Elza Soares fala sobre minorias em espaços de poder no Fórum de Diversidade Amcham

"A Luta Continua: Diálogo, Existência e Resistência" foi tema da conferência em São Paulo

No último dia 17 de setembro, aconteceu em São Paulo o painel Resistência do Fórum de Diversidade da Amcham. Este ano, o tema da conferência foi “A Luta Continua: Diálogo, Existência e Resistência”.

O evento abordou diversos problemas históricos no país, incluindo negros, LGBTs, mulheres e deficientes. O consenso entre os palestrantes é de que a diversidade enriquece as empresas e que a informação é a melhor “arma” para a inclusão.

“DEVEMOS TEMER APENAS O PRÓPRIO MEDO”ELZA SOARES

Foto: Amcham Brasil

A conferência teve a ilustre presença da cantora Elza Soares que, aos 82 anos, está lançando seu 34º disco, “Planeta Terra“, que, segundo ela, foi feito para o “povo acordar”

“[O disco] representa muito o que está se passando com a gente hoje em dia” – disse Elza  Soares. “É um trabalho muito forte (…) quero mexer com o país através das composições”.

Quando questionada sobre a importância do ativismo e o crescente discurso de ódio que há nas redes sociais, Elza diz que o povo “anda muito calado” e faz uma metáfora:

“Creio que o Brasil está gripado e o remédio é o povo. Precisamos agir rápido antes que vire uma pneumonia (…) Sou da época em que o povo ia pra rua, gritava e brigava. Hoje não vejo mais nada disso (…) O dia em que você fala: ‘para’, ‘não permito’ e ‘chega!’, ‘vai chegar’ mesmo”

Um dos momentos mais impressionantes da fala de Elza Soares é quando ela se refere a morte da vereadora do PSOL Marielle Franco, dizendo que, logo em seguida, ela própria foi ameaçada, mas não se intimidou.

“A gente não tem que ter medo. A gente tem que ter medo só de nós mesmos. Temos que temer apenas o próprio medo”

“A VIOLÊNCIA MUITAS VEZES VEM EM FORMA DE CORDIALIDADE” – PAINEL EXISTÊNCIA

Caio Carneiro, Liliane Rocha e Yasmin Vitória (Foto: Amcham)

No painel existência, que visava discutir a diversidade no ambiente empresarial, teve a mulher negra lésbica Liliane Rocha, CEO da Gestão Kairós e autora do livro “como ser um líder inclusivo”; o deficiente visual Caio Carvalho, gerente de impostos da PwC; e a mulher transexual Yasmin Vitória estagiária de Client Success da Salesforce

De acordo com Vitória, a diversidade é uma questão estratégica para as empresas e a vivência deve ser considerada junto com a competência na hora do empregador decidir quem será seu próximo funcionário. Reforçando sua fala, Caio Carvalho diz:

“Diversidade tem a ver com riqueza. Onde todos pensam igual, algum funcionário é desnecessário”

Vitória reforça que a pluralidade é regra socialmente falando e que na teoria todos tem direito ao trabalho, mas isso não é visto na prática.

“Nós [transexuais] saímos do armário todos os dias, 24 horas por dia. Nossa imagem vem primeiro que a nossa fala.” – referindo-se as dificuldades das pessoas trans de estarem nesses espaços.

Liliane Rocha comenta que teve uma infância muito pobre e que ascendeu socialmente graças aos estudos, mas que mesmo na atualidade, ela é barrada em diversos lugares por ser negra.

“Existem pessoas que praticam violências cordiais contra nós achando que não estão sendo LGBTfóbicos ou racistas.” – diz Liliane – “Mas, de uma forma cordial, estão sendo as piores pessoas do mundo”

Carvalho diz que a melhor arma pra lutar contra o preconceito é a informação, e que muitas vezes a violência vem em forma de “pseudo-cordialidade”.

“A pessoa acha que deficiência visual é um combo que vem com deficiência auditiva e mental juntos. Então te tratam igual a uma criança. Fala alto: olha, tem uma cadeirinha ao seu lado!”

“POSSO GERAR EMPATIA ATRAVÉS DO CONHECIMENTO” – PAINEL DIÁLOGO

Na temática “Diálogo”, diversos representantes de empresas e marcas famosas comentam sobre as políticas de valorização da diversidade. Entre eles Ricardo Sales (Mais Diversidade), Rodrigo Santos (Bayer), Viveka Kaitila (GE) e Lia Azevedo (Boticário).

Sales comenta que o ideal é mostrar a diversidade mesmo em assuntos não relacionados ao tema, algo concordado por Lia Azevedo que reforça a importância da publicidade como uma poderosa ferramenta de transformação social.

Ela cita como exemplo o comercial de dia dos namorados de 2015 que causou grande polêmica ao apresentar diversos tipos de casais (vídeo acima).

“Não devemos ter medo de deslikes” – disse, ao se referir aos comentários agressivos e a repercussão negativa que a propaganda causou na época.

A gestora também disse que a informação é a ferramenta para a desconstrução de preconceitos e conteúdo discriminatório, dando como exemplo a si mesma que, segundo ela, tem o privilégio de ser branca e loira.

“Não é meu lugar de fala, mas posso gerar empatia através do conhecimento” – diz, mostrando que o anúncio “toda forma de amor” de 2019 foi recebido de modo muito mais positivo pelo público, algo que, segundo ela, já demonstra uma mudança positiva na sociedade.

Viveka Kaitila, finlandesa que vive no Brasil e atual presidente e CEO da GE, diz que as empresas devem ter “zero tolerância ao preconceito” e que a diversidade não só agrega mais valor a empresa, como também melhora nos resultados e na criatividade da companhia.

“Entrei na GE em 1997 e, na época, havia poucas mulheres na empresa (…) Fui a primeira mulher líder na GE Capital e as únicas que havia lá eram assistentes.”

Rodrigo Santos comenta que a Bayer patrocina pequenas e médias empresas com pautas sobre diversidade, reforçando também o argumento de quanto mais plural forem seus funcionários, melhor para a empresa e a para o consumidor.