Como a professora explica que o menino pode usar sutiã? | Eliseu Neto

"Não existe cartilha, ´kit gay´, professor ou experiência que sozinha que torne uma pessoa ou gay ou hétero", conta o colunista Eliseu Neto

“Matema da transmissão do desejo”. Esse nome inusitado é como o psicanalista francês Jacques Lacan usa para falar do velho “Complexo de Édipo”, ao explicar que desejo não é natural, mas construído. Lacan utiliza lógica, linguística e filosofia para retornar ao trabalho do psicanalista alemão Sigmund Freud e consertar todos os erros provenientes de anos de mau uso americano da teoria psicanalítica.

Sou professor de educadores e tenho extrema dificuldade em explicar aos mesmos que não somos livres, muito menos sujeitos determinados pelo inconsciente, mas sim sobredeterminados, ou seja, influenciados por um conjunto de fatores, como meio ambiente, construção social, componente genético e a cultura que nos cerca.

Ninguém entende isso de cara, então preciso apelar. Pergunto quem gosta do cheiro das fezes. Até hoje, ninguém confessou gostar. Pergunto o motivo e eles dizem “o evidente”: porque fede.

O “evidente” não é verdade, o que está por trás, nesse caso, é o peso da palavra da mãe. Toda vez que o filho tocava nos excrementos, ela falava “caca”, “fedido”, “não pode”, “eca”. De repente, aquilo que a mãe transmite vira norma, “entra” tanto em nós, que somos capazes de passar mal só ao lembrar do odor ou pensar nele. Está aí, muito claro, o poder da palavra dos pais e da educação na maneira através da qual pensamos o mundo.

O ser humano, total desprovido de instintos que é, nasce e de cara tem uma incógnita: “o que fazer para que essa pessoa que cuida de mim me ame e o faça por muitos anos?” Os Beatles estavam certos: “All You Need Is Love”.

Os meninos nascem heterossexuais, porque o seu primeiro amor é sempre a mamãe; logo ficam chocados ao perceber, pela primeira vez, que esta tem no corpo a MARCA da falta e idolatra papai. Este deve ter todos os segredos, afinal ele TEM algo a mais (o pênis, aquilo que falta na mãe) e ainda tem mamãe; essa idolatria do menino beira a rivalidade e esse pai mostra ao filho o que é “ser homem”.

A menina nasce homossexual, amando mamãe e pronto, ambas não têm (que fique claro aqui: não é o pênis que importa, mas a falta deste na mãe).

Quando a menina percebe que “papai tem” e mamãe o ama, primeiro decepciona-se com mamãe porque as duas “não têm” e dirige a papai seu olhar e seu desejo. A partir daí, descobre o mundo, pois este, por ter, pode “lhe dar”.

É importante mencionar que “pai” aqui é a função paterna, que pode ser exercida pela namorada da mãe, pelo tio, avô, pelo trabalho, pela televisão e até pelo dinheiro ou pelo consumismo. Aquilo que a mãe olha (admira, quer, deseja) é o pilar fundamental na fundação da mente infantil.

Toda essa explicação, deixando de lado a velha história de Jocasta (“Complexo de Édipo”), foi para nos darmos conta da força que a educação tem sobre o preconceito, a misoginia e a identidade de gênero. Se podemos vomitar com o cheiro das fezes, que um dia não nos incomodou, imagine o que sentimos ao descobrir que SOMOS “aquilo que não deveríamos ser”.

O “viado”, a “fancha”, a “bichinha”, a “maricona”, o “baitola”, o “traveco” e todos os nomes desse tipo servem para marcar o que “não devemos sentir ou desejar”, de acordo com uma sociedade dominante. Fora a sensação de decepcionar nossos primeiros objetos de amor, pai e mãe.

Um tempo atrás vi circular nas redes sociais um trecho da cartilha do sistema de ensino Positivo onde uma menina, num exercício, deveria marcar o que pode ou não ser feito de acordo com o gênero. Alguém defendia a editora do livro, ao dizer que este era um material para professores críticos, que poderiam refletir e pensar estereótipos.

Como a professora explica que o menino pode usar sutiã? | Eliseu Neto
Foto: reprodução/Internet

No exemplo, a menina marca quase tudo para os dois sexos; deixa de fora apenas biquíni e sutiã para os meninos, visto que estes não têm seios (esperta essa menina, já se vê como quem tem algo a mais e não como a que não tem).

Começo a pensar: temos realmente no Brasil esses professores críticos, que saberão nortear nossas crianças para a ideia de que não existe brinquedo de menino e de menina? Quem pode cuspir no chão? Os dois ou ninguém? E usar biquíni e sutiã, será que a professora vai mesmo explicar para nossa querida menina que, mesmo não tendo seios, o menino pode usar sutiã, simplesmente porque ele quer usar e existe liberdade? E a gravata? “Por que você não usa gravata, professora?”, questionaria uma aluna. Como seria sua resposta? Já um professor perguntaria “quantos meninos aqui na sala têm vontade de brincar de boneca e os pais não deixam?”

Teria a escola brasileira capacidade de lidar com esses questionamentos? Ou será que essa cartilha é mais uma forma de padronizar e formatar nossas crianças, como uma ressalva bem esperta da editora para evitar “a influência de gayzistas e militantes chatos?”.

De volta ao freudiano “Complexo de Édipo”. De acordo com a resolução do conflito surge a orientação sexual. Não existe fórmula: o menino pode tornar-se gay ou hétero por amar demais o pai, por amar de menos o pai, por abandono de qualquer um dos pais, por grudar demais na mãe e idolatrá-la (Félix e sua ‘mami poderosa’ da atual novela das oito)… Enfim, os motivos são inúmeros, visto que a orientação sexual parte de diversos fatores sobredeterminantes já mencionados no começo desse texto.

Não existe cartilha, “kit gay”, professor ou experiência que sozinha forme um gay ou um hétero. Aliás, um dos espantos de Freud é que os homens continuem gostando de mulher ao se deparar com a castração, com a marca da falta. “Mas continuam”, diz ele.

O que essa cartilha do sistema Positivo e qualquer educação que não englobe a diversidade podem fazer é provocar sofrimento e angústia, marcar numa criança que o que ela sente é errado, pecado, sujo; que é necessário esconder ou fingir que não existe.

Já se a educação e a cartilha forem corretas, podem ensinar a criança que ela tem o direito de ser livre, que ela pode ser um menino hétero que brinca de boneca e ajuda em casa, que não precisa cuspir no chão ou espancar alguém para ser macho, que uma menina hétero pode jogar futebol ou brincar de carrinho ou que ele ou ela podem escolher até simplesmente serem gays e fabulosos.

Que tipo de educação você teve?

E qual a que você dá aos seus filhos ou vê sendo aplicada nos filhos dos outros?

“A renúncia progressiva dos instintos parece ser um dos fundamentos do desenvolvimento da civilização humana.”  – Freud