Sair do armário | Eliseu Neto

"Nos dias de hoje, sinto nos jovens a coragem que todos nós tivemos que criar durante anos para sair do armário em outra década", analisa o colunista

Eu fui “hétero” até os 20 anos de idade, tive namoradas e tudo mais. Aos 20, quando “descobri”, tive uma grande crise. O medo de ser rejeitado, de “ficar falado” na cidade. Eu ainda era escoteiro, presidente do grêmio, modelo e membro do grupo de jovens da igreja. Tinha em minha cabeça que seria um escândalo mundial.

Mudei para o Rio, onde não conhecia ninguém, para estudar psicanálise na UFRJ e, claro, pela cidade linda que me apaixonei.

Falando sobre educação no @festdigo Eliseu Neto
Eliseu Neto no DIGO Festival, em 2018, sobre a falácia da ‘ideologia de gênero. Foto: reprodução/Instagram @eliseuoneto

Hoje o que sinto é que toda minha família me aceita e respeita, meus irmãos são os melhores do mundo e morro de remorso dos amigos que me afastei antes que se afastassem de mim. Creio que nossa geração era assim: o preconceito foi tão marcante que era um pânico a possibilidade de ser alvo de piada ou comentário sobre nossa sexualidade. Até hoje penso como consegui esconder de mim mesmo, algo que até outros já percebiam. O preconceito geralmente começa dentro de nós, somos ensinados que ser gay é algo sujo, decadente, alvo de piadas, zombarias, deboche. Imagina isso na cabeça de um adolescente, onde uma das grandes prioridades é ser aceito pelo grupo.

No Brasil, os jovens gays se matam 7 vezes mais que os heterossexuais. Existe uma culpa das religiões que propagam a ideia de pecado; embora eu, em minha experiência de 9 anos de movimento marista, não me recorde de uma palavra contra a sexualidade ninguém.

Nos dias de hoje, sinto nos jovens a coragem que todos nós tivemos que criar durante anos para sair do armário em outra década. Os garotos se assumem na escola e os demais acabam admirando essa coragem. Existe violência, preconceito? Claro, a escola infelizmente ainda é um grande ambiente de bullying, mas esses meninos têm uma coragem que nos era rara. Aos poucos esse mundo vai caminhando.

As pessoas sempre me perguntam se eu recomendo que elas “saiam do armário”. Nunca sei o que dizer: não sei quem são seus amigos, o meio que estão inseridas, os valores e preconceitos de quem as norteia. Mas fiz o caminho do garoto enrustido, para aquele que está na Wikipédia como gay.

A liberdade é uma sensação indescritível, lembro bem como foram terríveis os seis meses que vivi dentro de um armário. A decisão deve ser de cada um. Coletivamente, acredito que se todo gay mostrasse o orgulho de lutar pelo seu desejo, de enfrentar o mundo para o que somos, o quão “macho” precisa ser para passar por isso, um pouco mais de respeito teriam que nos dar.