Há um tempo atrás, circulou um texto um tanto agressivo que relatava uma história (de certo ponto) engraçada: um dos muitos “rejeitados” pelos sarados ipanemers no aplicativo gay de encontros Grindr criou um perfil falso com fotos idem, se passou por um “deus sarado perfeito” e viu todos aqueles que o rejeitaram suplicarem e se humilharem por atenção e aprovação, exatamente o que foi negado ao autor da “brincadeira”.

Todos nós conhecemos a dor da rejeição, mas quem convive menos com ela sente seu impacto de forma mais forte quando ela se manifesta.

ipanema ipanemers
Foto: Beto Urbano

O mundo tem se organizado em guetos cheio de preconceitos e um muito comum no nosso meio são os sarados que declaram que, com esforço e disciplina, se consegue um corpo lindo (esses malditos desconhecem meu metabolismo e minha preguiça). Já o grupo dos inteligentes diz que todo sarado (que eles chamam pejorativamente de “bombado”) é burro, sendo que muitos destes que criticam adorariam ter um corpo de fazer inveja e eu conheço muita gente realmente sarada e com doutorado.

A questão primordial é conseguir diminuir um pouco o valor do que não temos e ter em mente que ninguém tem tudo.

No meio gay existe um fenômeno que vejo como distinto: como são dois homens no relacionamento, a comparação entre eles é mais narcísica, isto é, o outro que busco é um reflexo de quem eu sou ou gostaria de ser. Se ele é gostoso, com “jeito de homem” e todas essas besteiras, significa que mereço alguém assim e, portanto, subo no palco dos admiráveis. É muito comum que caras musculosos só gostem de outros igualmente musculosos, quem sabe no fundo não buscam a eles mesmos?

Mas e os demais? Por que num grupo onde, arrisco dizer, a maior parte dá lá a sua pinta (pelo menos entre amigos) e nem todos tem corpão, tanta gente valoriza isso? Em algum momento nossa cultura colocou esse tipo de corpo como fálico, algo a ser atingido, uma espécie de objetivo de vida. E todo o resto, simpatia, humor, inteligência e lealdade, viram um plus”, um “a mais”.

Se alguém está no Grindr ou em aplicativos similares levando milhares de nãos, é porque faz essas escolhas (de estar e de continuar lá). Eu sendo humilhado uma ou duas vezes ia ter raiva do tal negócio e nunca mais entrar, mas algo motiva a pessoa a continuar, o desejo de conseguir (o cara “certo”). A falta move o ser humano. Primeiro, preciso não ter (algo) para então desejá-lo e ir atrás. Nesse caso específico do Grindr, como sabemos bem o quão difícil e cansativo é ter um corpão sarado desses, muitos querem ao menos usar o do outro pra se “lambuzar”.

É triste constatar que nossa luta pela diversidade não alcança todos os pontos, não inclui ver todos os atributos de uma pessoa na hora do flerte, inclusive a atenção, a educação e o modo de nos tratar.

É muito fácil culpar o idiota covarde que, sem mostrar o rosto, nos ofende e diz “não rola”, “vaza” ou coisas piores (e impublicáveis). Ele é realmente um idiota, mas e quem escolhe seguir lendo e recebendo isso diariamente, já pensou sobre sua responsabilidade em passar por esse sofrimento?

Mudar o foco dos nossos desejos é muito difícil. Eu acho engraçado: vejo que minhas amigas héteros acham os gays lindos, delicados, educados, gentis, divertidos e bem vestidos, enquanto meus amigos gays preferem atrair o estereótipo do “pedreiro machão” do que valorizar essas qualidades acima mencionadas.

É perfeitamente aceitável querer viver uma fantasia, mas passar a vida inteira na busca disso? Sim, existem afeminados ativos, machões passivos, sarados inteligentes, feios legais e lindos chatos. Tudo existe.

Podemos ter coragem e nos abrir para a diversidade? Não é exatamente isso o que pedimos aos heterossexuais?

“O cérebro é um músculo e os livros são os halteres!” – Ton Gadioli

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