A importância de ir comprar pão com alguém | Eliseu Neto

"Através de imagens e numa simples conversa virtual jamais conheceremos alguém, mas sim o que ela quer mostrar de si", disserta o colunista Eliseu Neto sobre relacionamentos na era digital

Admito que sou da época do mIRC, um programa de computador que criava diversas salas  de bate-papo, onde registrávamos nossos nicks (apelidos) para que outro alguém não pudesse se passar por nós (eu era “KeNNy`Rio”) e entrávamos quase diariamente. Numa dessas salas, pedir por sexo era motivo de banimento; era um grupo feito para amizade. Entre os PVTs (as conversas privadas, daí a sigla derivada de “private” em inglês, o inbox da época) todos os encontros eram marcados, com as devidas dificuldades da conexão discada.

Nunca entendi direito porque o mIRC acabou, fiz ali grandes amigos… Mas o Fotolog passou a imperar, fui @moby e @nto. Creio que, com o surgimento das câmeras digitas, a imagem queria seu espaço na grande novidade que hoje chamamos redes sociais. O contexto de encontros seguia implícito/velado.

A famosa sala de bate-papo do UOL já existia em toda a sua praticidade para encontros, que as pessoas ainda chamam de “fast sex” (em bom português, “foda rápida”). Se bem entendo, gente que procura sexo assim é vista pelo machismo gay (esse termo por si só já é patético) como pior ou inferior: o gay “correto” sonha com aquilo que enxerga no mundo heterossexual (e que nem lá existe), fidelidade total, pessoas com passado ilibado e que nunca fizeram nada muito exótico sexualmente. (DP?! O que é isso?).

Estamos em 2019 e ainda temos “as meninas para comer e as para casar” (como bem resumiu um amigo hétero pegador, “homem não casa com mulher muito larga…” E aqui ele não está falando de peso corporal). Essas ditas “pra casar” estão dispostas a abrir mão de toda forma de prazer apenas pela boa fama e pelos bons partidos. (numa época em que, segundo quase toda mulher hétero solteira, faltam pretendentes héteros solteiros de qualidade….).

Agora na era dos aplicativos para encontro, as coisas ficaram mais engraçadas, de certo modo. As frases que resumem alguns dos perfis dão muitas vezes show de criatividade (um cara, uma vez, apesar de continuar lá atrás de algo, escreveu “cansado de vocês”). Claro que os desesperados primeiro querem saber “qual o seu tamanho” antes de saberem seu nome e os mocinhos comportados querem saber “o que você busca”.

Eu não sei o que eu busco, eu não sei nem se busco algo. Se estamos num aplicativo falando com desconhecidos, é porque naquele momento algo está faltando, seja sexo, seja um verdadeiro amor. Ou estamos ali por causa do mais puro tédio. Ou carência. Mas como saber? Quantas sessões de análise até saber o que busco pra dar a resposta que esperam? E como conversar sobre isso com uma foto de peito liso ou abdômen definido?

Perdemos a noção da fluidez do relacionamento humano, perdemos a perspectiva de que podemos marcar sexo casual e ali, sem querer, achar o amor da nossa vida (ou pelo menos amigos). Podemos sair para jantar, ir ao cinema, fazer toda uma sedução delicada/sutil e lá pelas tantas simplesmente concluir que aquela pessoa é um saco, um porre ou pior: ela pode odiar seu filme favorito.

A vida é para ser vivida, achou alguém interessante no seu Facebook? Se você só trocar meia dúzia de mensagens e olhar todas as fotos da pessoa (hoje lotadas de filtros e efeitos) a chance de decepção poderá ser grande: através de imagens e numa simples conversa virtual jamais conheceremos alguém, mas sim saberemos o que ela quer mostrar de si (como disse um amigo, aprende-se muito “indo comprar pão” com um pretendente).

Se o psicanalista francês Jacques Lacan já apontava que não existe relação sexual, já que é com a fantasia que fazemos do outro que transamos, hoje essa questão inconsciente está ainda mais forte; as pessoas criaram um verdadeiro arsenal para exibirem um novo eu.

No final, você tem duas escolhas: se arriscar e sair do seu conforto para conhecer uma pessoa (que sempre terá defeitos e qualidades) ou manter seus 30 flertes virtuais na esperança de que um príncipe macho (olha os preconceitos dentro da gente de novo) e perfeito apareça.

A questão é: ele vai querer a imagem que você montou? E se descobrir como você é realmente?

“O que a maioria de nós leva para o relacionamento não é a plenitude, mas a carência. A carência implica uma ausência dentro de si… A carência é uma força poderosa, capaz de criar ilusões poderosas. Ninguém pode realmente entrar dentro de você e substituir a peça que está faltando” – Deepak Chopra.