O machismo e a segregação que assolam a comunidade LGBT | Eliseu Neto

Paulo Freire diz que sem uma educação transformadora o sonho do oprimido é virar o opressor. Lembro como se fosse hoje de ir conhecer um grupo de rapazes do mIRC no NYCC na Barra. Estava em pânico com jeito afeminado e as brincadeiras no feminino deles.

Eu, oriundo de Florianópolis, que levei 20 anos para reconhecer meus próprios desejos, não conseguia entender por que rapazes, alguns bem bonitos, falavam de si no feminino, davam gritinhos ou usavam maquiagem. Já fui bem idiota, mas nunca o suficiente para ser desses que dizem que por causa dos afeminados é que o preconceito existe, nunca tive dúvidas que o preconceito com os gays vem de uma histórica função masculina para procriação e o reforço disso na bíblia e religiões. Mas sei que estes levam a culpa. Quando contei para minha tia sobre mim, a primeira pergunta que recebi foi se um dia eu ficaria “desse jeito”, o que firmemente respondi com um “jamais”. Ok, eu era idiotinha.

Tudo que os gays têm até hoje se devem aos transexuais e aos afeminados. Estes, por terem tão explícita sua orientação sexual, sempre estiveram na linha de frente das agressões e das lutas por igualdade. Eu só vou acreditar num país decente quando um cara puder ser musculoso ou magricela, dançar a Katy Perry rebolativamente e isso não for alvo de piadas ou de olhares jocosos. Nossa luta pela diversidade jamais deveria ser alisada sob o machismo de que “os héteros podem se chocar demais” ou “isso difama a imagem dos homossexuais”. Não estamos lutando para ser um coletivo, nossa luta é pelo que chamamos diversidade; isto é, para que cada ser humano possa viver com sua identidade de gênero, sua orientação sexual, seu jeito de ser e vestir, seu comportamento sexual, sem que isso caia Sub judice de olhares, piadas, comentários e machismo.

Pode ser que esse dia nunca chegue, né? Acho que uma parte da sociedade sempre vai precisar menosprezar a outra para se sentir importante ou melhor. Isso é Freud, psicologia das massas. Para existir uma grupo, eu preciso de alguém de fora desse grupo. Os héteros, precisam das bichas para se sentirem mais machos; os ativos precisam das passivonas para se sentirem mais masculinos; os heteronormativos precisam das pintosas para se sentirem melhores; as operadas precisam das travestis não operadas para se sentirem mais vitoriosas.

Vamos ao menos nos unir para que ninguém mais morra por isso, ao menos? Lutar para que esse preconceito diminua ao máximo. Para que esses coitados que ainda precisam de piadinhas e julgamentos para se sentirem importantes ao menos sintam vergonha.

Por um show de drag que faça mais piada sobre os caras que usam Osklen do que sobre a pintosa da Penha Circular.

O que faz um homem ou uma mulher é socialmente construído e devemos saber que nossas piadas, olhares, julgamentos fazem parte disso. Enquanto seu ideal de homem for o hétero, o ativo, entenda que você está se colocando numa posição de segunda categoria dessa relação – e não é esse o caso.

Não há machista convicto se, no fundo, machismo é falta de convicção.