade de São Paulo, a PrEP chegou primeiro no CTA Santo Amaro e SAE Ceci, ambos na zona sul, nos serviços de Assistência Especializada Butantã, na zona oeste, no SAE Fidélis Ribeiro, na zona leste e no CTA Pirituba, na região norte.

Disponível na rede pública de São Paulo desde janeiro de 2018, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) está fazendo aniversário neste mês. Para marcar a data e celebrar os 465 anos da cidade, a Agência de Notícias da Aids preparou uma série de reportagens sobre o assunto. O texto a seguir traz uma retrospectiva da chegada da profilaxia na cidade de São Paulo e uma análise sobre as conquistas e desafios dessa nova forma de prevenção feita pelo infectologista Marcos Vinícius Borges, idealizador do canal Doutor Maravilha, que também é usuário de PrEP.

prep hiv aids
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No dia 18 de janeiro de 2018, São Paulo deu o ponta pé inicial para a distribuição da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) nos serviços de saúde pública na cidade. A partir dessa data, alguns CTAs (Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids) e SAEs (Serviços de Assistência Especializada em DST/Aids) começaram a ofertar gratuitamente o medicamento que, se tomado corretamente, pode prevenir a infecção pelo HIV. O Brasil é o primeiro país da América Latina a contar com essa alternativa de prevenção no sistema público de saúde.

Indicada para pessoas que não vivem com HIV, mas que têm um risco acrescido de contrair a doença, como profissionais do sexo, mulheres transexuais, travestis, casais sorodiscordantes (quando um tem HIV e o outro não), homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, o governo paulistano ofertou, naquele primeiro momento, 560 profilaxias. No início de 2018, o Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais afirmou que o governo federal comprou 9 mil profilaxias.

Na cidade de São Paulo, a PrEP chegou primeiro no CTA Santo Amaro e SAE Ceci, ambos na zona sul, nos serviços de Assistência Especializada Butantã, na zona oeste, no SAE Fidélis Ribeiro, na zona leste e no CTA Pirituba, na região norte.

Estudo PrEP Brasil

Entre 1 de abril de 2014 e 8 de julho de 2016, 450 participantes iniciaram a PrEP, sendo que 375 (83%) foram mantidos até a semana 48. Na semana 48, 277 (74%) de 375 participantes tiveram concentrações protetoras compatíveis com pelo menos quatro doses por semana: 183 (82%) de 222 participantes de São Paulo.

Paulo foi um dos voluntários e decidiu participar do estudo porque estava em uma relação sorodiscordante, já André, outro participante, disse que tinha dificuldade de usar o preservativo. “A PrEP é importante para os momentos de vulnerabilidade, não senti efeitos colaterais. Mas quero destacar que só acessei a PrEP porque eu já tinha acesso a informações de usuários de outros países”, disse Paulo.

A realidade de André foi um pouco diferente. Ele sofreu muitos efeitos colaterais nos primeiros meses de PrEP. “Tive tontura, cólica estomacal, calafrio, mas resisti e não fiquei um dia sem tomar o remédio. Hoje, não sinto nada e continuo protegido do HIV”, explicou.

O médico Marcos Vinícius Borges explica que 17% das pessoas relatam algum tipo de efeito colateral após três meses de uso do medicamento. “Por isso, a importância do acompanhamento periódico através de consultas e exames”, explica.

E na prática, quem são os usuários?

Dois meses após a chegada da PrEP na cidade, pôde-se observar que as pessoas que buscaram a profilaxia, até então, são de alto grau de escolaridade, brancas, de classe média alta e pouca vulnerabilidade social.

Marcos Vinícius também relata essa realidade através de sua experiência em outros estados brasileiros, como em Tocantins, por exemplo. “Lá tive grandes grande procura de gays e homens que fazem sexo com homens, mas pouca demanda de pessoas transexuais, por exemplo, porque até o horário que o serviço está aberto influencia na procura e adesão. Nesse caso, não há uma receita de bolo, porque é importante entender que cada região tem uma demanda, é preciso entender o comportamento e necessidade das pessoas que mais precisam”, completa.

Para o infectologista, a PrEP ainda é elitizada. “Ainda está entre os gays, brancos, de classe média. A gente tem que pegar essas vulnerabilidades através de divulgação, informação e levar a PrEP para a periferia. Para a complexidade da PrEP, é importante que a pessoa tenha conhecimento sobre outros aspectos do HIV. No Brasil, ainda há pessoas que não sabem a diferença entre HIV e aids.”

Marcos Vinícius enfatizou que PrEP não é algo para ser utilizado para sempre. mas sim enquanto houver risco de infecção como, por exemplo, quando há relacionamento sorodiscordante, quando o parceiro está detectável ou quando a mulher quer engravidar são algumas situações.

Perspectiva para o futuro

São Paulo será uma das cidades que integrarão um estudo sobre PrEP em adolescentes  para avaliar a efetividade do uso da profilaxia em jovens de 14 a 19 anos que dentro dos mesmos critérios de população chave. “O estudo será feito em parceria com a Aids Healthcare Foundations (AHF), Universidade de São Paulo (USP) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), porque sabemos que na curva da epidemia os jovens estão se infectando mais, por isso fazer uma abordagem precoce”, explica Marcos Vinícius.

Além disso, na  segunda semana de agosto, teve início, na Faculdade de Medicina da USP em São Paulo, que utiliza a nova medicação injetável de longa duração chamada Cabotegravir. Uma injeção intramuscular da droga, aplicada a cada 2 meses, é capaz de manter níveis adequados do medicamento no sangue dos seus usuários e pretende revolucionar o mundo da prevenção do HIV.

“Alguns moradores de rua chegaram a relatar que não tem nem água para tomar o medicamento de forma correta. A PrEP injetável pode ser uma alternativa. É mais uma forma de percorrer o caminho de enfrentar o vírus, com a prevenção combinada o país está no caminho certo.”

Pauta: Marcos Vinícius Borges (Dr. Maravilha): doutormaravilha@gmail.com
Redação da Agência de Notícias da Aids 

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