O Natal vem aí. Eu sinto que é sempre uma data complicada para nossa comunidade LGBT+. Tirando os problemas mais claros daqueles que foram expulsos de casa ou são vilipendiados, existem questões sérias para vários outros. Ao contrário do Ano Novo, que é sempre um sucesso entre os gays com festas, amigos , uns “bons drink” e tudo o mais, o Natal, para muitos, é associado a uma época triste, de solidão, carência e certos constrangimentos nas reuniões de família.

Tem aquele que ainda está na cristaleira (que é de vidro e todo mundo vê) que, ao contrário do “estar no armário”, acha que ninguém sabe, mas a família toda comenta e de repente vem o tio bêbado perguntar “cadê as namoradinhas”. Sempre achei que a resposta deveria ser algo como “Mas e aí, tio, usando muito a pepeca da tia?” Afinal, a vida íntima não tem esse nome, “íntima”, à toa; falamos dela com quem confiamos e não entre uma garfada e outra no peru de Natal.

Ainda vivemos numa sociedade onde muitos familiares vêem um filho gay como uma decepção. E pior: nós crescemos sentindo que os decepcionamos.

Num mundo que sofre por excesso populacional é incrível a pressão para formar família, ter filhos; enfim, para reproduzir a cena do presépio que simbolicamente diz ao gay: “Disso, você tem poucas chances de fazer parte.”

Crescer escondendo o que se sente logicamente distancia esse jovem de sua família. Sem diálogo, o amor é por condição e não por vínculo.

O índice de suicídio em jovens gays é OITO vezes maior que em garotos héteros, e digo “gays” porque a incidência é muito mais alta em rapazes do que em meninas. O machismo está sempre sobre a comunidade LGBT+.

E os trans? O que dizer? A drag pode ir montada pra festa? A filha, que um dia foi filho, será aceita ou vista como algo bizarro? Já parou para pensar como uma data que deveria ser de alegria e comemoração pode virar um filme de terror?

Minha sugestão (e é tudo que posso dar, pois, como diria Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”) sempre será: assuma, enfrente, quebre barreiras, ache graça da caretice e da falta de conhecimento de mundo dos teus familiares. As ofensas não são especificamente para você, eles atacam o novo, o desconhecido, aquilo que muda a concepção de mundo deles; e no fundo, creio, o que muitos têm na verdade é inveja da nossa coragem de sair de um mundo onde tudo está traçado para irmos atrás do nosso desejo, seja ele sexual ou por um estilo de vida distinto.

O que é estranho em um dia, em uma época, em três natais seguidos pode se tornar normal. E um dia pode se tornar afetivo.

E se isso não acontecer, saia desse ambiente que te sufoca, busque talvez uma outra cidade, um outro estado ou mesmo um outro país, com certeza há vários locais onde você poderá ser exatamente quem você é, ter amigos, emprego, dinheiro, relacionamentos e uma vida feliz. Nesses locais, estaremos todos juntos tentando achar na civilização cada vez mais respeito, cidadania e dignidade. Espero que um dia consigamos ainda que esses valores cheguem em todo lugar.

Então, nesse fim de ano, junte seus amigos, faça uma grande festa, chame um Papai Noel stripper (“bom velhinho não tem, serve novinho e mau?”) e sejamos bem gays (“felizes”, que é o que a palavra “gay” significa em inglês).

Este colunista, embora hoje agnóstico, adora festas e deseja para seus leitores um Natal fabuloso com muito peru, alegria e glamour.