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Com estreia na Mostra Internacional Curta o Gênero, que acontecerá de 17 a 29 de agosto, o curta-metragem “O Amigo do Meu Tio”, de Renato Turnes e Vicente Concilio, traz uma imersão nas fitas VHS gravadas pelo pai de Vicente entre 1987 e 1993, resultando em um documentário performativo sobre a vivência da infância sendo gay.

Em parceria com o documentarista Renato Turnes (que dá continuidade à sua investigação sobre a memória da comunidade LGBTI+ iniciada com o premiado “Homens Pink”), “O Amigo do Meu Tio” surgiu de um texto escrito dentro da oficina “Como eliminar Monstros”, conduzida pelo Ronaldo Serruya e Fabiano de Freitas. Lá, abordando o impacto do HIV/aids na arte e cultura brasileiras.

“Eu não tinha como não lembrar da minha própria história: a epidemia era pauta fortíssima justamente no momento em que eu entrava na adolescência, e nós éramos o público alvo de muitas ações referentes ao uso da camisinha e do sexo seguro. Mais do que isso: a ênfase dos discursos nos ‘grupos de risco’, sempre lembrando que gays eram mais vulneráveis, imprimia certo terror para a minha geração”, disse Vicente por e-mail.

“Ali eu lembrei da história do Chulé. De todos os amigos do meu tio, era ele quem eu desejava. […] Chulé era um homem hétero, e naquele momento em que não havia medicação para pessoas vivendo com HIV; ele foi a única pessoa próxima [de mim na época] que morreu em decorrência da complicação da AIDS. […] No fim, a junção da história que relacionava a presença do vírus na memória da minha primeira paixão de criança com as imagens de arquivo transformou tudo em algo muito maior, com mais conexões. Muitos gays passaram por esse medo de serem descobertos quando crianças, por medo da retaliação e da opressão normativa; muitos também tiveram sua paixão platônica por um homem mais experiente”, completa Concilio.

Curta "O Amigo do Meu Tio" aborda infância LGBTI+ e estreia no Curta o Gênero
Curta “O Amigo do Meu Tio” aborda infância LGBTI+ (Divulgação)

“‘O Amigo do Meu Tio’ é um documentário performativo que criamos no momento mais isolado da pandemia do covid 19. Nesse contexto escolhemos desenvolver uma narrativa audiovisual sem nenhuma filmagem atual e nos concentrarmos nas possibilidades de criação de sentido do material de arquivo, em diálogo com a voz de Vicente adulto. O texto é então o elemento da linguagem que se expande para fora do arquivo, o observa e atualiza, a partir de uma distância auto-reflexiva. O olhar do personagem adulto, que também é performer de si mesmo, reconstrói o documento VHS, escolhendo para si os espaços de lembrança e esquecimento que vão constituir a expressão pessoal de suas memórias de criança. Imaginei que assim criaríamos uma tensão nas expectativas comuns ao documentário enquanto gênero, que permitiria ao filme transitar com liberdade nos limites entre o depoimento e a auto-ficção. O conjunto de imagens VHS filmadas pelo pai, voz de homem que controla aquilo que deve ser documentado, registra a família ao longo dos anos, o que permitiu que a passagem do tempo estivesse impressa nos corpos que enquadrou. Se o corpo-criança de Vicente muda até o ponto de ter que enfrentar as questões de performatividade que o corpo-homem impõe, a cachorra Dolly também percorre seu próprio arco temporal sereno e doméstico, nos lembrando sempre que surge em cena que o tempo é a matéria. Esse dispositivo permitiu que as memórias fluíssem sobre uma linha do tempo natural, na qual o olhar cheio de expectativas do pai é transgredido pela forma como o filho escolheu lembrar. Donos daquilo que lembramos, podemos construir e protagonizar nossas próprias narrativas. Como homem gay, ao me encontrar com essas imagens e com a visão de Vicente sobre elas, me lembrei também de meus amores de criança e, mais que tudo, lembrei daquilo que somos forçados a esquecer em função do discurso moralizante e hipócrita que tenta apagar a existência da infância LGBTI+ e suas elaborações particulares de afetividades e desejos”, conta Turnes por e-mail.

SERVIÇO

Mostra Internacional Curta o Gênero,
17 a 29 de agosto @ Youtube
curtaogenero.org.br

O Amigo do Meu Tio (2021)
Documentário, 8′
Um filme de Renato Turnes e Vicente Concilio

Sinopse: Em 1987, o pai de Vicente Concilio comprou uma filmadora VHS e passou a registrar momentos do cotidiano da família. Em 2021, Vicente reencontrou algumas dessas fitas que, ao serem digitalizadas, reviveram parte de suas memórias de criança LGBTI+.

Com Vicente Concilio
Direção e edição: Renato Turnes
Roteiro: Renato Turnes e Vicente Concilio
Fotografia: Luiz Pio Concilio
Trilha Sonora Original e Mixagem: Hedra Rockenbach
Edição de Som: Renato Turnes
Masterizações: Marko Martinz
Produção Executiva: Loli Menezes e Milena Moraes
Uma coprodução La Vaca e Vinil Filmes

As Produtoras

La Vaca é uma companhia brasileira de teatro e produtora audiovisual criada pelos artistas Milena Moraes e Renato Turnes, em Florianópolis. Em 2008 iniciou sua trajetória estabelecendo parcerias com dramaturgos da nova cena latino-americana, em espetáculos como Mi Muñequita, Uz, Kassandra, além do recente Ilusões. Desenvolve projetos que incluem linguagens diversas, expandindo a experiência com o palco tradicional para o teatro contemporâneo, intervenção, performance e audiovisual. Em mais de uma década de atuação, segue investindo na produção de trabalhos politicamente comprometidos, que buscam diálogo potente com os espectadores. Em 2020 produziu o documentário Homens Pink, sobre memória da comunidade LGBTI+ brasileira e em 2021 os curtas O Amigo do Meu Tio (documentário) e Bloco dos Corações Valentes (inédito).

Vinil Filmes é uma produtora independente de cinema, TV, videoclipe e artes visuais com sede em Florianópolis/SC. É uma das produtoras mais ativas do sul do Brasil, circulando suas obras por festivais nacionais e internacionais e recebendo cerca de 30 prêmios. São 16 anos de uma cinematografia continuada, construída de forma coletiva, sempre presente em eventos de destaque e nas mais diversas telas para o público, desde escolas, cine-clubes, mostras até grandes festivais, TV e plataformas digitais. Com o curta “Selma depois da Chuva”, percorreu 17 países, conquistando 9 prêmios, representando o Brasil no Iris Prize – maior premiação de curtas do mundo.

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