A ausência do artigo “o” no título do projeto “Todo Mundo no Rio”, que, à primeira vista, pode causar estranhamento e sugerir uma escolha estilística da campanha, ganhou sentido concreto na noite de 2 de maio. Em Copacabana, o conceito deixou de ser slogan para se tornar descrição: não havia delimitação possível. Ao longo da orla, do Leme ao Posto 6, o que se via era um mosaico humano que reunia gerações distintas, perfis sociais diversos e a abençoada presença saliente do público LGBTQIA+, reconhecível nas bandeiras, na animação e, sobretudo, nos leques.
Estimativas oficiais apontaram que mais de 2 milhões de pessoas pisaram nestas calorosas areias no último sábado. Entre elas, figuras como Pabllo Vittar e Liniker, além de uma infinidade de nomes da televisão e do cinema. Ainda assim, o traço dominante não era a presença de celebridades, mas a redução da distância entre palco e plateia.

Enquanto o público aguardava, a fachada do Copacabana Palace foi convertida em superfície de projeção para mensagens políticas e sociais vindas do público. Frases como “Fim da escala 6×1”, “Sem anistia”, “Tarifa Zero” e “Make America Latina Again” surgiam em sequência. A reação não foi dispersa: a multidão lia, filmava, comentava. Criava-se ali um embaralhamento entre espetáculo e debate público, em que a espera deixava de ser intervalo para se tornar parte ativa da experiência.
A abertura oficial rompeu com a lógica tradicional de grandes eventos na orla. Em vez de fogos de artifício, centenas de drones desenharam no céu ao lado da lua cheia. Primeiro, uma loba em movimento, com o uivo de todo mundo aqui, fãs. Depois, o rosto de Shakira, com seus jubilosos cabelos característicos. O encerramento dessa sequência trouxe a frase “TE AMO, BRASIL”, recebida com aplausos contínuos. Basta procurar por vídeos nas redes sociais deste momento para perceber que o uso da tecnologia não funcionou como adereço, mas como uma oferenda estética para as entidades do mar carioca.
Quando finalmente a artista colombiana surgiu no palco, a resposta da “alcateia” não foi apenas ruidosa, mas emocional. Os gritos vieram carregados de expectativa acumulada. Tratava-se de um reconhecimento construído ao longo de décadas, que ali se materializava em escala de milhões.
O repertório foi organizado em blocos que alternavam momentos de afirmação identitária, memória afetiva e celebração direta. Logo na abertura, “La Fuerte” estabeleceu o tom ao afirmar um eixo de força que atravessaria toda a apresentação.
Em “Te Felicito”, música que marcou o início da exposição pública da crise conjugal da cantora, o público respondeu com ofensas direcionadas ao ex-jogador Gerard Piqué. Durante uma pausa, Shakira falou em português sobre superação. Disse que mulheres se levantam “mais sábias, mais fortes e mais duras” após cada queda.
Visualmente, o espetáculo foi marcado por forte coerência estética. Cada bloco musical apresentava uma paleta de cores específica, criando uma experiência sinestésica em que som e imagem se articulavam. Figurinos acompanhavam essa lógica, enquanto elementos como a bandeira do Brasil apareciam integrados ao conjunto, sem ruptura visual.
A participação de Anitta, em “Choka Choka”, abriu o bloco de colaborações brasileiras no show e marcou a primeira inflexão mais clara na incorporação de referências locais ao repertório.
Na sequência, o show passou por uma mudança deliberada de ritmo e de escala. Ao lado de Caetano Veloso, Shakira apresentou “Leãozinho” em versão mais contida, reduzindo a intensidade da encenação e deslocando o foco para a escuta. Em seguida, Maria Bethânia interpretou “O que é, o que é”, de Gonzaguinha, mantendo o tom mais introspectivo e ampliando a presença de repertório brasileiro de caráter mais reflexivo, em contraste com os blocos anteriores.
O ritmo voltou a crescer com a entrada de Ivete Sangalo, que trouxe novamente o espetáculo para um registro festivo ao interpretar “País Tropical”, de Jorge Ben Jor, que também levou milhões à orla da mesma praia no Réveillon de 1993.
O bloco foi concluído com a participação da escola de samba Unidos da Tijuca e do grupo Dance Maré, que incorporaram ao palco elementos coreográficos e rítmicos vinculados à cultura popular carioca.
O encerramento retomou o eixo simbólico apresentado na abertura. “She Wolf” e “BZRP Music Sessions” reafirmaram a figura da loba como síntese da narrativa: autonomia, reinvenção e resiliência.
Mesmo com pouco mais de duas horas de duração, o evento ultrapassou a si mesmo: a cidade permaneceu em movimento, com bares abertos, grupos cantando nas ruas e leques batendo para ventilar todo mundo no Rio. A sensação de continuidade atravessou a madrugada e avançou para o dia seguinte, quando a experiência seguia nos celulares, com vídeos sendo revistos e compartilhados por todos os cantos. Em tom de comentário espontâneo, o ator Hugo Bonèmer chegou a resumir o clima ao relatar, já em sua peça no teatro no domingo pós-show, que estava “todo mundo com cara de ressaca, uma delícia”.
Com nova edição confirmada para 2027, a expectativa naturalmente se desloca. Não se trata de repetir a fórmula, mas de observar se esse tipo de convergência entre espetáculo e cidade pode se consolidar como experiência recorrente, capaz de manter sua força sem perder singularidade.
Na manhã seguinte, com a praia retomando gradualmente sua rotina, o que permanecia não era apenas memória. Havia uma sensação difusa de continuidade, como se o evento ainda reverberasse para além do tempo delimitado do show. De algum modo, Copacabana parecia sustentar, em silêncio, aquilo que havia sido afirmado na noite anterior: estamos aqui.
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