Renato Viterbo (51) é vice-presidente da Associação da Parada LGBT+ de São Paulo há três anos e conversou com exclusividade com o GAY BLOG BR. Na entrevista, Viterbo fala sobre a repercussão da Parada Virtual, o cenário político da atualidade e diversos assuntos que surgiram nas redes sobre a Associação.

Renato Viterbo – Reprodução

Neste 2020, definitivamente, não haverá Parada LGBT de SP.

Não haverá Parada em novembro, por decisão da Presidente Claudia Regina e da Diretoria da Parada em conjunto com a Prefeitura de São Paulo.

Falando sobre a Parada virtual que aconteceu em 14 de junho, como você reagiu com as várias críticas que o evento recebeu?

Com relação às críticas, todas são bem-vindas. Na minha opinião, a avaliação do evento por todos que acompanharam foi de cerca de 99% positivas e 1% negativa. Logo, só tenho como avaliar a ParadaSP ao Vivo como algo positivo. E se houve críticas por parte de algumas pessoas, também mostra que foi um sucesso, porque se assim não fosse, as pessoas não comentariam. E para uma ação construída em 30 dias me dou por satisfeito.

A escolha dos convidados/participantes da Parada Virtual foi decidida pela Associação ou pela Dia Estúdio?

Os convidados foram 50% de cada parte, pois o evento também foi construído em parceria com a Dia Estúdio e Associação da Parada LGBT de São Paulo, inclusive financeiramente.

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Frame da Parada Virtual 2020 – Reprodução

Na sua opinião, o duo Diva Depressão atualmente é quem mais representa a comunidade LGBT de SP?

Na minha opinião não existe isso de representar mais ou menos, porque ninguém deve representar a Comunidade LGBT. E se alguém achar que representa, está errado. As pessoas devem se representar e se apresentar como LGBTs, serem a sua própria voz, elas não precisam que ninguém as represente. As Divas da Depressão são mais um produto do segmento LGBT formado por uma dupla de LGBTs e podem, em algum momento, representar parte das pessoas LGBTs com seus comentários e apenas para as pessoas que os acompanham pelas redes sociais.

Uma das críticas diz respeito aos apresentadores/convidados serem todos jovens e youtubers, muitas pessoas LGBT não se sentiram representadas por eles e todos eles faziam parte do casting da Dia Estúdio. A outra crítica diz respeito às veteranas do movimento LGBT terem ficado de fora.

Com relação a críticas de todos os apresentadores serem jovens não acho pertinente, pois a própria militância cobra essa renovação de militantes LGBTs jovens, pois acreditam que os jovens trazem um dinamismo em toda a comunidade, tendo em vista que eles estão mais familiarizados com a nova comunicação através das redes sociais. O fato de todos contratados pertencerem ao Dia Estúdio, também não vejo problemas, pois vivemos a era da informação e precisamos comunicar a um maior número de pessoas possíveis, sejam LGBTs ou não. E esses jovens são os que têm maior número de seguidores e um alcance maior nas redes sociais.

Com relação a alguns veteranos que reclamaram, posso informar que eles foram convidados como as demais pessoas; pelos seus e-mails pessoais, profissionais ou mesmo pela redes sociais – e não responderam. E os que responderam disseram que não havia interesse. Enfim, as pessoas querem convites personalizados e, no mundo dinâmico que vivemos, não conseguimos trabalhar mais desta forma, toda comunicação da ONG é feita por e-mail, não existe convite pessoal.

Todos estavam representados de alguma maneira ou em algum momento, seja pelos apresentadores, pessoas influentes, artistas, etc. Todo conteúdo foi construído de maneira a atender todas as representatividades possíveis do segmento LGBTQIA+.

Por que as pessoas pessoas influentes do meio LGBT como Nany People, Silvetty Montilla, Kaká di Polly, por exemplo, deixaram de participar da Parada de SP? Qual a razão?

Essa pergunta você deve fazer para elas, cada uma vai alegar seu motivo pessoal. Posso afirmar que até 2016 a Silvetty participou da Feira e da Parada; a Kaká di Polly até 2018 esteve em cima de algum trio da Parada como convidada, inclusive no trio das artistas da noite comandado por Salete Campari; a Nany não participa da Parada, mas não sei até que ano participou. [Mas todo ano a Nany está com sua tenda na Feira Cultural da Diversidade com a venda do seu Guia, inclusive este ano estaria de novo, mas em função da pandemia a Feira não pôde ser realizada.]* Mas na minha opinião, chega uma hora que vemos as coisas de uma outra forma e precisamos nos reinventar e buscar coisas diferentes e novos desafios. 

*[ERRATA] No dia 03 de agosto de 2020, Renato Viterbo enviou a seguinte mensagem: Gostaria de solicitar uma gentileza, peço que coloque uma errata na matéria por mim cedida a você, na fala onde me refiro a Nany People sua participação na Feira da Diversidade e na Parada LGBT de São Paulo. Na verdade a Nanny é madrinha do Guia GLBTS, e não proprietária do Guia, e o Guia é distribuído de forma gratuita a todos os participantes da Feira da Diversidade. Desde já agradeço e me coloco a disposição”.

Kaká di Polly e Nany People – Reprodução

No comunicado oficial que vocês publicaram no site da APOLGBT, foi dito que vocês entraram em contato com algumas pessoas por e-mail, Instagram e Whatsapp, entretanto quatro artistas veteranas declararam que não receberam tais convites. Então, houve o convite de fato?

Sim, algumas das veteranas receberam o convite, seja por e-mail, Instagram ou Whatsapp, porém, como informado, não retornaram.

Em relação a apresentação do Diva Depressão, muitos comentaram (inclusive a Kaká di Polly) que a dupla só sabia dizer: “Arrasou, aí mona, ai que luxo, ai que escândalo, aí parou tudo”. Muitos acharam que isso ocorreu porque não havia um conhecimento profundo a respeito da história gay de SP.  O que você achou da apresentação do Diva Depressão?

Em relação a este tipo de comentário, só tenho a lamentar, pois mais uma vez prova que as pessoas querem personalismo no movimento, porque sou mais gay, porque sou mais lésbica, por isso ou aquilo. A história do movimento LGBTQIA+ foi feita ao longo dos anos por diversas personalidades ou pessoas, inclusive, pessoas essas de fora do país. O fato das Divas da Depressão ter usado uma linguagem mais simples, não os desqualifica como não conhecedores da historia do movimento LGBTQIA+, pois os termos usados “Arrasou, aí mona, ai que luxo, ai que escândalo, aí parou tudo” é uma linguagem coloquial usada pelo próprio movimento LGBTQIA+, sejam eles jovens ou mais idosos.

Renato Viterbo – Reprodução

Em uma entrevista para o GAY BLOG BR, Kaká di Polly declarou que ela é associada da APOLGBT há mais de 12 anos mas que nunca recebeu o boleto de pagamento da mensalidade, por que? Como funciona essa questão dos associados? Até mesmo para quem deseja se associar a vocês.

Cada pessoa fala o que quer, eu posso falar pelo período que estou na ONG. A cerca de um ano, fizemos recadastramento de todos os associados e inclusive com chamamento pelo Site da Associação da Parada. Pergunto, ela se recadastrou? Quantas vezes ao longo desses doze ano ela contribuiu com a anuidade da instituição? E se não recebeu, por que também não procurou a ONG e cobrou o envio do boleto? Hoje, qualquer pessoa pode se cadastrar como associado pelo site e já recebe o boleto para pagamento direto no e-mail pessoal. Se ela não recebeu se recadastre e tenho certeza que irá receber e ser associada de fato.

Na mesma entrevista para o nosso site, Kaká di Polly comentou que no início os trios eram pagos pelas boates, porém o valor aumentou tanto, que chegou a um ponto que as boates não tiveram mais condições de arcar, e aí entrou as grandes empresas, que tinham condições de pagar uma alta soma. Ocorreu isso de fato?

A Parada LGBT quando começou era feita por pessoas independentes e que, por consenso de grupo constituiu a ONG Associação da Parada LGBT de São Paulo em 1999, os custos eram repassados para as boates. Era cobrado uma taxa para manutenção da Sede, não sei de valores pois não estava na época, o que posso falar é que não é justo as boates que faturam em cima da Parada no Mês do Orgulho LGBT+ de São Paulo, onde abrem suas casas a partir da quarta-feira e só fecham na segunda pela manhã, não queira contribuir com os custos da ONG que realiza o Maior Evento LGBT do mundo, mas querem colocar trios elétricos para visibilizar ainda mais suas casas. Fora do país, toda a comunidade LGBT contribui com a causa e o faz porque entendem as necessidades e respeitam a causa de verdade.

Mudando de assunto, no dia 10 de julho, vocês publicaram uma nota do ativista Cláudio Nascimento lamentando que o canal do Youtube Põe na Roda ter dito que a primeira Parada do Orgulho havia sido realizada em São Paulo, mas que houve antes em 1995 em Copacabana, no Rio. Existe ainda muito desconhecimento a respeito do movimento LGBT e sua história no país?

Veja como é importante antes de se publicar algo, buscar a informação correta e ouvir os dois lados, assim deve ser feito o jornalismo sério e com credibilidade. Todos que conhecem a história do movimento LGBT do Brasil sabem que a primeira Parada LGBT foi realizada em 1995 no Rio de janeiro. E algumas pessoas no afã de querer ser visto e pegar carona nas matérias sensacionalistas e em tudo que acontece no Mês do Orgulho LGBT,  publicam coisas que não são verdadeiras. O Cláudio Nascimento é meu amigo pessoal e, tão logo tive conhecimento, comuniquei ao mesmo do equívoco, pois alguns querem fazer do Movimento LGBT Rio/São Paulo, algo do tipo Corinthians/Flamengo, quando na verdade o movimento LGBT é muito maior e todos devem caminhar juntos.

Acervo pessoal/Kassandra Taylor

Você acha que o trio elétrico estratifica as pessoas ou funciona como uma espécie de camarote? Na sua opinião qual a função do trio elétrico?

Mais um equívoco e falta de conhecimento de algumas pessoas e da comunidade. Os integrantes dos trios elétricos são todos militantes que, ao longo do ano, fazem alguma ação em prol da causa LGBT+ ou mesmo na Associação da Parada como voluntários. Eu e parte da Diretoria da ONG, por exemplo, vamos no chão, não ficamos em cima de trio elétrico e, se assim fosse privilégio, esse seria um que eu, como vice-presidente, poderia usar. Exceção são os trios dos patrocinadores que contribuem financeiramente com a realização da manifestação e por ter seus trios exclusivos convidam pessoas da comunidade que fazem parte do quadro de funcionários das respectivas empresas, seus diretores e amigos.

Como você analisa o atual momento político do país em relação à causa LGBT?

É um momento desafiador e perigoso, pois os direitos da população LGBTQIA+ nunca estiveram tão ameaçados, pois temos um desgoverno que está preocupado apenas com o que lhe interessa e com sua família e que tenta se manter no cargo através da ala militar, como se o povo aceitasse mais esse tipo de conduta. Acho que é o momento da população estar de fato unida, porque se algo acontecer, eles não perguntarão quem é L, G B, T, Q, I A+, todos serão tratados da mesma forma. Por isso é importante que a população LGBTQIA+ esteja atenta e não fique atacando a própria comunidade do tipo fogo amigo. Nossos inimigos estão do outro lado.

Que conselho deixaria para os leitores desta entrevista?

Minha mensagem é que cada um siga seu coração e não sirva de massa de manobra, pois toda unanimidade é burrice. Que nunca desistam dos seus objetivos, que lutem, resistam e defendam o direito de ser quem são, pois todos somos humanos.

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