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O escritor e jornalista Chico Felitti acaba de lançar seu novo projeto, o audiobook Rainhas da Noite, que conta a história de três travestis que comandaram a prostituição no centro de São Paulo entre 1970 e 2000: Jacqueline Blábláblá, Andrea de Mayo e Cris Negão – as “Rainhas da Noite”.

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Chico Felitti – crédito: reprodução

Felitti traça um retrato da brilhante e espalhafatosa noite do centro paulistano, um mundo que chegou ao fim com a chegada de traficantes e a difusão do consumo do crack, depois dos anos 2000.

Quem dá voz à história no audiobook é a atriz trans Renata Carvalho, conhecida por encenar o papel de Jesus Cristo na peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu”. O jornalista e escritor concedeu uma entrevista ao GAY BLOG BR, dando mais detalhes dessas três personalidades admiradas e, ao mesmo tempo, temidas.

O audiobook faz um levantamento do cenário da comunidade trans do centro de São Paulo entre os anos 1970 e 2000. Como surgiu a ideia de retratar esse universo de quem ditava as regras na prostituição?

A ideia é bem antiga. Sempre fui fascinado pelo glamour e pelo perigo das “antigas”, como são apelidadas as travestis, transformistas, mulheres trans e drag queens que vieram antes. Em conversas com pessoas como Kaká di Polly, ouvia falar dessas três “chefonas”, que tinham trajetórias frondosas, mas cujas histórias não foram registradas em livro.

Eu ouvia falar de Jacqueline Blábláblá e ficava de “queixo no chão” com os relatos, como o fato de que ela tinha um bordel, que tomava banho de champanhe e trocava de carro todo ano, além de mandar punir quem estivesse no seu caminho. Era uma história contada em sussurros, pouco registrada.

Com a chegada da pandemia, acreditei que era um bom momento para dedicar meu tempo a isso: conversar com pessoas que viveram o centro de São Paulo entre os anos 1970 e 2000 e encontrar toda a documentação que existisse sobre essa máfia comandada por travestis. Passei quase um ano em contato com centenas de pessoas até conseguir contar quem foram essas três Rainhas da Noite.

O audiobook menciona a história de outras trans também? Por que o foco nestas três?

Acredito fortemente que é a história de muita gente. Por ser uma história oral, é um audiobook baseado nos relatos de quem viveu essas décadas ali no centro de São Paulo. Então, a vida de cada entrevistada e cada entrevistado acaba também sendo um fio da trama.

Dou um exemplo: quando a Claudia Edson [mulher trans e proprietária da primeira boate LGBT do Brasil, ‘NostroMondo‘] me conta que chegou ao Brasil de férias, quando morava na Europa, e viu que as outras travestis que trabalhavam na Espanha e na Itália compraram um carro conversível cada uma para “dar pinta” na rua. Ela decide voltar para a Europa, trabalhar por um mês lá e, nessas poucas semanas, juntar dinheiro para comprar um Ford Escort conversível roxo.

Isso é maravilhoso para a narrativa, e mostra o quanto de dinheiro e de poder rolava em pedaços dessa comunidade, por mais que elas ainda fossem hostilizadas, violentadas e tivessem seus direitos negados, ainda mais naquela época. O audiobook é a história de todo um momento da comunidade, por mais que o foco seja às três rainhas da noite.

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Rainhas da Noite – crédito: reprodução

Cris Negão era conhecida pela truculência, Andrea de Mayo era famosa no meio underground e se expressava muito bem e, quem era Jacqueline Blábláblá?

A Jacqueline Blábláblá era a figura mais enigmática mesmo. Até por ser a que ganhou poder primeiro, lá nos anos de 1970, com a abertura de um bordel onde trabalhavam suas “filhas”.

O nome dela já era uma coisa que me atraía muito, até mesmo pela sonoridade, mas não existe quase registro formal da vida dela. Se procurar no Google, vai ver que tem uma ou outra menção, sempre superficial. Então, descobrir a história de vida dessa pessoa, uma das primeiras a se prostituir na França e voltar ao Brasil no meio dos anos 1970 com o plano de abrir um salão de beleza, foi uma grande alegria.

Tem questões complexas na história da Jacqueline. Ela transacionou no fim dos anos de 1960, virou uma cafetina violenta e riquíssima. Depois, voltou a usar barba e se apresentar como Jacques e, anos mais tarde, voltou a ser Jacqueline. É uma história e tanto de vida.

Esse levantamento da cena LGBTQIA+ entre os anos 1970 e 2000 é ampla. Como foi o processo de pesquisa, principalmente no que refere a década de 1970, quando muitas já partiram ou mesmo caíram no esquecimento?

Esse audiobook só existe devido às pessoas que generosamente toparam falar comigo. Muitas delas já estão com 50, 60 ou 70 anos, por mais que não gostem muito de revelar esses números (risos). Então, a construção da narrativa se escorou muito nos relatos delas.

Posso nomear algumas: Ditinha, Kaká di Polly, Kelly Cunha, Totó, Marcinha do Corintho, Claudia Edson, Divina Nubia, Margot Minnelli e muitas, mas muitas outras. Gosto sempre de deixar um lugar de destaque para a Miss Biá, que foi uma transformista precursora, que já se montava nos anos 1960 e também foi a primeira entrevistada deste audiolivro. Infelizmente, a perdemos para a Covid19.

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Andrea de Mayo – crédito: reprodução

Dentre às três, alguma delas te surpreendeu mais em relação à história de vida? A palavra “cafetina” soa como algo negativo/pejorativo, você acredita que o leitor irá vê-las como heroínas ou vilãs?

Acho a história da Andrea de Mayo a “mais maluca” de todas, porque passa por muito dinheiro e muita complexidade. Enquanto ela tinha uma carreira artística e foi a primeira atriz a interpretar Geni na montagem paulistana da Ópera do Malandro, ela foi uma ativista pelos direitos LGBTQIA+ que aparecia na TV aberta, lutando por direitos. E, em paralelo, teve a vida de empresária, fundou a Prohibidu’s, primeira boate para trans no centro de São Paulo.

Como se não bastasse tudo isso, ela levava a vida paralela de cafetina. Tinha vários imóveis pela cidade que alugava para suas “filhas”, cobrava por comida e por procedimentos estéticos, era violenta e reinava com uma mão forte, tinha uma limusine e andava armada com um nunchaku embaixo de um braço e um cachorro chamado Al Capone embaixo do outro.

Acho uma das histórias mais fascinantes, já que evidencia que elas não foram só boas ou só ruins. Ninguém é só uma coisa. É claro que as cafetinas machucaram muita gente (seja em sentido figurado ou literal), mas elas também protagonizaram atos de ternura, ajudaram outras tantas. Espero que o audiobook evidencie a complexidade que elas eram.

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Kaka di Polly e Cris Negão – crédito: reprodução

Como você descreveria esse cenário da prostituição ao longo de décadas? Houve algum período mais crítico? Nos anos 1970 havia a ditadura, nos anos 1980 a epidemia de HIV… Como você retrata cada década dentro desse contexto?

Os anos 1970 eram a década do romantismo, era quando as travestis começaram a ter acesso a hormônios e procedimentos novos, mas ainda eram bem restritos. Foi quando reinou a Jacqueline Blábláblá, que tinha um bordel de luxo na frente da igreja da Consolação. A prostituição ainda era feita “de portas fechadas”.

Nos anos 1980, o centro mudou, e as famílias de classe média deram lugar a centenas, talvez milhares de trabalhadoras do sexo. Foi quando a ditadura empreendeu uma guerra (e não uso a palavra no “sentido frouxo”, foi uma guerra mesmo, com aparato de matança e adaptação de leis) contra a comunidade trans. Ao mesmo tempo, foi quando as travestis e mulheres trans do centro de São Paulo começaram a aparecer nas ruas, na mídia e no inconsciente de toda a sociedade.

Os anos 1990 foram a década da união, pois muitas das chefonas se juntaram em empreitadas para lutar contra a AIDS (a Andrea de Mayo, por exemplo, dava festas beneficentes para ajudar a Brenda Lee, que cuidava de pessoas que viviam com HIV). Foi também a década em que a comunidade trans do centro paulistano começou a exigir com mais força seus direitos, como não serem discriminadas pela polícia e o direito de ter oportunidades de trabalho e de expressão artística além do trabalho sexual. Um exemplo belíssimo dessa luta é a Claudia Wonder.

Após “Ricardo & Vânia”, você retoma a literatura nacional de não-ficção novamente com uma obra sobre o universo LGBTQIA+. O que mais te fascina nesse tema?

O que mais me fascina é o manancial de boas histórias que ainda temos para contar no universo LGBTQIA+. Só nos últimos anos, saiu o livro da Cintura Fina, uma travesti de Belo Horizonte que conviveu com a Hilda Furacão; a autobiografia da Luisa Marilac; um livro sobre a ditadura e a opressão contra a comunidade, do Renan Quinalha.

Tem muitas coisas sendo produzidas, mas ainda nem “arranhamos a superfície” do tanto de história que nossa comunidade guarda. Histórias silenciadas por décadas, mas que agora nós vamos, “com fome”, contar.

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Jacqueline Blábláblá posa entre duas amigas – crédito: reprodução

Nos últimos anos, fizeram documentários sobre diversas figuras LGBTQIA+ como Luana Muniz, Lorna Washington (ambas do Rio de Janeiro), Claudia Wonder etc. É como se houvesse um interesse maior em conhecer as histórias dessas personagens que muitos ainda desconhecem…

Sem dúvida. Por muito tempo, o mercado editorial ignorou as histórias de vida da comunidade, mas isso está mudando gradualmente graças ao sucesso de obras como a série Veneno, o reality show RuPaul’s Drag Race e livros como Hola Papi. As grandes editoras e grandes estúdios estão se convencendo de que é preciso olhar para essas histórias

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Jacqueline Blábláblá (direita) – crédito: reprodução

O audiobook será lançado também impresso/papel? Quais são os seus próximos projetos?

Por enquanto é só áudio mesmo. Eu lanço agora o perfil biográfico da Elke Maravilha em livro e estou também trabalhando em uma história de assassinato que talvez passe pelo nosso universo.

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