Na última quarta-feira (05), ao tentar defender o programa de celibatarismo de Damares Alves como solução de prevenção à gravidez precoce, Bolsonaro afirmou que a pessoa com HIV representa “uma despesa para todos no Brasil”. A repercussão negativa de sua fala fez com que ele acusasse a imprensa, no sábado (08), de desvirtuar seu discurso e, ainda sim, repetiu que uma pessoa com HIV “é custosa para todo mundo”.

Em nota, a Sociedade Brasileira de Infectologia se pronunciou para lembrar que “investir em prevenção com metodologia cientificamente comprovada custará muito menos ao país” e que a sorofobia (discriminação com as pessoas que são soropositivas) gera mais sofrimento e violência para as pessoas que vivem com HIV/aids.

Dr. Drauzio Varella, em seu canal do Youtube, também explicou políticas públicas relembrando experiências empíricas. Dr. Varella começa o vídeo lembrando que começou a tratar os primeiros casos de HIV/aids no país e que, antes do surgimento do tratamento com “coquetéis”, em 1995, a prevalência do HIV no Brasil era igual a da África do Sul.

“Nós passamos a distribuir medicamentos gratuitamente, muita gente foi contra. A África do Sul, não. Hoje, a África do Sul tem mais de 10% da população acima de 15 anos com o vírus. Se nós tivéssemos essa prevalência de 10% da população de 15 anos, nós estaríamos com 17 ou 18 milhões de brasileiros com HIV. Imagina que tragédia seria para o SUS conseguir dar atendimento médico [para tantos casos ao mesmo tempo]?”, diz Dr. Drauzio.

Assista ao vídeo:

Art. 196 da Constituição Federal

Em uma nota emitida pela Sociedade Brasileira de Infectologia, Dr. Clóvis Arns da Cunha lembra o Art. 196 da Constituição Federal: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Leia a nota integral:

"Em 1995, a prevalência do HIV no Brasil era igual a da África do Sul", relembra Drauzio Varella após sorofobia de Bolsonaro
Foto: reprodução/Facebook

“No último dia 05 de fevereiro do presente ano, durante entrevista coletiva na saída do Palácio do Planalto, em Brasília, o Excelentíssimo Senhor Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República, foi questionado sobre a campanha comportamental lançada pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos em parceria com o Ministério da Saúde, objetivando reduzir altos índices de gravidez na adolescência no Brasil, adiando o início da vida sexual.

Na ocasião, após diversos questionamentos, Vossa Excelência fez o seguinte comentário: “Uma pessoa com HIV, além de ser um problema sério para ela, é uma despesa para todos aqui no Brasil”.

O país tem um dos melhores programas de HIV/aids do mundo. Sabemos que apenas o uso de preservativo não é a medida mais eficaz para a prevenção da infecção pelo HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. Por este motivo, foram associadas outras práticas, no que denominamos prevenção combinada, que consiste em: testagem regular para o HIV; prevenção da transmissão de mãe para o bebê durante a gravidez; tratamento das infecções sexualmente transmissíveis, incluindo as hepatites virais; imunização para as hepatites A e B; programas de redução de danos para usuários de álcool e outras substâncias; profilaxia pré-exposição (PrEP); profilaxia pós-exposição (PEP); e tratamento de pessoas que já vivem com HIV.

Além disto, o tratamento atual é eficaz e não interfere na expectativa de vida, se os medicamentos forem tomados corretamente. Também podemos afirmar que pessoas vivendo com HIV e que tenham carga viral indetectável não transmitirão o vírus por via sexual. Diz o Art. 196 da Constituição Federal: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Todas as doenças geram custos aos cofres públicos, não somente o HIV. Investir em prevenção com metodologia cientificamente comprovada custará muito menos ao país. É necessário ter muito cuidado com este tipo de afirmação para não aumentar a sorofobia (discriminação com as pessoas que são soropositivas), o que pode gerar mais sofrimento e violência para as pessoas que vivem com infecção pelo HIV/aids.”

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