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A doença viral conhecida como ‘Monkeypox’ pode afetar qualquer pessoa, independente de sua orientação sexual ou raça. Apesar da obviedade, a cobertura dada ao tema (como ilustram as publicações da CNN World e do US News, por exemplo) destaca o quão pouco aprendemos com surtos anteriores.

Entre os primeiros casos confirmados da doença, quatro foram observados em homens que fazem sexo com homens (HSH), motivo suficiente para levar jornalistas da rede de televisão e rádio americana NBC a alertar homens gays e bissexuais à “varíola que se espalha entre a comunidade”. Ou ainda, instar o tabloide britânico Daily Mail a sugerir que homens homossexuais fossem os primeiros a receber a vacina contra a “varíola”. Uma forma de combater o surto da doença em todo o Reino Unido, segundo os repórteres.

Os virologistas Boghuma Kabisen Titanji, Keletso Makofane e Christopher Conner traçam paralelos com os relatórios iniciais sobre a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) e a homofobia associada à pandemia de HIV, ainda nos anos 1980, para defender que vincular as infecções a um determinado grupo de indivíduos não é somente equivocado, mas também “impede a investigação de surtos, a identificação de novos casos e as intervenções necessárias à saúde pública”.

Unaids denuncia divulgação “homofóbica e racista” sobre disseminação do vírus ‘Monkeypox’
Vírus causador da Monkeypox – Foto: Reprodução/ SCIENCE PHOTO LIBRARY

“Linguagem estigmatizante”

Nesta terça-feira (24), a Unaids Brasil publicou um alerta a toda a mídia sobre o que chamou de “linguagem estigmatizante” na cobertura dos novos casos de infecção humana por Monkeypox.

De acordo com a publicação, o novo surto indica que o mundo deve continuar enfrentando pandemias causadas por vírus e que apenas com coordenação e solidariedade internacional a sociedade vai superar ameaças como essa.

A experiência mostra que a retórica estigmatizante pode rapidamente enfraquecer a resposta baseada em evidências, gerando medo, afastando as pessoas dos serviços de saúde, impedindo os esforços para identificar casos e encorajando medidas punitivas ineficazes”, diz Matthew Kavanagh, diretor executivo adjunto da Unaids que assina o comunicado à imprensa.

Histórico recente da doença

Desde o início de maio, o vírus ‘Monkeypox’ foi detectado em 14 países europeus, além dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Emirados Árabes. Até o momento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) conta 237 notificações, entre confirmados e suspeitos, mas especialistas esperam que esse número aumente ainda mais no decorrer das próximas semanas.

Sylvie Briand, diretora da OMS para Preparação Global para Riscos Infecciosos, disse nesta terça-feira (24) durante uma conferência virtual que o vírus pode ser contido e que as autoridades estão “totalmente preparadas” para lidar com o problema.

A preocupação, no entanto, vem do caráter “atípico” dos casos, que vêm aparecendo em países não endêmicos da doença. Entre as pessoas infectadas, apenas duas apresentaram histórico recente de viagem para a Nigéria, país da África Ocidental e uma das áreas endêmicas da doença.

No Twitter, a biomédica e pesquisadora em saúde Mellanie Dutra preparou um “fio” com algumas informações importantes sobre a transmissão, sintomas e vacinação contra o Monkeypox. Achamos que vale a leitura!

Erro na tradução?

De acordo com Margarida Tavares, infectologista e coordenadora da Direção-Geral da Saúde de Portugal, o termo Monkeypox se refere a “uma nomenclatura científica universal”, logo, “não deve ser traduzida para nenhuma língua”.

Em entrevista ao jornal português Visão, a médica afirma ainda que uma tradução aproximada seria “exantema dos macacos”, mas ressalta que os primatas não são reservatórios da doença, mas sim hospedeiros acidentais, como acontece com os seres humanos.

“O vírus Monkeypox recebeu esse nome porque foi isolado e estudado, pela primeira vez, em um macaco”, afirma o microbiologista e professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) Luiz Felipe Leomil Coelho. “Os hospedeiros naturais desse vírus são os roedores, principais responsáveis por manter a circulação do Monkeypox em regiões da África Central.”

Sendo assim, a designação “varíola dos macacos” é duas vezes incorreta. Em primeiro lugar porque “iguala” dois vírus diferentes, embora da mesma família (os orthopoxvirus). Em segundo, porque estigmatiza as pessoas recém afetadas pela doença, considerando o histórico recente e agressivo da varíola em diversos países.




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Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Tem interesse em saúde, educação, direitos humanos e sociedade.