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Um anúncio da DuLoren com Miguel Falabella, registrado no início dos anos 2000, voltou a circular nas redes e ganhou nova leitura sobre corpo e memória publicitária. Na imagem, o ator aparece nu e cobre a região íntima com uma calcinha da marca. A frase do anúncio completa a provocação: “Se eu fosse mulher, só usava DuLoren”.

A nova circulação da peça publicitária ganhou força a partir de uma postagem no X feita por Gabriel Miranda, criador de conteúdo adulto. No post viral, ele escreveu: “Miguel Falabella no OnlyFans do seu tempo era um acontecimento, né?”. A observação preserva o humor da rede, mas também ajuda a ler a campanha a partir de um vocabulário contemporâneo de plataformas adultas e monetização da imagem, ainda que o anúncio pertença a outra lógica de mídia, circulação e consumo.

Miguel Falabella em anúncio de calcinha DuLoren - Reprodução/X
Miguel Falabella em anúncio de calcinha DuLoren – Reprodução/X

O registro mais objetivo localizado sobre a peça está no banco AdRespect, que cataloga o anúncio “Duloren lingerie, Falabella” como mídia impressa de 2000, veiculada na revista ‘IstoÉ’ em 29 de março daquele ano, com criação atribuída à agência Doctor.

A própria DuLoren voltou a organizar esse passado em publicação oficial no Instagram, publicada em agosto de 2025. No post, a marca afirmou que Roni Argalji e sua equipe de marketing “fizeram história sem medo de cancelamento” e citou campanhas que trataram de lesbianidade, religião, aborto, prazer feminino, etarismo, transição de gênero e objetificação.

Na legenda da publicação, a marca também menciona Rogéria, Roberta Close e Dercy Gonçalves, além de atribuir a Roni a frase: “Somos uma marca onde é a mulher que comanda o jogo da sedução”.

Reprodução/@duloren
Reprodução/@duloren
Reprodução/@duloren
Reprodução/@duloren
Reprodução/@duloren
Reprodução/@duloren

A pesquisadora Adriana Nunan já havia analisado a campanha no livro “Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo”. Ela descreve o anúncio como parte de uma série de campanhas da DuLoren veiculadas entre 1995 e 2000 em revistas como “Desfile” e “IstoÉ”. Nunan situa a imagem de Falabella em um conjunto de campanhas da DuLoren que explorava temas pouco frequentes na publicidade brasileira da época. Entre elas estavam peças com Isabelita dos Patins, duas mulheres se beijando diante de uma certidão de casamento e dois homens se beijando.

Nos anos 1990 e 2000, essa circulação passava por revistas e bancas. Atualmente, a mesma imagem retorna como print, meme, arquivo e objeto de análise. A própria pesquisa de Nunan ajuda a entender esse deslocamento: a autora lembra que publicações como “G Magazine” uniam informação, lazer e nudez masculina, e que a revista se tornou conhecida por convidar personalidades famosas para posar nuas, em estratégia semelhante à de revistas heterossexuais voltadas ao corpo feminino.

Miguel Falabella em anúncio de calcinha DuLoren - Reprodução/X
Miguel Falabella em anúncio de calcinha DuLoren – Reprodução/X

O tema também conversa com uma discussão que o GAY BLOG BR já abordou em 2023, ao noticiar que, na China, homens passaram a vestir lingeries em transmissões de venda após restrições à exibição de mulheres com roupas íntimas em plataformas digitais. Ali, o corpo masculino apareceu como solução comercial diante de censura ao corpo feminino. No caso da DuLoren, a presença de Falabella operava em outro registro: celebridade, possível humor, nudez sugerida e venda de lingerie no ambiente da mídia impressa.

O post viral no ex-Twitter mostra como arquivos publicitários podem ganhar nova circulação nas redes. A campanha vendia calcinha, produto associado ao consumo feminino, mas usava o corpo masculino como recurso de humor e impacto visual. O caso ajuda a observar como uma peça criada para revista impressa pode retornar anos depois com sentidos que escapam ao planejamento original. Também lembra que o consumo de roupa íntima nunca coube inteiramente nas categorias que a publicidade, a família tradicional ou a moral pública costumam organizar.

Conto homossaliente do Brasil de 1914, ‘O Menino do Gouveia’ viraliza na web; leia na íntegra!




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