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No início dos anos 90, Kassandra Taylor abriu uma pousada friendly, segundo ela, a primeira do Brasil. Logo depois veio uma boate. Ambos os empreendimentos em uma região litorânea, longe de qualquer point LGBT no Rio de Janeiro. O espaço era de frente para o mar, sem vizinhos e com estrada de terra batida.

Como o acesso era difícil, em 1995, ela comprou um ônibus velho, pintou de rosa choque e fez dele um meio de transporte para levar e buscar o público da boate.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor

Além da veia empresarial, Taylor também é uma artista, toca alguns instrumentos musicais, participou de programas de TV nos anos 1980 (Chacrinha, Bolinha, Show de Calouros), fez teatro com a saudosa Rogéria, clipes musicais, e é considerada a primeira e única transexual ilusionista do Brasil.

Ao longo de décadas de muitas histórias, ela relembrou algumas nessa entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR.

É verdade que você é a primeira e única trans ilusionista do país?

Sou a primeira transex mágica no Brasil e acredito que no mundo. Vou a congressos enormes de mágicos/ ilusionistas, e foi onde Rogéria se interessou por esse lado artístico meu. Como eu era única, ela nunca tinha visto, mesmo sendo viajada como ela era, ela me viu ainda muito jovenzinha, fazendo shows em SP nas boates Nostro Mondo e Medieval. Trabalhei com a Elisa Mascaro, que era a dona da Corintho, trabalhei com Phedra de Córdoba, trabalhei com Biá, várias pessoas de SP e do Brasil que passavam por aqui.

Você era muito amiga da Rogéria, como você a conheceu?

Eu estava me apresentando em um número de ilusionismo, quando Rogéria viu e ficou encantada e me convidou para me apresentar com o seu elenco. Era Elaine Munis, Desyree e Tania Litierry em Adorável Rogéria (1987). E, assim, estreando ao seu lado em teatros foi quando vim morar em Niterói (RJ), onde resido até hoje (em Itaipuaçu), onde tenho minha casa que também é uma pousada.

E como você uniu a mágica com o universo LGBT? Já que na época, já existia a dublagem nas boates, shows etc.

Eu já era profissional (mágica) desde os 15 anos, comecei fazendo shows em igreja católica com o apoio dos meus pais. Meu pai foi o meu primeiro incentivador, claro que na época não era uma menina, mas um menino, ainda estava na fase de transformação. Naquela época era o boom do silicone (industrial), ainda bem que eu não coloquei, porque a maioria das meninas se enchia muito de silicone. Era o pessoal chegando de Paris com litros e litros de silicone no corpo, isso o pessoal da antiga sofre mais, porque é algo complicado. Eu, por ter bastantes traços femininos, não foi tão necessário para mim, a natureza me fez feliz com o meu corpo, alma e pelo apoio dos meus pais também, isso me ajudou muito. A minha transição veio em torno dos 13/14 anos, e eu não deixei de fazer as minhas mágicas, e foi assim que eu cheguei às primeiras boates gays e logo tive o apoio da Condessa de SP, que era dona da boate Nostro Mondo. Ela que me maquiou pela primeira vez, e ela me disse “porque você não faz mágica vestida de menina?”. E foi aí que eu fiquei conhecida em SP como a “Ninfeta Mágica”.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor

Você abriu uma pousada gay em 1993, foi a primeira do país?

Foi a primeira no Brasil voltada para o público LGBT, até então não tinha, isso saiu no Jornal do Brasil e outros jornais da época. Os quartos eram personalizados, havia quadros masculinos nas paredes. Não havia pousadas para esse público, e era uma pousada LGBT com show e tudo, esse era o diferencial, uma pousada à beira da praia com show e boate. Eu fui a pioneira, tudo foi um jogo de marketing porque três anos depois veio o ônibus Priscilla, e em seguida o primeiro casamento gay do século, que foi feito lá. A saudosa Rogéria, minha amiga pessoal, estava na inauguração da pousada. No início enfrentei bastante preconceito dos moradores da região, inclusive para comigo, uma mulher trans.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor e Rogéria

E como surgiu o ônibus rosa que você apelidou de “Priscilla”?

Em 1995, havia estreado o filme “Priscilla – A Rainha do Deserto”, um sucesso nos cinemas, e aquilo foi uma inspiração para as drag queens. Eu estava com um dinheiro na época, fui à Avenida Brasil, lá perto da Dutra, onde tinha uns ferros velhos. Na época havia muitos ônibus, eu comprei esse ônibus e transformei na “Priscilla – A rainha do deserto”. Ele não só servia de marketing, como era também a ferramenta que eu tinha, eu transportava o público dali em frente ao Copacabana Palace Hotel, eu pegava o público com este ônibus e levava para a boate em Itaipuaçu, para o clube Imperiale (discoteca), às sextas, sábados e domingos. O ônibus chegava na região já lotado e a pousada já cheia também, porque eu tinha um grande espaço com palco e tudo, o ônibus funcionou durante um tempo, depois eu me desfiz dele.

O ônibus tinha entretenimento a bordo?

O ônibus era usado, velho, nós pintamos, colocamos bonequinhas dentro, iluminação no interior, tinha um som bom, tinha até shows de drag dentro dele. Ele era pra levar esse público que às vezes não tinha carro ou pelo divertimento que o ônibus tinha também. Eu sou pioneira em várias coisas, este ônibus era tipo uma discoteca ambulante, além de transportar o público, já tinha um espetáculo no ônibus. O trajeto de Copacabana a Itaipuaçu levava mais de 1 hora. O público curtia a discoteca até às 5 horas da manhã, e aí a Priscilla retornava para Copacabana levando as pessoas de volta, deixando elas ao longo do trajeto.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor

Você se recorda de alguma história engraçada ou inusitada que tenha ocorrido no ônibus Priscilla?

Teve uma vez que o ônibus quebrou na porta da pousada na hora em que todos iam retornar para o Rio (zona sul). Eu tive que levar o pessoal de volta para Copacabana, eu tinha um Saveiro e carreguei mais de 10 pessoas no carro e atravessei a ponte Rio-Niterói. Se fosse hoje eu seria multada (risos). Era um período em que se podia levar gente na caçamba, não se usava tanto cinto de segurança e podia fumar dentro das boates. Hoje, como uma boa motorista, eu não faria isso, e eu dirijo desde os meus 18 anos, e eu sempre tive precaução.

Era uma época em que as baladas LGBTs faziam muito sucesso no Rio, mais do que as casas da atualidade?

Era um período em que as baladas funcionavam muito, hoje em dia nada disso funciona, a não ser as baladas grandes. As boates com shows são bem menos hoje. Como a discoteca (e pousada) são próximas do mar, nesse período, Priscilla (o ônibus rosa) funcionou muito bem, depois caiu um pouco devido as minhas viagens ao exterior, a perda de alguns amigos que trabalharam comigo, aí caiu um pouco, mas nunca deixou de ter festas organizadas.

Como era feita a divulgação na época quando não havia internet? 

A nossa única divulgação na época era o guia Spartacus (guia gay publicado no mundo inteiro com dicas para a comunidade gay) ou jornal O Grito. Muita divulgação de boca, muitos panfletos e o nosso público alvo eram as extintas boates gays de Niterói.

Por que você se desfez do ônibus Priscilla, na época em que tudo estava bem?

Eu me desfiz do ônibus no mesmo ano (1995), e foi uma coincidência a Parada Gay ocorrer naquele mesmo ano. Em Niterói, havia um local conhecido como descida da Caixa D’água, ali na época aconteciam muitos acidentes terríveis. Houve uma ocasião que eu estava levando a Priscilla para o mecânico, o bus tinha um motorista, e o ônibus perdeu o freio na descida. Eu estava indo no meu carro na frente, e eu notei que a Priscilla estava demorando muito (era de dia e não havia ninguém no ônibus), fiz um retorno pra saber o que havia acontecido e vi o ônibus encostado em um barranco, o freio faltou e a única saída foi jogar o ônibus no acostamento onde tinha um barranco antes da descida. Antes que pudesse ocorrer uma tragédia, eu fiquei receosa, eu vi ali que poderia acontecer uma tragédia gay, aí eu não dei continuidade. Eu não poderia pôr a vida de ninguém em risco, e aí vendi o ônibus no mesmo local que eu o comprei, vendi daquele mesmo jeito cor de rosa. Aposentei a Priscilla. Eu sou muito visionária, e eu vi que não podia continuar, imagine se isso acontece com o ônibus lotado, de noite transportando as pessoas e esse ônibus me falta um freio, não poderia dar continuidade.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor

Você colocou todo o espaço à venda, por quê?

Eu vivo muito em São Paulo, devido aos meus pais morarem na capital e já serem idosos. A pousada ficou conhecida como Castelinho do Recanto, porque eu quis construir uma torre como de um castelo, não sei se quem for comprar vai dar seguimento ao que eu comecei há 27 anos, mas hoje em dia, eu sou muito conhecida e respeitada em Itaipuaçu (RJ). Eu tenho orgulho da minha história, fiz teatro com a Rogéria, ganhei concurso de beleza, fiz clipe musical, me apresentei em programas de TV e nas melhores casas noturnas do Brasil e Europa.

E como foi participar da primeira Parada LGBT do Brasil na praia de Copacabana com a Priscilla, o ônibus rosa?

A primeira Parada Gay ou Gay Pride no Brasil veio com a ILGA (sigla de International Lesbian and Gay Association) dos Estados Unidos para a manifestação no Rio de Janeiro. Eu e minhas ousadias como sempre, coloquei um salto alto enorme no teto do ônibus. Quando chegamos lá, era dia de jogos de olimpíada gay nas areias de Copacabana e nós chegamos com esse ônibus e fizemos o maior sucesso. Eram mais de 5.000 pessoas em volta do veículo, um inferno (risos). Glamour total, isso foi fotografado e saiu nas manchetes de jornais do Brasil. O ônibus Priscilla fez mais sucesso do que o próprio carro de som. Todo mundo queria estar em volta da Priscilla, andamos a Avenida Atlântica inteira até ele se fixar onde era a extinta boate gay Le Boy, parecia uma Banda de Ipanema, virou uma alegoria a Priscilla.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor

Você é de uma geração pré-AIDS, como foi viver aquele momento tão tenso na primeira metade dos anos 1980? E o preconceito de modo geral?

Eu sobrevivi a epidemia da AIDS no Brasil, pois na época estava casada, mas perdi vários amigos. O preconceito sempre existiu, não vou dizer que havia mais preconceito antes do que agora, acho que era mais um tabu. Da parte dos meninos gays, havia esse medo de aparecer, do medo que as pessoas fossem ver pela televisão, pelo menos a parada Gay que eu me lembre era das pessoas dizendo que não iam porque ia ter repórteres lá, “a minha família pode me ver” etc. Claro eu acho que melhorou bastante de um lado, mas o nosso mundo LGBT… eu acho que era mais unido e como se expandiu mais, bem… estamos falando de 1995, havia poucos filmes e novelas com personagens gays, trans e beijo gay muito menos. Hoje, a gente vê tanta discriminação, matança, se bem que na época a gente não tinha tanto acesso a informação ou câmeras registrando agressões, enfim como vemos hoje. Eu acho que melhorou numa parte e piorou em outra.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor

E como foi a sua transição de gênero?

Desde muito jovem já era assumida e tinha essa tendência transgênero, minha família sempre me aceitou bem. Quando eu me descobri como gente, eu já comecei a minha transformação, a minha adequação. Aos 13/14 anos comecei a trabalhar, comecei a ter a minha independência, comecei a tomar os hormônios porque a gente vai conhecendo uma bichinha aqui, uma outra ali. Em SP, na Avenida Ipiranga com a São João era o foco né, a gente ia aos cinemas, então naquele período final dos anos 1970, início dos anos 1980 é história, é a mesma coisa da cinelândia no Rio. Aos 16 anos eu já era trans, Roberta Close estava surgindo, era a minha amiga na época, até hoje a gente se fala de vez em quando, eu a conheci antes mesmo dela ficar famosa, havia muitos concursos de beleza, as boates eram mais guetos, mais fechadinhas, mas era muito legal, a maioria das boates tinham shows, e às vezes teatro também.

Fiz a transição de gênero em Londres, era uma ideia que eu tinha desde muito jovem. Não tenho arrependimento nenhum. Eu fiz a cirurgia em um dos melhores lugares que faz este tipo de procedimento, no mesmo lugar em que Roberta Close operou, só que ela fez uns 15 anos antes, eu me operei em 2006, eu estava com uns 40 anos e era agora ou nunca. Isso era uma ideia que eu tinha desde muito jovem, não tive problema nenhum.

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Acervo pessoal Kassandra Taylor (esquerda)

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