‘Sempre escolhi deixar claro sobre minha sorologia’, conta @PositivoBH

Indetectável conta que as pessoas costumam reagir bem ao revelar sua sorologia: "Você é indetectável? Então não tem problema nenhum”

Por @PositivoBH

Fazer sexo com um soropositivo que esteja em tratamento e carga viral indetectável há pelo menos 6 meses é mais seguro do que transar com alguém que afirma que não possui HIV. Estranho isso? Mas é verdade. Nos últimos anos, várias pesquisas vêm provando e evidenciando este fato sobre a sorologia. Métodos de prevenção como camisinha, PrEP e PEP são eficazes, mas ainda existem riscos de infecção que podem chegar a 5%.

No caso do #UequalsU (I=I, ou Indetectável é igual a Intransmissível), os valores de eficácia são de 100%. Este dado científico já está sendo validado desde 2011, sendo que duas pesquisas recentes, com mais de 3.000 casais sorodiferentes que tiveram mais de 74.000 relações sexuais, anais ou vaginais, sem nenhuma proteção, mostraram que não houve nenhum caso de soroconversão. Nada! Niente! Zero!

É um passo muito importante para diminuir o estigma e o medo que as pessoas ainda têm em relação às pessoas que vivem com o vírus. Diminuir o medo e diminuir a quantidade de novas infecções. Esta ideia serve também para aliviar o peso na cabeça daqueles que acham que a vida sexual ou afetiva acabou após o diagnóstico positivo. O medo da solidão de uma pessoa com o HIV é grande. Esteve comigo por muito tempo.

Pessoas que vivem com o vírus e possuem a carga viral controlada com a terapia anti-retroviral podem e devem ter uma vida sexual ativa e normal. Contar ou não para o parceiro sobre esta sorologia é uma escolha individual. Não há riscos de infecção, mas há muitos riscos de rejeição, preconceito, intolerância. Conheço histórias de pessoas que não contaram logo de início porque achavam que seria somente uma relação sexual casual, mas quando decidiram contar, mesmo indetectáveis, receberam do parceiro xingamentos, agressões físicas e abandono.

Na minha história de 10 anos vivendo com o vírus, somente 7 anos foram com carga indetectável. Naquela época, não se iniciava o tratamento enquanto o corpo não desse sinais de enfraquecimento, e graças a Deusa, meu corpo nunca pediu arrego. Em 2012, eu já lia coisas sobre como a medicação poderia ajudar a proteger meus parceiros, então pedi ao meu infectologista para começar com os remédios, mesmo contra a indicação dele. Seria um peso a menos na minha cabeça.

Nesses 7 anos, sempre escolhi deixar claro sobre minha sorologia, mesmo pra relações casuais fortuitas (sempre que era possível ter uma conversa antes, se vocês me entendem). Mas se o boy era aquilo que chamamos de “boyfriend material”, era mais um motivo para contar logo de cara. Aprendi a não ligar quando recebia um “não saberia lidar com isso”, “sai fora”, “de jeito nenhum”, “não fico com aidéticos”. Tudo bem, eu entendo, há muita pouca informação. Isso não é e nem deve ser encarado como uma coisa simples. E se o cara vinha com uma dessas frases eu achava bom. Já me afastava de mais um babaca logo de cara.

Uma das únicas vezes que me lembro de não ter contado antecipadamente aconteceu 2 anos atrás. Eu já tinha “saído do armário” pela segunda vez. No meu perfil do Grindr estava claro: Indetectável. Conheci esse vizinho e ele perguntou se toparia fazer sexo sem camisinha. Nessas horas o tesão fala mais alto e transamos sem proteção. E isso se repetiu por alguns meses, até que um dia, ao invés do “oi sumido” veio uma outra mensagem. “Meu amigo me falou que te conhece e que você é HIV positivo. É verdade?!?!”. Susto. Achei que ele sabia. Mas ele não sabia de nada. Não conhecia nada sobre I=I. E até eu conseguir acalmá-lo e explicar a situação, foram uns bons momentos de tensão. Ele fez o exame. Negativo. Ele se acalmou e continuamos nessa relação esporádica por mais alguns meses até ele se mudar para longe.

Mas foi a última vez que passei por isso. Prefiro contar sobre a minha sorologia, mas não é o que aconselho a todos. É apenas a minha realidade. E na minha realidade eu recebo muito mais “Você é indetectável? Então não tem problema nenhum” que mensagens como aquelas que falei anteriormente. O estigma e a falta de informação ainda são grandes, mas isso está mudando pouco a pouco. Graças a Deusa!

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