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Mulher, negra, ameríndia e transgênera, Neon Cunha (PSOL), de 52 anos, disputa uma vaga como deputada estadual em São Paulo. Designer e publicitária, ela mora em São Bernardo do Campo (SP) e trabalha, desde os 12 anos, na prefeitura da cidade.

A sua relação com mulheres negras das mais diversas identidades de gênero e orientações sexuais, foram uma das motivações para Neon lançar sua candidatura. “São mulheres que estão em subempregos, impedidas de formação escolar de qualidade, com idades que vão de 13 até 84 anos, com crianças e famílias inteiras que dependem delas”, explica a candidata.

Neon Cunha, candidata a deputada estadual pelo PSOL de SP (Foto: Divulgação)

“Todas as propostas desta candidatura são focadas em pessoas, no direito de quem não tem direito à humanidade”, pontua Neon. Entre suas pautas, ela destaca “o enfrentamento da violência policial, principalmente contra pessoas negras, […] além da ampliação das cotas e atenção ao trabalho das cooperativas e catadoras de recicláveis, onde muitas LGBTQIAPN+ egressas e/ou em situação de rua encontram empregabilidade e acolhimento social”.

“Ainda me espanta de como a misoginia e o cissexismo pautam as violências contra LGBTQIAPN+, e talvez essa seja uma grande questão para mim. Quando penso no apagamento de Luana Barbosa, que ainda vejo como um dos casos mais emblemáticos de violência voltada contra a nossa população, penso no porquê ela que viveu durante quatro anos enquanto Luan Victor. Negra, lésbica, mãe, vivendo no interior de São Paulo, e muitas vezes esquecida”, lembra Neon.

Acho que a questão é constituir uma sociedade onde nossos sonhos sejam possíveis. Utopia era o avião que a ciência e a tecnologia fizeram acontecer. Produzir humanidade deve ser mais simples que isso, e política de afeto é para isso”, acrescenta a candidata, que é uma das entrevistadas da semana no especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Neon Cunha (Foto: Divulgação)

Confira na íntegra a entrevista com Neon Cunha

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

Neon Cunha: Sou formada em Publicidade e Propaganda, Artes e Educação com foco nas Artes Plásticas, e trabalho desde os 12 anos na prefeitura da minha cidade. Mas entendo minha trajetória ainda antes, quando acompanhava minha mãe nas faxinas desde os quatro anos, talvez seja essa a minha primeira e mais importante formação. Hoje, são cerca de 40 anos trabalhando no mesmo lugar, exercendo diversas funções, muito pela necessidade de ter um mínimo de sobrevivência. Era isso ou a prostituição.

GB: O que motivou a se candidatar?

Neon: A princípio, minha relação com mulheres negras das mais diversas identidades de gênero e orientação sexual. São mulheres que estão em subempregos, impedidas de formação escolar de qualidade, com idades que vão de 13 até 84 anos, com crianças e famílias inteiras que dependem delas. Enquanto ativista independente, vejo essa candidatura como um projeto coletivo, que não começa aqui, e não vai terminar aqui. Um cargo como esse é parte importante de um projeto político que precisa ser feito em todas as frentes possíveis. Estamos buscando ampliar nossas vozes em espaços importantes de transformação, e a Assembleia Legislativa certamente é um deles.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidatura abertamente LGBT+?

Neon: Uma mulher trans que chega aos 52 anos de idade num país como o nosso vive um outro tempo, uma outra dimensão do que é a vida. Os desafios são os mesmos para quem testemunhou e vivenciou tantas violências, exclusões e desumanizações, e mesmo assim sonha e busca a promoção da alegria e da felicidade.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBT+?

Neon: Todas as propostas desta candidatura são focadas em pessoas, no direito de quem não tem direito à humanidade. Falar da população em situação de extrema vulnerabilidade, principalmente pessoas trans e travestis, assim como mulheres cis negras, é um dos pontos importantes desta campanha. O enfrentamento da violência policial, principalmente contra pessoas negras, está em nossa pauta, além da ampliação das cotas e atenção ao trabalho das cooperativas e catadoras de recicláveis, onde muitas LGBTQIAPN+ egressas e/ou em situação de rua encontram empregabilidade e acolhimento social.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Neon: O caminho é a educação, falarmos de nossas existências e questões desde a base, para que a elaboração e manutenção de uma sociedade democrática de fato aconteça. Precisamos de políticas públicas que tenham cuidados amplos de saúde integral, isso é tão urgente quanto o preparo de quem faz esse atendimento. A valorização desses e outros profissionais das redes públicas de atendimento, da segurança, limpeza pública, educação, e tantos outros setores, precisa sempre ser pensada com essa questão em pauta.

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Neon: Eu acompanhei a evolução da saúde pública, dos anos 1980 e 90 pra cá, e vi a transformação que o HIV trouxe não só para as LGBTQIAPN+, mas para toda a sociedade. A PrEP não é apenas uma prevenção, ela faz parte da conscientização da população em geral, e não somente a nós, as pessoas LGTQIAPN+. Ela propõe um processo de reeducação sexual, o que significa, também repensar a própria questão do bem-estar psicológico. É essencial colaborar para que a sexualidade, a saúde reprodutiva sigam sendo acompanhadas de perto (e, aqui, falo também da gestação ou não de pessoas transmasculinas).

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Neon: Estamos vivas e enfrentando algo inimaginável. Nem mesmo nos meus piores sonhos, no fim da Ditadura, imaginei esse cenário de uma sociedade tão segregada. O foco agora é nas mudanças possíveis que teremos com essas eleições, de sair de uma política de negação, extermínio e desprezo pelo direito à humanidade, e construirmos novas possibilidades, interseccionalizando vulnerabilidades e exclusões sociais.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)