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No final de março de 2020, para incentivar fãs a votarem pela eliminação de Felipe Prior no Big Brother Brasil, o ator Hugo Bonemer, 33, tuitou prometendo um nude caso seu desejo fosse concretizado. Prior acabou sendo eliminado do reality show e o público só não conseguiu apreciar o full nude de Bonemer por causa de uma sacola plástica cobrindo sua intimidade: “Pedi para vocês não usarem sacola, nem copo, nem canudo. […] Era só ter recusado uma sacolinha”, brincou – mas em nome da sustentabilidade.

Com 42% do voto popular, a brincadeira de Hugo Bonemer levou o Poc Awards 2020 na categoria “The Bosh do Ano”.

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Hugo Bonemer – Crédito: Oseias Barbosa

Hugo, você venceu o PocAwards na categoria “The Bosh do Ano”, título em 2019 conquistado pela Titi Müller no Rock In Rio. Qual a sua reação ao receber a prêmio, foi uma surpresa?

Surpresa imensa. Não imaginava que fosse ter essa repercussão. Desde o começo, quando fiz a brincadeira, eu não pensava nisso e, para minha surpresa, a internet é mais debochada do que eu imaginava.

Gerou bastante engajamento nas redes, dentro da ideia de marketing para a causa? Foi procurado para fazer mais ações do gênero?

Não consigo mensurar se gerou engajamento para a causa como eu pensava. Na verdade, eu fiz a brincadeira e reverti o resultado dela para a causa ambiental. Também divulguei a segunda temporada de “A vida secreta dos casais” em que eu apareço nu, para quem quiser conferir. Afinal das contas, eu só pretendo aparecer nu em projetos audiovisuais, então, se alguém ainda deseja ver mais, é só mandar e-mail para as emissoras pedindo que me contratem, seria uma boa forma de ajudar um artista que eles gostam e ainda receber um nude. Mas eu não tive um aumento significativo de seguidores ou de contratos comerciais em relação a isso. Foi uma brincadeira passageira e não interferiu nem positivamente e nem negativamente na minha profissão.

O veganismo e a sustentabilidade são suas filosofias de vida – ao menos duas delas. Suas postagens nas redes sociais estão diretamente ligadas a esta causa, seja a partir do consumo de alimentos ou de qualquer outro produto que cause impacto ambiental nocivo. Quando começou e o que despertou a sua paixão e o envolvimento?

O que me despertou foi ter ido até o meio do oceano e ter visto a quantidade de plásticos que estão boiando muito próximos do litoral brasileiro. As nossas autoridades sabem disso e infelizmente isso não é uma prioridade. Nós já temos plásticos biodegradáveis entre outras alternativas e, pelo menos o que podemos fazer dentro de casa, é o que eu compartilho nas redes, trazendo mais soluções do que culpa para as pessoas.

Quando você quer ser didático, por onde você começa a sua argumentação pró-veganismo? Teria alguma indicação de literatura ou vídeos para o público que está iniciando o seu caminho de pensar no planeta a longo prazo?

Eu sempre recomendo os documentários que estão na Netflix, como exemplo o “Cowspiracy” e o “What the health?”. Para quem quiser ver como funciona a indústria e está preparado para cenas mais fortes, eu indico o “Humanos” que está no Youtube. Mas o que eu indico na verdade, é questionar as relações de poder. Até que ponto queremos ter determinados poderes dentro da sociedade? Quando eu digo que não vou comer animais, eu não quero ter poder de criar, matar e comer e isso acaba refletindo em outras áreas da minha vida e em pensamentos que são muito importantes para todos nós hoje em dia.

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Hugo Bonemer – Crédito fotográfico: Oseias Barbosa

Mudando um pouco de assunto, você tem um longo currículo como ator – desde o teatro, o começo em Maringá, até participações na Broadway e na TV Globo. Como você utiliza do seu espaço como uma pessoa pública para lidar com as questões sociais e comportamentais que você julga importante? 

Eu arco com as consequências de me posicionar da forma que me posiciono. Da mesma forma que existem produtores que não desejam se associar a minha imagem profissional e pessoal, também existem diretores, produtores e artistas que me enviaram mensagens quando eu fiz o meu outing público, em 2018, parabenizando e desejando sucesso. Acredito que o mercado está passando por transformações e eu espero, de coração, também poder aproveitar a abertura do mercado para artistas jovens e assumidamente LGBTs que não sejam do humor. Espero que isso não seja um benefício somente das próximas gerações. O mercado ainda parece incerto para mim depois do outing mas eu acredito que, em breve, as coisas vão melhorar.

Você já atuou em “O Mágico de Oz”, “A Bela e a Fera”, “Cinderela”; deu vida a Romeu; representou Jesus Cristo e Ayrton Senna. Voz emprestou sua voz à Freddie Mercury, nos cinemas. Qual desses papéis te deu mais prazer? E o que você ainda gostaria muito de poder representar?

Eu gostaria muito de poder representar origens da minha família sírio-libanesa em algum programa relacionado à imigração. Gostaria de explorar melhorar vícios, principalmente o vício no álcool que é tratado com muito glamour na nossa cultura e que tem consequências devastadoras e, na maioria das vezes, imperceptíveis. Gostaria de poder contar histórias LGBTs por um ponto de vista mais trivial, com questões como conseguir dar atenção aos filhos ou relações amorosas desgastadas. E tenho saudade de entrar em um set sem saber exatamente o que vou fazer ali com os personagens novos e diferentes do que tenho feito, já com bastante frequência.

Aliás, falando em Freddie Mercury, você – músico que é – já abriu show do Queen, no Rock in Rio Lisboa. Maroon 5 e Bruce Springsteen também. Cantou músicas na televisão, como ator e convidado de programas. Tem como setorizar as paixões e medir o que você mais gosta ou faz tudo parte de uma grande atuação artística indivisível?

Todos os personagens que eu conquistei são parecidos dentro do espectro herói romântico e anti-herói. A dublagem musical, o teatro, o cinema, a televisão, o reality musical, como foi no Faustão, espetáculo de poesias, produção de história em quadrinhos, show musical. Isso tem me motivados muito na profissão, fico muito feliz com o rótulo de camaleão dentro de uma profissão que ser flexível é uma das maiores qualidades. Minha maior paixão é entrar no trabalho sem ter a menor ideia de como vou conseguir fazer, mas quando isso não acontece, procuro experimentar a mesma paixão em formatos de mídias muito diferentes. Acho que se aproxima um pouco do sentimento.

E como você enxerga as suas lutas quando vistas com a lente dos poderes públicos? Quais os passos na criação de leis e estabelecimento de comportamentos que precisam ser fomentados ainda no Brasil?

O passo mais urgente é em relação a casais homoafetivos dentro do banco de dados da Receita que, determina arbitrariamente e aleatoriamente quem é o pai ou a mãe da criança, não considerando os dois. O problema é que o banco de dados da Receita serve para vários outros órgãos públicos, ou seja, ainda não temos bem estruturado no Brasil a formação de famílias homo afetivas. Isso, para mim, é o passo mais urgente, mas ainda temos outros para conquistar.

Se a entrevista veio por causa de um quase “nude” é porque tem interesse do público. Se tem interesse do público, não pode faltar a pergunta: como anda o coração? Se solteiro, o que é essencial para estabelecer uma relação, mesmo de amizade, com Hugo Bonemer?

Me chama a atenção as pessoas que são curiosas, principalmente afetuosas e que saibam respeitar a vontade natural do outro de ficar sozinho, isso já me chama muito atenção para qualquer tipo de relação. Eu tenho longos períodos em que preciso ficar só e isso incomoda muito, por outro lado, quando estou junto eu procuro ser o mais carinhoso e afetuoso que eu saiba ser e, claro, para uma relação amorosa, são outros quinhentos e é natural que eu procure pessoas com um estilo de vida parecido com o meu para que haja menos conflitos, afinal, numa relação já tem tantos.

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Catarinense, 25 anos e professor de Literatura e Língua Inglesa. Homem gay, apaixonado por música e que respira futebol e cultura latino-americana.

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