CRÍTICA: ‘Super Drags’

Com tantas semelhanças com histórias já contadas, o que há de novo? Muita coisa.

Você quer poder, @?

Super Drags, a nova animação adulta da Netflix, estreou no catálogo e nem sei o que falar, apenas sentir. Tem papo cabeça? Tem. Tem entretenimento? Tem. E a forma como as duas coisas se misturam deu um resultado incrível.

Em primeiro lugar, temos que dar a mão a palmatória: quem dá a cara pra bater na rua são as pintosas. Sim, o gay afeminado que é desprezado nos aplicativos, mas que tem dignidade de sobra e encara todo dia assédio moral no trabalho, na rua e em qualquer lutar e mesmo assim resiste. Este sim é o verdadeiro super-herói dos gays, muito embora a maioria não reconheça ou ache que “não é assim” que vamos conquistar respeito e mais espaço na sociedade. Já experimentou discutir com uma poc? Se você não for uma, com certeza vai perder a discussão. Tão rápidas no raciocínio quanto nas patadas, sempre com humor ferino, sarcasmo, ironia. Essa habilidade é ilustrada de maneira divertidíssima no texto de Super Drags, cujos protagonistas Ralph, Patrick e Donizete de dia são vendedores do varejo que você nem suspeita como são poderosos.

No episódio de estreia já tem recado bacana sendo dado: alô comunidade LGBTQ+, não precisamos brigar entre nós. O lado de lá já está suficientemente unido pra fazer esse trabalho. Em tempos de encaretamento coletivo, essa mensagem não poderia ser mais atual. A forma que nossas super heroínas encontram para libertar as colegas capturadas pela vilã pode parecer bobinha a princípio, mas hey, essa é uma das maiores virtudes de Super Drags: ser engajado sem ser militudo chato.

Aliás, chatice é uma coisa que passa longe: vamos combinar que tudo que é tendência, antes de virar mainstream, é coisa de viado. E quando vira mainstream, sai da subcultura gay para virar patrimônio cultural pop. Tem sido assim na música, na moda, nas gírias e até mesmo em alguns costumes. Super Drags faz um remix alucinante de referências. Para quem já possui a cidadania gay de nascença, é fácil e divertido observar cada uma delas. Tenho um pouco de dúvidas se héteros serão capazes de captar todas estas nuances, mas tenho fé que sim: não tem nada fora de contexto, então mesmo que você não tenha carteirinha de membro, dá pra entender e se divertir com as aventuras de .

Por falar em referências, não há como não associar Super Drags quase que imediatamente às Meninas Superpoderosas, o que não é demérito algum. A vida dupla das heroínas, que são pessoas comuns que se transformam quando necessário, aproxima a trama do que já conhecemos do universo de heróis (insira aqui a referência a seu super herói de vida dupla favorito – Batman, Superman, Hulk, etc). O mentor, que poderia ser um Professor Xavier, é nada mais nada menos que a versão animada de Silvetty Montila, um dos maiores ícones da cena LGBTQ+ no Brasil. Até o chavão “É hora de morfar”, dos Power Rangers, ganha uma versão drag.

Com tantas semelhanças com histórias já contadas, o que há de novo? Muita coisa. Mas acredito que a principal função de termos traços comuns a outras histórias consagradas é aproximar e construir pontes. Mostrar à maioria hétero que não somos tão diferentes assim. Também sofremos, temos vilões que nos ameaçam e precisamos nos defender. Acima de tudo, precisamos de representatividade. Talvez ainda demore para termos um ícone gay (nas telas ou fora delas) nesta geração que tenha a mesma importância e relevância que Pantera Negra alcançou para negros no mundo inteiro, mas Super Drags é mais uma iniciativa que abre este caminho.