Em 2018, o Porta dos Fundos fez um especial de natal com um ‘Jesus alcoólatra’ e, em 2019, com um ‘Jesus gay’. Os cristãos crucificaram apenas um desses Jesus: o gay. A orientação sexual do humano é mais prejudicial do que o alcoolismo, na lógica supostamente cristã? Lembrei de um outro caso similar no cinema.

Quando assisti ao filme “Tropa de elite”, lançado pelo diretor José Padilha em 2007, fiquei vidrado nas cenas do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE): realmente parecia uma tropa em favor do carioca e contra o crime (depois deles jogarem spray de pimenta em mim, mudei um pouco de ideia). Nesse filme, bem como na sequência, “Tropa de Elite 2”, de 2010, o ator Wagner Moura, que faz o protagonista (Capitão Nascimento), estabeleceu-se no imaginário brasileiro como “macho alfa”, um hétero acima de qualquer suspeita. “Sujeito homem”, como se diz popularmente.

Como um ator interpreta vários papéis distintos, Wagner fez um salva-vidas gay (sem trejeitos) no filme “Praia do Futuro, do diretor Karim Aïnouz, lançado em 2014, com direito a nu frontal e cenas intensas (e reais) de sexo (gay). Soube pela mídia de reações histéricas do público pelo país, como a de 42 pessoas que deixaram a sala de exibição nos primeiros minutos do filme, em um cinema de Niterói, em protesto contra as cenas íntimas. Fiquei pensando: um garoto sendo asfixiado por um saco plástico ou um homem sendo queimado vivo, preso por pneus (como visto em “Tropa de Elite”) não causa nem de perto o mesmo espanto que uma relação sexual entre dois homens.

Temos que refletir: o que causa tanto terror nas pessoas, que pensamentos, que ideias são essas, por que chegar ao ponto de fugir do cinema? O psicanalista austríaco Sigmund Freud diz que “o contrário é a mesma coisa”. Aquilo que não amamos nos é indiferente, mas e o que odiamos? Qual o peso disso em nossos inconscientes? Aquilo de que temos nojo ou que odiamos é algo que tem sua representação em nossa mente.

Assim sendo, penso que se 42 pessoas fugiram do cinema por causa de cenas de sexo, qual a representação que estas têm em suas vidas? O que elas não querem literalmente ver? Muitos temos que caminhar em termos de sexualidade humana: grande parte da vergonha e do ódio que vemos é construída, criada, não é nata. Mas temos um caminho para uma sociedade de aceitação, respeito e dignidade. Qual seria? Ele passa pela criação e pelo respeito às leis, como a nossa ADO 26 (a criminalização federal da homofobia no Supremo Tribunal Federal), passa pela educação, com a lei anti-bullying do deputado Comte Bittencourt do PPS, passa por conhecermos (e reconhecermos) nossos reais desejos sexuais e afetivos (bem como por aceitarmos os dos outros, quando diferentes dos nossos).

Não quero viver num país onde a morte é mais tolerada que o amor… O que podemos fazer? Sugestões?

“O que é ser hétero (‘straight’, mesma palavra para ‘reto’ em inglês)? Uma linha pode ser reta, mas o coração humano, ah! Ele é uma estrada com curvas que atravessam montanhas” – Tennessee Williams