ENGLISH VERSION HERE

Ouvi dizer que, no Brasil, o ano só começa mesmo depois do carnaval. Então vamos lá que ainda dá tempo de criar suas resoluções de ano novo!

Apesar dos números e da matemática serem universais, práticos e a linguagem lógica do universo, a “numerologia” em si geralmente não se baseia em nenhuma lógica real. Na verdade, os padrões encontrados na numerologia podem, às vezes, parecer não ter sentido algum. Mas, pessoalmente, padrões sempre me confortam. Números também. Na agonia da incerteza, padrões e números são algo em que eu sempre posso confiar. Diferente da maioria das coisas na vida, eles são previsíveis. Então, por isso, estou muito empolgado em receber o ano de 2020: o ano em que os primeiros dois dígitos são iguais aos dois últimos. Isso só acontece uma vez a cada 101 anos. Ou seja, para a maioria de nós, é a única chance de presenciar isso durante as nossas vidas.

Júlio César declarou que o dia primeiro de janeiro seria o primeiro dia do ano em homenagem a Janus, o deus dos novos começos. Porém, a tradição de criar resoluções de Ano Novo tem origem até antes dos romanos, com os babilônicos, há mais de 4000 anos. A tradição continua existindo atualmente. Então, preparem-se, as resoluções de Ano Novo estão chegando! Consegue adivinhar quais são as mais comuns? Isso mesmo! “Se exercitar mais”, “economizar dinheiro”, “comer de forma mais saudável” e “perder peso”. Todas se concentram no interno, não no externo, e, irônica e infelizmente, 80% dessas resoluções fracassam após o primeiro mês.

Quando meu amigo me convidou para me juntar a ele na semana Whistler Pride and Gay Ski, não consegui imaginar uma maneira melhor de começar esse novo ano. Sempre senti que a neve é um pouco mágica. Ela renova e muda o mundo. Ela cria uma camada branca e fofa para cobrir toda a feiura e a sujeira à nossa vista. Ela nos faz tirar um tempo de nossa vida caótica, tomar um chocolate quente, se aconchegar à frente de uma lareira e construir um boneco de neve. Muitas vezes, a neve traz lembranças felizes da infância, o clima das festas de fim de ano e uma sensação de serenidade ao nosso corpo e alma. Não há nada como deixar pegadas na neve recém-caída e ouvi-la estalar debaixo de nossos pés. Assim como esse novo ano, a neve é um novo começo, um recomeço, uma tela em branco cheia de possibilidades. Além disso, amo viajar, pois isso me dá a oportunidade de fazer novos amigos, criar novas conexões e expandir meus horizontes.

Sempre fui um grande fã do Canadá e dos canadenses. Seu carinho, sua gentileza e sua amizade nunca decepcionam. Em apenas alguns dias no Whistler, eu e meu amigo criamos muitas memórias juntos. Um grupo canadense que conhecemos um dia à noite nos convidou para ir para uma festa com eles. Um médico da emergência do grupo nos contou uma história doida sobre um cara de 20 anos que acabou no pronto-socorro depois de prender o pênis na anilha de peso que ele estava usando para se masturbar! Um cara na fila atrás de nós no Dubh Linn Gate pediu doses de bebida para todos nós para comemorar seu aniversário. Ele insistiu em pagar pelas bebidas e se recusou a aceitar qualquer outra alternativa. Os moradores locais nos receberam e nos aceitaram muito bem.

Porém, dois dias depois, as coisas começaram a mudar. Odeio dizer isso, mas a mudança foi o resultado de um fluxo de gays de fora do Canadá chegando na cidade. Uma noite, quando voltamos ao Dubh Linn Gate, quatro deles estavam ocupando uma mesa para seis pessoas. Os dois lugares “livres” na mesa deles ficaram vazios por mais de uma hora, mas quando finalmente perguntamos se podíamos nos juntar a eles, eles disseram que os lugares estavam “ocupados”. Seja lá por quê, eles não queriam que sua bolha isolante e protetora fosse destruída por estranhos. Eles mentiram sobre os lugares vazios; ninguém sentou com eles. Depois, havia outro homem gay sentado no bar, colado ao seu celular. Ele estava no Grindr, tentando encontrar alguém para um encontro casual como se estivesse pedindo sushi para jantar. Como se essa cidade mágica, com o maior resort de esqui da América do Norte, não tivesse mais nada a oferecer além de sexo casual. Além de tudo isso, ele sequer deu alguns passos para o lado para facilitar para as outras pessoas que estavam no bar, tentando pedir suas bebidas. Ele não estava interessado em fazer amigos ou em curtir a banda que tocava ao vivo. Se você me dissesse que algum desses caras tinha como resoluções de Ano Novo “se exercitar mais”, “economizar dinheiro”, “comer de forma mais saudável” ou “perder peso”, eu não ficaria nem um pouco surpreso!

Infelizmente, isso não é algo exclusivo da comunidade gay. É um problema universal. Como e quando perdemos nossa capacidade de nos importarmos com os outros, de ajudarmos uns aos outros? As redes sociais nos condicionaram tanto a alimentar formas egoístas de gratificação de nossos seguidores, com todas as curtidas e comentários em nossas publicações, que quase perdemos nossa capacidade de realmente nos importar uns com os outros. Momentos como esses no Dubh Linn Gate me lembram do que me faz levantar todos os dias e de por que eu amo o que faço. Precisamos de mais gentileza, mais amizades e mais amor em nossos corações. Precisamos de mais compaixão, mais união e mais empatia. Eu acredito, sinceramente, do fundo do meu coração, que podemos ser melhores. Podemos melhorar.

Nós precisamos de resoluções melhores. “Se exercitar mais”, “economizar dinheiro”, “comer de forma mais saudável” e “perder peso” não faz mal a ninguém. O amor próprio é muito importante, e essas resoluções podem ajudar com isso. Mas e resoluções voltadas para o lado externo, focadas em como podemos amar melhor os outros e ajudar o mundo ao nosso redor?

Não só temos mais casos de depressão do que nunca atualmente, mas a doença também tem aparecido mais cedo, com cada geração sofrendo com isso mais jovem. Como sociedade, nunca estivemos cercado de tanta riqueza. Apesar de não parecer ao assistir aos noticiários, o mundo está melhorando de várias formas. Na verdade, nunca estivemos tão seguros quanto agora. Porém, pesquisas também revelam que quanto mais rico e seguro for o lugar em que você vive, maior a probabilidade de você cometer suicídio. Quanto mais temos, mais sentimos que não é o suficiente. Passamos horas e horas navegando pelos nossos feeds no celular, pensando que nunca seremos como os outros, nunca seremos o suficiente, nunca nos sentiremos importantes o bastante. Estamos em uma esteira infinita de desespero, sempre correndo, mas sem chegar a lugar algum. A vida adulta é exaustiva e TODOS estamos tentando encontrar o nosso lugar nesse mundo maluco. Então, vamos criar resoluções de Ano Novo, não só para um recomeço para nós, pessoalmente, mas para um novo e melhor “nós” como sociedade.

Mais do que nunca, precisamos comemorar o fato de estarmos aqui, de estarmos vivos em 2020. Só isso já é uma grande conquista. Devemos nos orgulhar de quem somos e de quem amamos. Devemos ser gentis uns com os outros. O mundo precisa de toda a gentileza possível agora. Devemos acordar todo dia com a esperança de que podemos ser mais gentis com os outros, de que podemos criar um mundo melhor. Devemos sair de nossos casulos egoístas e começar a nos relacionar com as pessoas à nossa volta. Devemos tweetar menos, mandar menos mensagens, publicar menos e enviar menos e-mails e ter mais conversas e experiências cara a cara com outras pessoas. Devemos ter a resolução de estar mais presentes, física e emocionalmente. Amizades são possíveis. O amor é possível. E tudo isso pode acontecer nos momentos mais inesperados.

Minha resolução constante, este ano e em todos os anos, é procurar chances de me conectar mais com os outros e ajudar as pessoas a se conectarem com o passar dos dias. Durante 2020, desejo a todos vocês paz, felicidade, amor e gentileza. Mas, acima de tudo, desejo conexões mais profundas, melhores e mais satisfatórias com as pessoas à sua volta. Essa é uma resolução de Ano Novo que eu quero seguir.

Continuem lindos.

Google Notícias
Empreendedor pioneiro em mídias sociais de São Francisco e co-fundador e CEO da hello.com, dedica-se a reunir pessoas, online e offline. Construiu uma das primeiras redes sociais, o orkut.com, que inspirou mais de 300 milhões de usuários ao redor do mundo a se unirem e fazerem conexões autênticas. Orkut é gay e militante da diversidade e da igualdade. Comentarista frequente sobre impactos positivos e negativos das redes sociais, também é um ávido programador, barman e massagista profissional. Adora dançar e é conhecido por fazer uma das melhores festas durante o Pride em São Francisco. Acompanhe o Orkut em instagram.com/orkutb e participe da nova rede social: hello.com