O que significa quando a criança gosta de brinquedos do sexo oposto? | por Joaquim Leães de Castro

Por Joaquim Leães de Castro

Uma das perguntas mais frequentes que surgem na mídia, internet e em consultórios é – “Como saber se meu filho pequeno é ou já é / caminha para ser homossexual?” Ou “há questões em relação à sua identidade de gênero que podem levá-lo a ser um Transgênero?” “Há indicação clara no comportamento de uma criança onde um desses dois fenômenos poderão ocorrer?” A reportagem do Fantástico sobre crianças transgêneros gerou muito interesse por parte de pais que querem descobrir se o filho é “Gay” ou se eles poderiam vir a ser Transgênero. Pais que leem “sinais” que os assustam e preocupam muito.

Antes de falarmos no assunto, é importante saber que uma pessoa transgênero não é necessariamente homossexual. Orientação Sexual é uma coisa, Identidade de gênero é outra. E elas não estão relacionadas. Todas as pessoas que se sentem pertencentes e em consonância ao sexo Biológico de nascimento são consideradas CIS gênero. Indivíduos Trans são aqueles que sentem / percebem que sua identidade de gênero (como se sentem) está em desacordo com seu sexo Biológico. Muitas Mulheres transexuais, por exemplo, se sentem subjetivamente tão mulheres quanto uma mulher cis gênero: comportam-se, vivem, agem e fazem escolhas semelhantes a muitas mulheres que conhecemos. Querem ser consideradas mulheres e seus parceiros / parceiras também a veem dessa maneira. É importante entender que assim como há CIS GÊNEROS heterossexuais e CIS GÊNERO homossexuais há também TRANSGÊNEROS que podem ser Heterossexuais ou TRANS GÊNEROS Homossexuais. Nesse sentido, usando o exemplo acima, se essa mulher transgênero tiver atração por homens, ela será considerada uma mulher Heterossexual. E não um homem homossexual “vestido de mulher” como pensam os ignorantes. Afinal, trata-se de um indivíduo que se sente mulher, que funciona como mulher, que se comporta como mulher e que possivelmente se expressa como mulher. (Aqui vale uma pesquisa sobre EXPRESSÃO DE GÊNERO para se aprofundar a discussão). Assim, constitui-se uma mulher que tem atração por homens, tal qual, uma mulher CIS gênero. Deu pra entender?

SE MEU FILHO BRINCA DE BONECA, ELE É GAY? Não existe no universo da criança uma diferenciação das coisas masculinas e femininas sob um olhar da sexualidade. Existem príncipes e princesas, claro, e seus respectivos comportamentos mas eles habitam um lugar do imaginário infantil que não opera de maneira tão direta influenciando na orientação sexual dos indivíduos. Na infância, essas diferenças de gênero recaem sobre elementos respectivamente “grosseiros” e “doces”: samurais e bonecas, um campo de batalha e uma casa de boneca, coisas que explodem e coisas que “embelezam” – e por aí vai. Essas associações e elementos são criados culturalmente a fim de produzir esse binômio. Muitas crianças de sexo (leia se genitália) masculino irão escolher “coisas grosseiras” – em tese, “masculinas” – e vice versa. Mas muitas não irão fazer essas escolhas. A fantasia e a vontade de participar de brincadeiras são extremamente variadas. E nenhum comportamento deverá ou deveria ser impedido. Não há ali uma escolha consciente da apropriação de um gênero. Muitas meninas irão escolher explodir coisas e isso não é alerta para nada. Tudo faz parte da imaginação e da vontade de explorar. É, por assim dizer, impossível identificar numa criança sua orientação sexual. Seja ela hétero ou homo. O fato de um menino escolher brincar de Cowboy não atesta uma possível masculinidade nem uma possível heterossexualidade. Afinal, se fosse assim, “Brokeback Mountain” seria um filme completamente diferente daquele que vimos 10 anos atrás. Os personagens eram pra lá de viris e másculos, sim? O mesmo vale para um olhar sobre a homossexualidade: o fato das crianças escolherem objetos que serviriam ao sexo oposto NÃO atestam uma orientação sexual homossexual. Num claro projeto político de subjugação do homem à mulher, ideais machistas foram incutidos e estabelecidos no inconsciente coletivo de toda uma sociedade. Logo, enquanto o homem é concebido como um ser duro na queda, firme, forte e ousado, a mulher é vista como coadjuvante desse homem, frágil, fraca, pouco inteligente, superficial, fútil, bela, recatada e do lar. Um menino que escolhe brincar com coisas de menina, portanto, não atende às demandas dessa sociedade machista e deverá sofrer sanções e uma atuação dura dos pais a fim de ser transformado adequadamente nesse homem “forte” com sentido claro. Diante dessa lógica polarizada todo menino que brinca e escolhe se divertir com coisas do âmbito feminino terão por conseguinte uma escolha de afeto idêntica à das meninas e, assim, escolherá também o mesmo OBJETO DE AMOR que as meninas! Esse menino, portanto, não servirá / não terá utilidade nessa sociedade. Um raciocínio bastante débil mas que opera nas mais esclarecidas comunidades desse país. É assim que pensam muitas pessoas; e elas estão equivocadíssimas. Crianças vão sempre escolher TODAS as brincadeiras. SE permitido, escolherão TODOS os objetos, independente do gênero aos quais foram atribuídos pelos adultos e isso não define orientação sexual e nem a sua real identidade gênero quando se tornarem adultas. Os estudo mais avançados vem atestar o contrário: Quando uma criança é preterida de brincar de algo SEM argumento legítimo instala-se talvez aí justamente no impedimento do exercício da fantasia algum tipo de questão não muito bem resolvida. Vale reforçar também que impedir tal brincadeira ou tal brinquedo não “constrói” a orientação sexual do filho. Há quem diga que isso é possível, mas a história nos mostra e comprova que não. Então, não há causa e efeito nas escolhas dos sujeitos que concluam nas suas orientações sexuais.

==== No caso da criança demonstrar um comportamento que se parece com o do gênero oposto mas um que aparece de vez em quando, a ideia é não se preocupar. Se trata da imaginação tomando forma onde muito provavelmente a criança está apenas se divertindo. Entram aqui país que se permitem brincar e fantasiar também.

==== No caso de ser um comportamento repetitivo, vale investigação junto a um psicólogo especializado na área que busca compreender como estão se dando as escolhas da criança a fim de entender se elas estão operando também no âmbito da fantasia, diversão e prazer. Algumas vezes é visto que não. Os pais, portanto, merecem também ter acompanhamento psicológico a fim de se investigar o porquê da criança se portar de tal maneira. A priori, nenhum comportamento de pronto é equivocado ou errado. Errada é a forma rígida e obtusa que uma criança é obrigada a se comportar a fim de atender às demandas da sociedade e dos pais no que concerne os papéis e as construções a cerca do tema gênero. Mas vale procurar atendimento de Psicologia Infantil com enfoque em Questões de Identidade de gênero a fim de se investigar se essa criança apresenta comportamento funcional ou disfuncional em outras áreas. Na dúvida, procure um profissional da área antes de tomar qualquer atitude. Muitas vezes, na tentativa de se evitar questões futuras, o momento presente acaba se tornando mais destrutivo do que se imagina.


Joaquim Leães de Castro
Joaquim Leães de Castro

Joaquim Leães de Castro é Psicólogo Clínico com Especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental e Pós-Graduado em Sexualidade Humana.  Experiência com atendimento clínico a adultos e casais.  Atualmente Coordena no Hospital Rocha Maia serviço de Psicoterapia e Psicoeducação Sexual destinado aos usuários do SUS do município do Rio de Janeiro.