Envelhecimento dos LGBTs | Eliseu Neto

No envelhecimento, o “valor de mercado” cai do gay cai vertiginosamente. Se não estivermos bem resolvidos, a dor será iminente, diz o psicanalista

Tenho 40 anos de idade. Minhas alunas me acham um jovem, meus amigos gays me chamam de cacura, tia, velha e coisas assim maravilhosas de ouvir. Claro que ainda é piada, mas como diria Freud, toda piada aponta uma verdade: o desespero da comunidade LGBT em envelhecer, a invisibilidade dos que envelheceram. Sempre que escuto sobre o “tio da balada”, é com um tom que vai do escárnio ao desprezo. Parece que nunca chegará nossa vez. Ela chega.

Foi com muito sofrimento que li uma reportagem que mostrava que alguns gays, tamanho o preconceito das pessoas mais velhas, voltam pro armário. Quer dizer, fingem serem héteros ou assexuais para não sofrerem aviltamento ou segregação numa idade onde já estamos fragilizados.

Na reportagem, vemos um senhor de 79 anos que, por não resistir a pressão, se enforca. Não havia mais dialética, foi ao ato, pura angústia.

Os gays em geral são bastante narcísicos. Se na escolha de parceiro amoroso, o psicanalista francês Lacan aponta que o outro é sempre algo de mim, imagina quando escolhemos alguém do mesmo sexo. Passamos a reparar cada músculo, tom de voz, trejeito. Afinal, estou escolhendo como pretendo ser visto pela figura do parceiro que me desejou.

Coloque isso num grupo que cresce sem identidade, imitando o universo heteronormativo. Veremos que o padrão gay é inatingível. Temos que ser jovens, sarados, ter dentes brancos de iluminar salão, cabelo impecável, roupas caras. Tudo isso sem dar pinta (como se isso já não fosse uma mancha fosforescente). Qualquer coisa diferente disso surge um olhar segregador tipo “que faz aqui entre os jovens?”.

Com a maturidade, vem cultura, conhecimento, assunto, inteligência; diversos atributos que, no caso dos heterossexuais, parecem ser mais valorizados (não estou generalizando, muitos gays te outros valores e muitos héteros são boçais). Ao menos minhas amigas valorizam mais homens amorosos e que as protejam que os deuses gregos narcisistas. Já com os gays, tenho um colega que diz: “pode ser um porteiro (nada contra tal profissão, estou me referindo ao preconceito coletivo), se for lindo a gay ‘cai matando’”.

É notório a influência da beleza sobre a escolha do parceiro. Eu não me coloco fora disso. Desde que mergulhei no mundo da militância, perdi a paciência com o mundo fútil, mas meu desejo ainda aponta para rapazes lindos. Depois de dez minutos de conversa, sinto desejos suicidas. O que fazer? Conversar com amigos e namorar mudos?

Estou brincando, conheço jovens extremamente intelectualizados, mas convenhamos, não é a maioria.

Ao envelhecer a coisa piora. Por mais cruel que pareça, nosso “valor de mercado” cai vertiginosamente. Se não estivermos bem resolvidos, a dor será iminente.

Não acredito que conseguiremos mudar a mente da comunidade, impingindo uma valorização da sabedoria dos mais velhos, que seu corpos são lindos, apenas o preconceito e a neurose nos impedem de ver. Perdemos pessoas sábias, inteligentes, maduras e profissionalmente resolvidas. Como mudar isso? Venho tentando em análise, quando souber aviso.

No mais, que tal pensarmos em inserir os mais velhos, chamar pra conversar, sair, ter amor pela geração que abriu caminho para todos os direitos que temos?

Não consigo imaginar a soma do preconceito da velhice com a da homotransexualidade. Mas fácil não é.

Em alguns países, asilos somente para LGBTs estão sendo construídos. Isso me pareceu ao menos divertido. Vamos envelhecer, mas poderemos dar pinta, rir, contar histórias, viver de lembranças e quem sabe virar as velhinhas gays da van, indo em todas as peças com todo glamour, ao som das idosas Gaga e Britney, embora Madonna ainda deva estar viva aos 100 anos.

Eu proponho que ao ler isso, lembre do seu amigo mais velho. Pode até soltar umas piadinhas, afinal ninguém é de ferro, mas mostre seu afeto e interesse. Afinal, no futuro, você gostaria do mesmo.

Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos aos, estes ainda reservam prazeres – Sêneca