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A novela Tieta foi exibida em 1989 na Globo, 10 anos antes do Conselho Federal de Psicologia proibir o tratamento de “cura gay”. A novela entrou para a história da teledramaturgia ao exibir uma cena considerada ousada para a época: a protagonista Tieta (Betty Faria) defendendo sua amiga Ninete (Rogéria), uma mulher trans, após ela ser alvo de transfobia em Santana do Agreste.

Ninete aparece em um bar da cidade e é assediada por Amintas (Roberto Bonfim). Ao reagir, revela sua identidade de gênero, gerando comoção e reações preconceituosas entre os frequentadores. O momento culmina em um intenso diálogo entre Tieta e seu sobrinho Ricardo (Cássio Gabus Mendes), com quem ela mantinha um relacionamento secreto.

Assista ao trecho:

'Tieta' defendendo a amiga trans Ninete (Rogéria)
byu/viniciusyamada ingayblogbr

Na cena, Ricardo tenta deslegitimar Ninete com argumentos religiosos: “Tieta, você é uma mulher, eu sou um homem. Tá no Evangelho: crescei e multiplicai-vos.” A resposta da protagonista, com tom didático e provocativo, é lembrada até hoje como uma das falas mais emblemáticas da novela: “Gente, é só pra isso que sexo serve? Pra multiplicar? Então, a gente vai pra cama só pra reproduzir? É isso, Cado? Não vai pra ter prazer? Cada um que encontre sua maneira de amar, de ter prazer, de viver. Só porque não é igual a tua maneira, tu vai achar que tá errada? Se tu não entende, tu julga, vai julgar e vai condenar? Abra o seu coração, a sua cabeça.”

O episódio não apenas trouxe à tona debates sobre diversidade sexual e de gênero em horário nobre, como também escancarou o moralismo e o preconceito presentes na sociedade brasileira da época. Rogéria, que interpretava Ninete, foi uma das primeiras artistas trans a conquistar espaço relevante na televisão, marcando sua trajetória como símbolo de visibilidade e resistência.

ENREDO DA ADAPTAÇÃO DA GLOBO

Na adaptação televisiva do romance de Jorge Amado, exibida pela TV Globo em 1989, Tieta começa com a expulsão da jovem protagonista (Cláudia Ohana) de Santana do Agreste, no interior nordestino. Acusada de comportamento considerado inapropriado para os padrões locais, Tieta é rejeitada pelo pai, Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), influenciado pelas acusações da filha mais velha, Perpétua (Adriana Canabrava).

Anos depois, já adulta e bem-sucedida, Tieta (Betty Faria) retorna à cidade natal, justamente no dia em que rezam uma missa por sua suposta morte. A interrupção da cerimônia marca sua reaparição triunfal. Rica e segura de si, ela rapidamente percebe que os antigos valores da cidade seguem intactos: hipocrisia, moralismo e resistência à mudança ainda moldam as relações locais.

O retorno de Tieta movimenta a rotina dos moradores. Ela passa a ser alvo de interesses diversos e, em meio a isso, engata um relacionamento com Ricardo (Cássio Gabus Mendes), seu sobrinho e aspirante ao sacerdócio, filho da religiosa e rígida Perpétua (Joana Fomm).

Outros personagens contribuem para a complexidade da trama. Ascânio (Reginaldo Faria), secretário do prefeito Arthur da Tapitanga (Ary Fontoura), sonha com o “progresso” para a cidade, mas acaba apoiando, sem saber, a entrada de uma indústria poluente liderada por Mirko Stéfano — pseudônimo usado por Arturzinho (Marcos Paulo), filho do prefeito que retorna à cidade com desejo de vingança. Arturzinho chega a seduzir Tonha (Yoná Magalhães), madrasta de Tieta, que também volta transformada de São Paulo após anos de submissão ao marido, Zé Esteves.

O romance entre Ascânio e Leonora (Lídia Brondi), apresentada como enteada de Tieta, ganha destaque ao revelar que a jovem é, na verdade, uma trabalhadora do sexo. Ao descobrir, Ascânio a rejeita, mas reconsidera ao final da trama, encerrando o enredo com a reconciliação do casal — um desfecho distinto do livro de Amado, que opta pela separação.

A novela também aborda relações de poder e exploração. Imaculada (Luciana Braga) é uma jovem seduzida pelo prefeito em troca de benefícios, mas consegue se desvencilhar da dependência. Já Carol (Luíza Tomé), amante do influente Modesto Pires (Armando Bógus), vive um impasse emocional por amar Osnar (José Mayer), o ex-amor de Tieta.

Elisa (Tássia Camargo), em crise conjugal com Timóteo (Paulo Betti), protagoniza sequências surreais nas quais fantasia encontros com o ator Tarcísio Meira. Enquanto isso, o mistério da “mulher de branco”, figura que assombra os homens da cidade, movimenta o enredo até sua revelação final: trata-se de Laura (Cláudia Alencar), esposa do Capitão Dário (Flávio Galvão), personagem que prega a preservação ambiental em oposição aos planos de Ascânio.

A novela termina com outra incógnita: o conteúdo de uma caixa branca guardada com zelo por Perpétua. Nunca mostrado explicitamente, o segredo é sugerido em falas e reações dos personagens — tudo indica que ali estaria o órgão genital de seu falecido marido, o Major Cupertino Batista.

Com fortes críticas ao conservadorismo e à hipocrisia, Tieta transformou personagens femininas em catalisadoras de mudança, utilizando humor, ironia e provocação para tensionar os limites da moral tradicionalista.




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