Eu não sou HIV positiva, mas e se fosse? Eu teria mais medo de como a sociedade iria me tratar do que a próprio vírus em si. Não tenho medo de ser associado a pessoas que são HIV positivas e eu não tenho medo de amar as pessoas que são HIV positivas. Se é com isso que eu tenho que lidar por causa do meu envolvimento na luta contra esta epidemia, então que assim seja. Porque a aprovação delas no mundo é mais importante do que a minha, porque a coragem delas é maior que a minha, porque o que elas estão enfrentando é real. E se pudermos aprender a lidar com o real e com nossos medos, eu estou esperançoso de que podemos superar a doença.

Em 11 de dezembro de 1991 Madonna já falava sobre o terrível estigma que recai sobre os portadores de HIV. Mesmo sendo a AIDS uma doença que hoje mata menos que o câncer, a pessoa portadora se torna um pária, como se o fato de andar com alguém infectado fizesse com que a pessoa se infectasse.

Meu melhor amigo se enforcou uma semana depois do dia dos namorados. Era soropositivo desde os 18 anos e foi capaz de aguentar as fofocas e maledicências até os 34. Então, mesmo saudável, não suportou a solidão e o desprezo das pessoas. “Não aguento mais”, dizia a carta dele.

Eu recebi uma carta de um leitor soropositivo, na qual ele relata o dilema em que vive: não quer esconder sua condição dos parceiros; mas, assim que conta, eles somem. Consigo entender a atitude de ambos. Um não quer viver às sombras e decide contar. Já o outro,  foge por ignorância ou preconceito.

Mesmo com muita informação, onde sabemos que a pessoa com carga viral indetectável não apresente risco de transmissão de HIV mesmo com sexo sem proteção, o preconceito é tremendo, afasta pessoas, desestimula testagem, mata e oprime.

Mesmo sabendo do fato de que a AIDS é uma doença crônica, o estigma em que ela se transformou no universo LGBT+ faz com que à sua simples menção todos se afastem. O preconceito, a falta de informação e as fofocas são mesmo mais doentias e dolorosas que o vírus em si.

É necessária muita maturidade para estar numa relação sorodiscordante (na qual um parceiro é HIV e o outro não) e ficar tranquilo, mas isso é possível, com o uso dos retrovirais.

Acho que no fundo é uma decisão pessoal, que leva em consideração o afeto que se sente por aquela pessoa, mas que não deve esquecer a consciência de que devemos sempre, mesmo em relações monogâmicas, utilizar preservativo.

O pior de tudo é, a meu ver, a exposição da vida pessoal de alguém que já sofre uma dor. Precisamos mesmo falar da vida de todos? Sobre quantas pessoas saudáveis eu já ouvi fofocas que juravam que elas eram portadoras… Os LGBTs, de certa forma, criaram um obsessão com o HIV, mesmo que hoje ele seja um vírus que se propaga mais por causa de um comportamento de risco; e não por se fazer parte de um estereotipado grupo de risco.

Cada um decide com quem quer se relacionar, tenho certeza que devemos dar todo afeto e suporte para quem terá que conviver anos à fio com um vírus, com tamanha polêmica e ainda ter que lidar com esse afastamento social.

O Brasil registrou aumento de 21% de casos de HIV entre 2010 e 2018. Temos que falar sobre isso, nas escolas, nos grupos de amigos, até nos aplicativos. Temos inúmeras formas de lidar, que não passam pelo isolamento social.

Vamos ser solidários, amigos, dar o carinho necessário. Não somente de amor sexual vive um ser humano. Um abraço no momento certo pode salvar uma vida.

Ao meu amigo que morreu eu dedico esse texto. Queria ter te dado esse abraço, ter lhe dito que você poderia contar comigo pra sempre. Sei que sabia disso, mas eu queria ter dito as palavras. Não percam essa oportunidade.

"Aids: o vírus do preconceito mata mais que a doença." Paiva Netto
Vicente Perrotta-  46ª Casa de Criadores- Inverno 2020-  Novembro 2019---Foto: MARCELO SOUBHIA/ FOTOSITE
Vicente Perrotta – 46ª Casa de Criadores – Inverno 2020 – Novembro 2019 – Foto: MARCELO SOUBHIA/ FOTOSITE
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