Eu costumo dizer que tenho um ótimo gaydar e consigo perceber que um homem é gay mesmo quando ele leva uma vida bem hétero e ainda não se deu conta disso. Eu mesmo, aliás, estive nesse lugar durante muito tempo. Afinal, viver em sociedade influencia bastante a maneira como uma pessoa se enxerga e se define e essa é uma das razões pelas quais acho que levei tantos anos para perceber que era gay.

Sair do armário, para mim, foi um processo de descoberta que se desenrolou aos poucos. Apesar de eu já sentir desejo pelos meninos quando era mais novo, só descobri que era gay na vida adulta, lá pelos 25 anos. Antes disso, muitos sinais foram piscando aqui e ali, mas levou algum tempo para que a ficha caísse de verdade.

Para sair do armário, é preciso achar a porta | Orkut Buyukkokten
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Eu cresci sem ter referências de pessoas gays ao meu redor ou na mídia, então nem passava pela minha cabeça que fosse possível ter uma experiência homossexual. Quando eu estava no colégio, lembro de sentir vontade de ficar abraçadinho com meus amigos, e até de beijar um ou outro, mas eu sentia que isso ia acabar prejudicando a amizade.

Naquela época, eu não tinha noção de que estava rolando um “crush”. Meus sentimentos eram confusos: não sabia se estava apaixonado, muito menos que era possível explorar esse lado da minha sexualidade. Além disso, meus amigos eram todos hétero, tinham namoradas, ser gay não era uma opção para mim. Hoje eu acho que, se tivesse crescido em um ambiente diferente, talvez tivesse saído do armário já naqueles anos de colégio.

Eu continuei seguindo essa trilha quando entrei na faculdade e, como meus amigos, arranjei uma namorada. A paquera foi rápida: a gente se conheceu em um evento de dança em Stanford, onde estava rolando swing, tango, foxtrot. Dançamos juntos e ela disse que ia para uma festa depois. Eu também fui, encontrei ela lá e conversamos bastante naquela noite. Já dava para ver que a gente tinha afinidade, e um pouco depois começamos a namorar.

A gente se dava bem e tinha bastante coisa em comum além da paixão pela dança, então nossa relação era super bacana. Só tinha uma coisa de diferente: como ela queria transar só depois do casamento, não rolava sexo entre nós. Eu não me incomodava com isso, não estava com pressa. Talvez esse já fosse um sinal de que eu era gay, algo que eu não enxerguei naquele momento.

Depois de um ano de namoro, aconteceu uma coisa interessante. Um amigo veio me visitar, conheceu minha namorada e, quando ficamos sozinhos, perguntou o que é que eu estava fazendo, porque aquela não era a pessoa certa para mim. Pensando sobre o que ele disse, eu percebi que ele tinha razão. Ela era uma pessoa que queria ter uma vida de sonho: se formar, casar, ter filhos e dois cachorros. E eu tinha interesses e paixões reais, queria viver o máximo de tudo, experimentar coisas novas, conhecer gente, viajar o mundo… Eu sou geek de coração, mas gosto mais de estar cercado de pessoas, experimentando algo novo, do que ficar no sofá vendo Netflix.

Naquele instante ficou claro que eu não estava pronto para dar um passo adiante no relacionamento, mas eu não tinha certeza do porquê. O curioso é que, quando eu falei que queria terminar, ela parou um instante, pensou e me falou que a gente podia transar antes do casamento, se esse fosse o problema. Mas, para mim, isso não ia fazer diferença. A gente tinha uma boa relação, e a parte sexual não era a coisa mais importante. E deveria ser, pelo menos um pouco, certo?

Depois desse término, ainda levaria mais um ano para eu ficar com um cara pela primeira vez. Enquanto isso, algumas coisas começaram a mexer comigo. Meus amigos às vezes me provocavam dizendo que eu era gay. Eu comecei a reparar nos homens que via na rua. Todos os elementos estavam lá, mas eu ainda não estava me dando conta da minha sexualidade.

Na universidade, eu estava cercado de pessoas de mente aberta. Uma coisa que eu amava fazer era me reunir com meus amigos para beber e ver o seriado “Queer as Folk” – todo mundo no grupo era hétero, menos um cara. Era a primeira vez que eu (e muita gente) via a vida de gays na TV. Gostava muito da série, só não sabia por quê. Acho que era porque eu, de certa forma, conseguia me conectar com aquele mundo, com aquelas histórias…

A partir daí, foi crescendo a minha curiosidade sobre o mundo gay. Comecei a ler mais sobre o assunto e passei a sair para dançar no Castro, o bairro gay de São Francisco. Não ia com a intenção de paquerar, mas me sentia muito confortável no meio dessa comunidade nova para mim.

Para sair de vez do armário, só faltava mesmo a experiência física. Eu nunca tinha ficado com um homem, e isso aconteceu de uma maneira meio surpreendente –e nem foi em São Francisco, mas em uma viagem à Europa. Mas essa é a segunda parte dessa história, que eu vou contar pra vocês no meu próximo artigo.

Enquanto isso, continuem lindos!

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Empreendedor pioneiro em mídias sociais de São Francisco e co-fundador e CEO da hello.com, dedica-se a reunir pessoas, online e offline. Construiu uma das primeiras redes sociais, o orkut.com, que inspirou mais de 300 milhões de usuários ao redor do mundo a se unirem e fazerem conexões autênticas. Orkut é gay e militante da diversidade e da igualdade. Comentarista frequente sobre impactos positivos e negativos das redes sociais, também é um ávido programador, barman e massagista profissional. Adora dançar e é conhecido por fazer uma das melhores festas durante o Pride em São Francisco. Acompanhe o Orkut em instagram.com/orkutb e participe da nova rede social: hello.com

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