Nas situações em que somos a maioria, o grupo dominante, gays e cisgêneros (termo usado quando há concordância entre identidade de gênero e o sexo biológico) repetem o discurso do opressor. Não é absurdo?

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Gays no começo da sua vida passam por uma dor: descobrir que sentem algo que o mundo vê como “pecado”, “sujeira”, “safadeza”, “torpeza d’alma” e grande ofensa à masculinidade. “Viado”, “boneca”, “florzinha”… são tantos apelidos vis e cruéis que nem sei por onde começar.  A vida segue e um dia temos a coragem de dar um basta, coragem que precisamos para enfrentar religiões e crenças pessoais.

Mas imaginem ter que repensar seu conceito de Deus. Que hétero pode entender o que é refazer a ideia de Deus, achar que o Papa está errado (ele deveria ser infalível) para poder seguir na fé. Ou abandonar tudo, como eu fiz. Eu, um jovem líder do movimento Marista em Florianópolis, perdi a fé e tornei-me agnóstico. Claro que a psicanálise, minhas próprias sessões no divã e minha formação na área, me ajudaram nessa jornada. Hoje sou feliz com a vida que tive, com a que tenho e com a que espero que terei.

Mas existe um grupo especial, que tem muitas diferenças e similaridades entre si, as transexuais do Brasil.

Eu tento entender a dor, sinto-me como um hétero tentando entender o que é ser gay: impossível. Aprendi então a calar a minha boca e ouvir o que elas têm a dizer.

Os dados são claros, 90% das trans estão na prostituição. Destas, 60% não queriam estar atuando nisso e as demais 40% dizem preferir a prostituição, em grande parte porque fora dela receberem salários indignos.

No Brasil onde 2/3 dos desempregados são mulheres e negros recebem em média metade do salário de uma mulher, fico pensando o quanto sofre uma transexual, negra e pobre. Será temos a capacidade de nos solidarizar?  Ou nos manteremos sempre no deboche, na risada e na piada?

Daniela Andrade, militante e trans, me ensina muita coisa e lembro de uma frase dela falando sobre o mercado de trabalho (no seu caso, tecnologia da informação, TI): “De modo geral, se um homem erra, ‘é apenas um erro’. Se uma mulher erra, ‘tinha que ser mulher’ e se a transmulher erra, a frase vira ‘mas quem contratou esse traveco?’ Fiquei sabendo que usaram essa pergunta em relação à mim em uma determinada empresa. Cansei de, nessa área, ouvir da boca de homens que ‘mulher na área de informática com talento não existe, elas entram nessa área pra conseguir homem”.

É nossa obrigação nos solidarizarmos, lutar pela visibilidade trans, movimento que tem como dia comemorativo todo 29 de janeiro. Temos que lutar por maior atendimento no Serviço Único de Saúde, o SUS (a fila para a mudança de sexo hoje dura anos) e pela não judicialização (necessidade de ter que entrar na justiça) dos processos de mudança corporal e hormonal.

Mas eu jamais saberei realmente o que é olhar para seu corpo e pensar “não sou isso, sou mulher” (ou o contrário). Seguramente uma pessoa que já enfrentou a primeira luta, perceber-se gay, sente-se em uma nova batalha dentro do próprio meio homossexual ao “virar mulher”, tendo que enfrentar todo o preconceito que alguns gays têm com “os que são afeminados” ou com mulheres em geral: recai tudo sobre as trans.

É um choque para muitos quando um amigo vira amiga. Eu já vivi esse susto, com uma que hoje é uma grande amiga. Aliás, tenho diversas amigas trans. E você?

Todas, sem exceção, têm um histórico de luta, de sofrimento e de vilipendiações. Uma delas é chamada pela mãe pelo nome masculino até hoje, mesmo tendo os documentos já corrigidos.

Lembro do olhar de confusão quando falo da minha sexualidade para alguns, mas não posso imaginar o que é ser olhado e julgado por todos, todo o tempo. Que força essas meninas e meninos devem ter, que garra.

Já perdi um ou outro trabalho por causa de preconceituosos, mas não sei o que é a total falta de empregabilidade. Mulheres trans que conheço, absolutamente capazes, inteligentes, articuladas e simpáticas, estão fora do mercado do trabalho. Aqui nem o papo de que é através da meritocracia (subir por esforço e mérito) que se consegue tudo funciona. Esta não consegue vencer o mais cruel dos preconceitos, aquele que coloca as trans como uma caricatura da mulher hétero.

Se você não entende nada disso, pergunte a elas. Seguramente te dirão: “Sou mulher”. Aceite. Você nunca saberá a dor do outro, o quanto ela lutou para se construir mulher e, sinceramente, isso não vem ao caso aqui, não é primordial você tem que saber isso: o que o outro diz sobre si mesmo deveria bastar. Cuide da sua vida e vamos juntos, unidos, fortalecer o movimento LGBT+ e lutar contra TODO e qualquer tipo de preconceito.

Para minhas amigas trans e todas as demais deusas do feminino, meus parabéns.

“As pessoas já exigem o impossível de uma mulher, imagine de uma transexual” (Lea T.)

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