Um dia, creio que durante uma entrevista em um site, alguém me perguntou se eu já tinha sofrido homofobia e eu respondi que “não”. Tempos depois eu vi o quão mentirosa havia sido aquela resposta.

Eliseu Neto - Foto: arquivo pessoal
Eliseu Neto – Foto: arquivo pessoal

Fui criado pelos meus avós em São Paulo até meus 12 anos, quando minha avó faleceu e eu fui morar com a família do meu tio, irmão da minha mãe, no sul do país, em Florianópolis. Foi ele quem me espancou e violentou moralmente dos 12 aos 17 anos de idade. Ele quebrou o videocassete na minha cabeça e me espancou até com o meu gato de estimação (ele pegava o coitado pelo rabo e me agredia). Diversas vezes fui para a aula de olho roxo. Lembro bem do pânico de ter que ficar trancado dentro do meu quarto, pois o simples ato de ir à cozinha poderia significar uma surra gratuita.

homofobia
Eliseu Neto – Foto: arquivo pessoal

Não conseguia entender naquela idade porque aquele que um dia foi meu tio predileto passou a ter tanto ódio de mim. É um tipo de nojo que a pessoa demonstra por você; somente quem viveu sabe do que estou falando.

Pensei em suicídio. Pensei em fugir. Aos 17 anos, afinal, tomei coragem, chamei a polícia e denunciei meu tio por agressão a um menor. Foi quando fui morar sozinho, mesmo ainda estando na escola. Foi o que salvou minha vida. Mas se enganam os que pensam que eu era gay nessa época: levei ainda três longos anos para descobrir minha sexualidade e finalmente entender todo aquele ódio que meu tio sentia por mim era homofobia.

Eliseu Neto - Foto: arquivo pessoal
Eliseu Neto – Foto: arquivo pessoal

Isso tudo me levou ao Cidadania que, através da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO 26), desde 13 de junho o Supremo equipara a LGBTfobia ao crime de racismo enquanto o Congresso não faz seu dever de legislar sobre a questão. Penso na importância para um jovem LGBT saber que existe uma legislação que, finalmente (e mesmo que à força), o ampara.

Creio que o mais importante na criação de uma lei dessas não é sair prendendo pessoas em nossos abarrotados presídios, mas sim educar a sociedade contra a homofobia.

A lei Afonso Arinos (de julho de 1951, promulgada por Getúlio Vargas) não acabou com o contundente preconceito racial no Brasil, mas, ao menos, fez com que até hoje alguns idiotas pensem duas, três ou dez vezes antes de ofender ou humilhar alguém.

Nós merecemos a mesma proteção até porque, diferentemente do negro, muitas vezes a dor e a violência vêm de dentro de casa, de pessoas que deveriam nos amar e nos proteger.

Lembrarei pra sempre da cara de nojo do meu tio ao me chamar de “viadinho”, “boneca” e “mulherzinha”, pra depois me espancar.

Não é evidente que precisamos proteger as pessoas (não só adultos, crianças e adolescentes também) desse tipo de agressão?

“O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte.” – Mahatma Gandhi

Google Notícias