Beijar em público (que é o que podemos fazer dentro da lei) é um ato político | Eliseu Neto

Todo ano acompanhamos a mesma discussão, onde uma boa parcela dos gays afirma que não vai à Parada da Diversidade do Rio porque ela “virou uma micareta”, “é sempre a mesma putaria”, etc. E nós, militantes, continuamos a tentar convencer quem pensa desse jeito de que ela é, sim, relevante, já que boa parte dos presentes está lutando por visibilidade através dela.

Neste domingo, como acontece uma vez por ano apenas, temos em Copacabana desde as musculosas barbies e as transexuais (estas em sua luta por real visibilidade e direitos) até a geração mais antiga, que começou em 1960, da turma Ok do centro da cidade. Junte aí também o poder público, as ONGs, as Mães pela Diversidade (formada por mães orgulhosas de seus filhos gays) e até a escola de samba Mangueira (sem trocadilhos), que tem projetos sociais onde os alunos têm aulas de cidadania e respeito à diversidade sexual e também religiosa.

É difícil entender que, dentro desse enorme espectro de diferença que somos, o beijo gay, em público, tem tremenda força de ato político? Para nós, que crescemos e nos desenvolvemos como homens e mulheres dentro de um espaço escondido e cerceado na maioria das vezes, ir para a rua beijar quem você ama (ou mesmo quem você conheceu naquele dia, sem julgamentos!) é um lindo grito de liberdade e visibilidade.

Inclusive, ouso dizer: se as leis brasileiras permitissem, acredito que até o sexo na rua (dentro de determinados parâmetros, claro, como dias, horários e locais) seria um ato similar, uma força contra a opressão política e moral sobre nossos corpos, sexualidade, orientação sexual e a própria liberdade.

A briga interna entre os vários grupos gays, sobre temas como a importância da Parada, mostra como o machismo, a vergonha e a culpa ainda estão arraigadas em nós (fora a questão do ego de alguns suplantando as necessidades reais da Parada, mas não vou me aprofundar nisso porque este texto já é polêmico o suficiente como está).

Se, por um lado, pedimos mais visibilidade e direitos, por outro “alguns prefeririam” que isso fosse feito, por exemplo, com as transexuais usando sutiãs (os mesmos que, quando queimados, foram marca da rebelião feminina frente ao machismo), com gays que não bebessem tanto ou com aqueles que “se comportassem”.

Gay “comportado” é uma ideia fantástica. Fico imaginando quem poderia normatizar isso, qual a intensidade do beijo que seria permitida em público ou até que ponto a manifestação da sexualidade poderia ocorrer em determinados espaços.

Lembro-me das palavras de Paulo Freire, um ícone que, pra quem não conhece, está para a educação brasileira como a Madonna está pra música. Ele declarou que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. Já o psicanalista Jacques Lacan propôs, em suas palavras, que a única coisa da qual não devemos abrir mão, da qual não devemos ceder, é ir atrás do desejo.

Vamos para a Parada da DIVERSIDADE carioca lutar juntos contra a opressão aos homossexuais, transexuais, lésbicas, bissexuais; contra toda forma de opressão à sexualidade e à liberdade! Vamos organizar essa bagunça e lutar pelo que realmente é importante.

E se ainda existem leis que interferem em nossa sexualidade e na vivência dela, lembremos que estas são fruto do coletivo e da cultura; e que podem e devem ser mudadas. Em Berlim, na Alemanha e em Amsterdã, na Holanda, por exemplo, existem praças onde o sexo coletivo é uma prática comum (aceita dentro de determinados horários e locais).

E nós aqui, perdendo um tempo precioso ainda reclamando do que acontece debaixo da bandeira ou de madrugada na praia.

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