GAY BLOG BR by SCRUFF

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Recentemente o GAY BLOG BR abordou sobre o tema antirretrovirais, mas cabe ressaltar que é importante também não cuidar apenas da saúde física, mas também do lado emocional, diante de um diagnóstico positivo ou não.

Para o psicoterapeuta Filipe Estevam, o tratamento para HIV não pode se resumir em tomar uma medicação: “O bem-estar emocional é um pilar fundamental para a manutenção da saúde de qualquer pessoa, e lembrar as pessoas que pode ser leve sim viver com HIV”, avisa ele.

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Qual a importância de uma pessoa vivendo com HIV fazer também uma terapia (além da adesão ao tratamento)?

Infelizmente nós vivemos uma dinâmica social onde pouco se dá atenção à saúde emocional. Não é à toa que o número de pessoas com crise de ansiedade, pânico e depressão só vem aumentando. Na contra mão da crise econômica, a indústria farmacêutica registra nos últimos anos crescimento alarmantes no que se refere ao consumo de antidepressivos e ansiolíticos. Como a gente já sabe, esses medicamentos irão agir no sintoma da questão e não na sua causa. Já a terapia conduz o paciente a descobrir as causas das suas dificuldades e como superá-las. Essa pequena introdução é importante para que a gente lembre a importância da inclusão da prática da terapia aliada ao Tratamento Antirretroviral (TARV). Com todos os avanços da medicina, contamos hoje com medicamentos ultra modernos e eficientes com pouco ou quase nenhum efeito colateral garantindo assim uma vida totalmente saudável para o paciente. Acontece que diferente de qualquer outro vírus, o HIV carrega estigmas e preconceitos que impactam de forma negativa a saúde emocional do paciente. Hoje, lidar com o HIV, fala mais sobre lidar com as questões emocionais e sobre a saúde mental do paciente, visto que tratamento com a medicação é extremamente eficiente. A gente já sabe que a ciência avançou muito no tratamento, isso significa que uma pessoa que vive com HIV e faz uso dos seus medicamentos tem aí uma garantia de vida saudável. O que acontece é que nem tudo em nós é só objetivo, lógico e racional. Existe uma parte – na verdade uma boa parte – que é puramente emocional e é exatamente aqui que está o desafio. Pouco se fala na importância da prática da terapia no tratamento para o HIV. É na terapia que se dá espaço para trabalhar os sentimentos e as emoções: medos, tristezas, culpa etc. Eu aprendi na vida uma frase muito potente: “O remédio não conversa”. Um tratamento terapêutico se propõe a oferecer um espaço totalmente livre de qualquer julgamento para que o paciente possa falar, expor as suas dificuldades e através de uma escuta treinada, oferecer recursos subjetivos para aquele paciente lidar com a sua questão com mais clareza. Já esta mais do que claro que tudo aquilo que a gente não fala, vira doença e muitas delas chegam a se manifestar no corpo físico.

De que forma a terapia pode ajudar uma pessoa que vive com HIV a lidar com o preconceito e com o auto preconceito?

Acredito que um dos maiores desafios de uma pessoa que vive com HIV é o preconceito. Ele existe e não podemos negar. Mas tem um desafio ainda maior que pouco se fala: O autopreconceito. Existe aí no imaginário de cada um, um modelo de autoimagem perfeita – os conceitos. Quando o HIV entra na história e rompe com esse meu padrão de imagem perfeita coloca em xeque a identidade daquele paciente. E aí está a maior dificuldade de uma pessoa que vive com HIV: a autoaceitação. Porque isso abala a sua autoestima e a sua autoconfiança. Porque em tese, uma pessoa que tem esses 3 pilares- autoestima, autoconfiança e autoaceitação – bem trabalhados não se sentirá tão vulnerável para o HIV. Aqui entra o papel da terapia: ajudá-lo no seu processo de autoaceitação. Uma vez que ele consegue estabelecer essa relação consigo mesmo, a aprovação e a aceitação do outro ocupa uma importância secundaria na sua vida.

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O que você sugere a uma pessoa HIV positiva que está enfrentando problemas de autoestima?

Costumo dizer que autoestima nada mais é que a percepção que uma pessoa tem sobre ela mesma. Pessoas que tem baixa autoestima, tem uma percepção (um julgamento) sobre si mesmo muito ruim. Já as pessoas que têm uma autoestima fortalecida, é porque conseguem fazer uma análise sobre sim mesma com mais generosidade, carinho e afeto. Acontece que, geralmente, essa percepção ou análise que fazemos de nós mesmo não é lá muito real. Geralmente ela é distorcida por um conjunto de fatores que fazem a pessoa se perceber menor do que ela é de verdade e acreditar nisso. Quase ninguém sabe é que o segredo para uma autoestima fortalecida está na autoconfiança e a autoaceitação. E é exatamente por isso que hoje pensar em uma autoestima fortalecida parece até artigo de luxo. Simplesmente porque lá na infância, quando deveríamos aprender sobre coragem, sobre autoconfiança, sobre aceitação, aprendemos exatamente ao contrário. Aprendemos de forma equivocada que o olhar do outro é importante. Frases do tipo: “Para de chorar! O que os seus coleguinhas vão pensar de você”, só reforçam um comportamento que irá construir um futuro adulto totalmente refém da opinião, da aprovação e da autorização do outro. A minha sugestão para quem quer melhorar a sua autoestima é: melhore a percepção que você tem de si mesmo; seja mais paciente, amoroso e gentil consigo mesmo; largue o chicote: pare imediatamente de se criticar e de se julgar. Cuide-se como você cuida dos seus melhores amigos. Comparações não levam a lugar nenhum: Pare imediatamente. Aprenda a dar valor a todas as suas conquistas, sejam elas do tamanho que for. Faça terapia.

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Você é HIV positivo desde 2004, o que você diria para uma pessoa com HIV que recebeu o diagnóstico recente?

Vai ficar tudo bem! Viver com HIV não é uma sentença de morte. Mesmo que agora tudo pareça mais confuso e hoje você está sem chão, tudo vai ficar bem. Se você fizer o tratamento, sua vida será saudável como de qualquer pessoa. Nada será diferente, cuide da sua alimentação, faça exercícios físicos. Procure ajuda terapêutica, isso será fundamental para o seu tratamento. Você não precisa passar por isso tudo sozinho. Você não está sozinho.

Filipe Estevam

Filipe Estevam é psicoterapeuta, analista corporal e comportamental. Criador e fundador do projeto Pode Ser Leve, dedica seu trabalho e afeto para cuidar de pessoas que vivem com o vírus do HIV, ajudando-as no processo de aceitação e superação.

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