A palavra que melhor define o geólogo Leonardo Paschoal é superação. Em 2019, aos 22 anos, ele foi diagnosticado tardiamente com sífilis no estágio mais grave da doença, apesar de ter buscado auxílio médico logo que surgiram as manchas no corpo, ele recebeu um diagnóstico errado de mais de um médico que considerou tratar-se apenas de uma simples alergia.

"Nojento é achar que alguém é menos humano que você por ter contraído uma IST. Quem está doente não precisa de julgamento, precisa de ajuda”
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A evolução da IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) comprometeu a visão do paulista, natural de São Bernardo do Campo, que logo em seguida acabou descobrindo uma outra doença nas pernas que lhe causava dores intermitentes. A perseverança, fez com que ele se dedicasse ao tratamento e hoje recuperado, ele se sente pronto para dividir a sua história, principalmente em tempos de PrEP (Profilaxia Pré Exposição), quando as pessoas parecem não se preocupar com os riscos de ISTs como sífilis, clamídia, gonorreia e outras.

Leo, em função de um diagnóstico tardio de sífilis, você acabou perdendo a visão do olho direito na época. Como está a sua visão hoje? Conseguiu se recuperar ou ainda tem dificuldades para enxergar?

Hoje minha visão está um pouco melhor. Quando a minha visão falhou, eu não conseguia focar com o meu olho direito. Hoje, essa situação melhorou, mas meu campo visual foi comprometido, de modo que perdi minha visão periférica. Além disso, a visão com esse olho ficou mais escura, como se faltasse luz. Não é algo que percebo sempre, mas que me impossibilita de ler em ambientes com pouca luz, por exemplo.

Logo que surgiram as manchas no seu corpo, você foi ao médico, e eles te passaram um remédio para alergia, ou seja não houve um diagnóstico correto e imediato que se tratava de uma IST. Quando a situação se agravou, e você foi a outros médicos, foi constatado que você estava com sífilis, na fase terciária da doença, considerado o estágio mais perigoso da infecção. Qual foi a sua reação quando recebeu a notícia que não se tratava de uma simples alergia mas de uma IST que já estava em um estágio avançado?

Sendo sincero, minha primeira reação foi nojo. Nojo de mim mesmo por ter contraído sífilis. O que é a sífilis? Eu não sabia, não tinha ideia. Já tinha ouvido falar, é claro, mas parecia estar tão distante da minha realidade. Até não estar mais. Até estar no meu corpo. Esse nojo veio de um estigma social que temos com as ISTs. Como se essas infecções afetassem só quem nós consideramos libidinosos, vulgares, pessoas que num geral vão contra a moral que nos é ensinada. Mas nojento é achar que alguém é menos humano que você por ter contraído uma IST. Quem está doente não precisa de julgamento, precisa de ajuda.

Também fiquei preocupado com os parceiros que eu tive no último ano, e como eu iria entrar em contato com eles. O senso de responsabilidade bateu muito forte, e eu só consegui sossegar depois que todos me responderam.

Leonardo Paschoal
Leonardo Paschoal foi vítima de sífilis (reprodução)

O tratamento foi um verdadeiro pesadelo, pois você tinha que tomar doses de Benzetacil a cada X horas e literalmente você morou numa UPA do SUS durante 15 dias para tentar reverter o quadro da doença. Como foi esse período?

Foi desafiador! Eu sempre fui uma pessoa muito reativa, então eu tomei as rédeas do meu tratamento. Estudei sobre a sífilis, sobre as recomendações do ministério da saúde ao tratamento, sobre os exames que eu iria fazer e o por que de cada um. Infernizei a vida de médicos e enfermeiros com milhares de perguntas. Eu era o maior interessado em me manter vivo, eu sentia essa fome de saber como se dava cada passo do tratamento, qual era a estratégia empregada. Conseguir esse conhecimento me tranquilizava, me tornava mais consciente da situação. Isso me ajudou a aceitar alguns impossíveis: o fato de que talvez minha visão não voltasse, por exemplo.

Tomada essa postura, eu passei por esses 15 dias de peito aberto e cabeça erguida. Eu realmente senti que estava travando uma batalha e essa fantasia me deu forças para seguir o tratamento a risca, para ir de 4 em 4 horas para o UPA tomar as doses do remédio, por 15 dias. Na segunda semana de tratamento, eu estava exausto. As minhas veias não aguentavam mais a medicação. Lembro de uma vez que foi preciso furar sete veias até encontrar uma que aguentasse receber a medicação sem estourar.

Mas estar nesse ambiente hospitalar é conviver com pessoas que estão passando por situações parecidas ou piores. Fiz muitas amizades. Essas pessoas me ajudaram a passar pelo meu processo. As(os) enfermeiras(os) e as(os) técnicas(os) de enfermagem também foram importantes: cuidaram de mim muito bem. Devo a elas(eles) muitos agradecimentos.

E sua família e amigos, te apoiaram nesse momento?

Sim. Meu pai me deu muitas caronas até a UPA. A minha mãe me consolou contando a experiência dela com a sífilis, quando mais nova. Minhas amigas e meus amigos se fizeram presentes durante todo o período. Nesse sentido, sou uma pessoa muito privilegiada por ter todo esse arcabouço para contar.

Após esse período intenso de tratamento, você ainda teve que fazer acompanhamento durante 2 anos. Como foi esse atendimento na rede pública de saúde?

Ainda estou fazendo o acompanhamento, mas não mais pelo SUS. Eu faço exames de sangue regularmente, no início com intervalos de 1 mês, agora de 3 meses, e passo com uma infectologista na sequência.

A doença te deixou sequelas?

Sim. No corpo, pra além de ter perdido parte da visão do olho direito desenvolvi uma dor crônica chamada polineuropatia periférica, minhas pernas doem e formigam o tempo todo. Na mente, a sequela foi um grande aprendizado sobre a vida e sua fragilidade.

Durante um longo tempo você teve que fazer uso de um oclusor (tapa olho) devido a uma forte sensibilidade a luz solar. Você ainda faz uso desse oclusor?

Não faço mais. Assim que minha visão se estabilizou eu pude parar de usar o oclusor. Foi ótimo, eu estava perdendo cabelo por causa dele! Meu olho ainda é um pouco sensível a luz do sol, mas hoje um óculos escuro já basta.

Durante esse período do acompanhamento, você notou que suas pernas doíam bastante e foi descoberto que você havia desenvolvido uma dor crônica nos nervos da perna e que não havia uma cura pra isso, sendo necessário tomar um medicamento específico e fisioterapia para lidar com a dor. Você teve medo de perder os movimentos da perna? Como lidou com este segundo diagnóstico?

Para mim, esse diagnóstico foi o mais assustador. Perder totalmente os movimentos da perna não era um horizonte, mas sim mancar para o resto da vida. Eu sentia meus músculos tensionados ao extremo, quentes e ao mesmo tempo formigando, era uma dor muito estranha, muito diferente de tudo que eu já havia sentido, e por isso era assustadora.

Até que eu descobri que essa é a dor neuropática. Novamente, reativo como sou, estudei tudo que pude sobre a neuropatia e seus possíveis tratamentos, e aceitei outro impossível: a dor poderia ser aliviada, mas não há cura, então eu precisaria não só me acostumar a senti-la, mas também a criar uma estratégia de administração da minha vida! Agora eu me tornei uma pessoa com dor crônica e essa é a maior expressão dos meus limites. Eu precisei sentir minha dor para respeitá-la e barganhar com ela.

Assim eu comecei a me exercitar com acompanhamento profissional, e passados três meses eu já não mancava mais. Em quatro meses eu já conseguia subir escadas como antes. E hoje quem me vê na rua, num bom dia, não diz que eu sinto dor ao andar. Meu neurologista disse que por ser jovem, as chances da neuropatia me debilitar eram bem menores do que a de uma pessoa mais velha, e que ter começado a fazer exercícios e fisioterapia logo no início do diagnóstico foi decisivo para minha recuperação.

Hoje, estou sentindo bastante dor. Existem muitos fatores que influenciam na dor: o frio, meu emocional, meu cansaço físico, meu stress e etc… Nesse sentido, passado um ano do diagnóstico da neuropatia, eu ainda estou em processo, em aprendizagem. Cada dia aprendo um pouco mais com essa dor. Carrego essa esperança de um dia, viver a vida de uma forma que eu não sinta mais dor. Mas também, se eu sentir, tudo bem. Sigo aprendendo então.

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O que estes momentos difíceis te ensinaram? 

Muitas coisas. A mais importante de todas é que devemos amar o nosso corpo pelo simples fato de ele nos manter vivo. Um corpo doente é um momento de resguarda – e um corpo curado é uma grande vitória a ser comemorada. O corpo curado, mesmo que sequelado, é um corpo guerreiro que merece todo o amor que temos. Eu aprendi sobre auto amor e autoestima. E que sinceramente, eu não preciso de um corpo que atenda os padrões estéticos (que aliás, mudam de tempos em tempos), eu preciso de um corpo que seja capaz de sustentar minhas vontades e toda a vida que há em mim.

Antes do diagnóstico da Sífilis, como era o Leo? Como era o seu estilo de vida?

Eu estava o tempo todo pensando naquilo que precisava ser feito. No trabalho, na faculdade, nas minhas relações. Sempre o quanto eu devia, o quanto eu estava faltando com algo ou com alguém. Eu não me dava tempo, por exemplo, para parar e tomar um café em silêncio. Eu só conseguia pensar nas minhas obrigações. Até que eu ficava exausto e passava horas seguidas afogando minhas mágoas em alguma série, algum jogo, alguma droga. Eu estava completamente inconsciente de quem eu era, de onde eu vinha e para onde eu ia. Nesse sentido, hoje, eu vejo a sífilis como um grande puxão de orelha. Um acorda pra vida. Nós somos capazes de significar nossa história, eu signifiquei minha doença como uma iluminação pessoal.

Após superar todos os desafios, como foi voltar a se relacionar (emocionalmente)? 

Foi diferente, afinal eu mudei! Mudei no sentido de sou mais sincero sobre quem eu sou. Antes eu me omitia para evitar conflitos, era uma pessoa esquiva e distante. Hoje eu procuro encarar as questões que se colocam em uma relação emocional de frente. Nos meses seguintes do tratamento, eu estava num auto amor tão gostoso que eu queria alguém para compartilhar desse sentimento comigo. Hoje eu estou mais tranquilo, todos nós temos nossos contatinhos né? Hahaha mas num geral, estou curtindo muito mais estar comigo mesmo.

Muitos gays criticam a postura de outros gays, por achar que nesse meio muitos acabam por valorizar aspectos físicos como: beleza, juventude e corpo definido/sarado. Como você lidou com essas “pressões” de comportamentos dentro da comunidade LGBT? 

Essa pressão estética nos afeta como uma comunidade e precisamos parar com esses julgamentos e opressão pra ontem. Veja bem, não há característica no seu corpo que te torne melhor ou pior do que outra pessoa quando o quesito é caráter. Esse corpo ideal, sarado, magro, não afeminado, branco, jovem, de rosto perfeitamente simétrico – que atende esse padrão estético patológico vigente –  é uma exceção entre a diversidade de corpos REAIS que existem.

Por que então só reconhecemos a humanidade dos corpos que atendem esse padrão? Por que eu só consigo gozar se for no sigilo? Se for discreto? Se for sarado? Se não tiver pelos? Se for branco? Se não for gordo? Por que com afeminado é só amizade? É de extrema importância que essas perguntas sejam feitas. A tal da “preferência” é um conceito insustentável por si só – não só nas relações entre homens e homens mas em todas possíveis –  que se apoia em racismo, misoginia, gordofobia e tantos outros problemas estruturais e sistêmicos da nossa sociedade ocidental. Por que criamos esse padrão inatingível nas nossas cabeças e deixamos de nos relacionar com pessoas que existem de verdade e estão ao nosso lado?  

Agora, para aqueles que estão conscientes dessas questões e ainda assim, em frente ao espelho, exigem de si mesmos outro corpo, outras características, outra aparência: por que exigimos de nós mesmos características que achamos um absurdo exigir dos outros? Aqui, o problema é o tal do amor próprio, que é muito difícil de conquistar plenamente. Mas quando você o tem, nada o rouba. É revolucionário. Nos amemos mais, pra ontem também.

Em relação a minha experiência pessoal, é bem simples. Eu realmente pensei que eu ia morrer, eu tive de lidar com a certeza da minha morte. E eu sobrevivi. Veja bem: sobrevivi, vivi pra além dessa certeza, sobrescrevi essa realidade. Por isso eu olho pro meu corpo hoje e não acho que ele seja nada menos do que PERFEITO! E a pessoa que não consegue entender essa vivência, sinceramente, não merece estar ao meu lado. Alguns vão chamar de auto estima ilusória, narcisismo. Bem, eu digo que essa estratégia tem funcionado muito bem. Sou muito mais feliz hoje.

Você usa aplicativos de paquera?

Uso, mas menos do que antigamente. Por eu estar vivendo um momento de grandes autorreflexões eu não ando tendo tanta vontade de me relacionar com outras pessoas.

Vivemos na era da PrEP (Profilaxia Pré Exposição), onde as pessoas estão preocupadas em se prevenir contra o HIV e ignorando as outras ISTs, levando-se em consideração que o medicamento não “protege” em relação a elas. Como você avalia esse comportamento atual de fazerem sexo sem proteção porque estão tomando a PrEP?

Não sejamos hipócritas, é um comportamento de risco. Antes do HIV, as outras ISTs já existiam. Eu já vi quem justifique o sexo sem a utilização de preservativos com o uso do PrEP. Não é tão simples assim. Estamos vivendo um surto de sífilis, de modo que a benzetacil se tornou uma medicação controlada para atender essa demanda. O HPV, a gonorreia, a clamídia e muitas outras ISTs também são uma realidade.

O HIV sim assusta muito, por que até pouco tempo atrás seu diagnóstico equivalia a uma sentença de morte. Essa não é mais a realidade. Minha vida quase foi tirada pela sífilis: uma doença que existe desde, pelo menos, da idade média – e que a humanidade já conhece uma cura a alguns séculos. Nesse sentido, fazer sexo sem proteção usando a justificativa de que se está tomando PrEP, é no mínimo inconsequente. Eu entendo que, para muitos, o uso da camisinha pode ser um desestímulo: pode fazer brochar. Se isso acontece com você, eu sugiro que procure uma terapia, pois na minha experiência pessoal, o preço que se paga por uma atitude inconsequente pode ser muito alto.

O seu caso ilustra bem que qualquer IST (principalmente se for diagnosticada tardiamente) pode ter sérias consequências para a saúde. Você acha que as pessoas têm essa dimensão do risco? Digo estas que estão usando a PrEP para fazer sexo sem proteção.

Não, essas pessoas não têm essa dimensão do risco, com toda certeza. Com a invenção do PrEP, a sensação que se instala é a de que a “maior das ISTs” consegue ser prevenida, então não há preocupações no sexo sem proteção. Esse pensamento é ilusório.

 Você não acha que as campanhas de modo geral focam no HIV e “desprezam” de certo modo a gravidade das outras ISTs?

Acho que desprezar não seria a palavra correta. Veja bem, sim o HIV foi um grande susto na humanidade e especialmente na população LGBT, por isso é natural se esperar grandes campanhas de conscientização voltadas especificamente para ele. Mas como eu disse antes, hoje o paradigma é outro, então devemos sim contemplar todas as ISTs numa campanha de conscientização. Caso contrário, nossos esforços para manter a saúde pública estarão sendo ineficazes.

Como você vê o sexo na sua vida hoje?

O sexo hoje, é algo que eu ainda estou redescobrindo. Não é fácil, como pessoa que tem dor crônica, me permitir ser tocado. Como será essa toque? Que intenção ele carrega? Nesse sentido, perdi boa parte da vontade de fazer sexo casual, sem conhecer meu parceiro antes. Veja bem, não acho que isso seja necessariamente uma coisa boa, mas é uma realidade na minha vida. Faço muito menos sexo hoje! Mas também faço um sexo muito menos coreografado e muito mais sensorial do que antes.

Você se sente hoje uma pessoa mais forte e preparada para lidar com os obstáculos da vida?

Me sinto uma pessoa muito mais consciente, de mim mesmo e do meu arredor. Costumo brincar que agora tenho um olho voltado para dentro o tempo todo. Encarar uma doença como a sífilis terciária e todas as suas consequências pode ter uma propriedade transformadora na vida de um sujeito. Apesar dos pesares, sou muito grato a essa experiência: sem ela eu não seria quem eu sou hoje, uma pessoa que se ama e que tem orgulho de si mesma. Então sim, me sinto muito mais forte, me sinto muito mais preparado.  

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