No jornalismo, a palavra suposto” sempre performou bem como benefício da dúvida para evitar injustiças com alguma das partes envolvidas na matéria. Quando é usada antes de uma afirmação, subentende-se que a narrativa apresentada na notícia é uma das versões da qual o repórter não pôde averiguar a veracidade. Sobretudo, o uso do “suposto” supostamente coloca o jornalista em um lugar supostamente seguro, isentando o suposto profissional de se tornar réu por suposta calúnia, suposta injúria ou suposta difamação.

Lembro do episódio do suposto caso de homofobia da Karol Eller. Antes de aparecerem gravações da câmera de segurança que contrariavam a versão da suposta vítima, redatores tomavam como verdade o discurso da bolsonarista e exibiam fotos do suposto agressor. Alguns até suplicavam para que seus leitores tivessem piedade da suposta influencer. O resultado é que o suposto agressor vai processar, e com razão, quem o acusou de cometer homofobia.

Injustiça pela ausência, mas também pela presença, ultimamente. Em títulos de notícias, o termo “suposto” tem sido empregado fora da razoabilidade do benefício da dúvida, como espécie de licença poética para que redator sacie o desejo da própria imaginação ou simplesmente como estratégia de clickbait. Frequentemente presente em temas relacionados com a exposição da sexualidade de alguém.

A “liberdade poética” do redator disfarçadamente transforma a notícia em fanfic, igualmente proporcional àquelas correntes de Whatsapp que usualmente chamamos de fake news e fazem pessoas acreditarem que, por exemplo, existe mamadeira de piroca em escola pública. Começa num tom meio descontraído, com um assunto aparentemente fácil de ser desmentido e, de repente, se torna um endosso para convicções infundadas. Aí as fic news se tornam equipamentos partidários que ceifam direitos, estimulam a produção de mais mentiras e elegem pessoas que flertam com o fascismo.

Ao digitar “suposto” no Google, automaticamente o buscador sugere como pesquisa “suposto romance de Gugu Liberato“. Se escrever “suposta”, aparece “suposta foto de Felipe Prior“. E, analisando a caixa de comentários dessas fic news, é possível ver que muita gente realmente acredita que Felipe Prior, participante do Big Brother Brasil 20, fez sexo oral em outro homem no meio de uma quadra durante um torneio esportivo acadêmico.

A fic de Pior surgiu após um suposto jornalista copiar uma foto de um álbum público no Facebook intitulado “Interfau 2013” e noticiar como “suposta foto vazada de Felipe supostamente fazendo sexo oral”, ainda que a foto não mostre isso.

Suposto caso de suposto gay que supostamente morreu desperta suposições
“Suposta foto de suposto evento esportivo supostamente tirada em 2013” – Foto: reprodução

Quando a pessoa posta propositalmente suas fotos nas redes sociais de modo público, poderia ser considerada como foto vazada? Seria uma autossabotagem se expor no Facebook fazendo sexo oral para ser alvo de comentários maldosos? As pessoas ao redor que apareceram ali na imagem, reagiriam assim tão indiferentes? Isso não seria de conhecimento geral na faculdade? A instituição de ensino não se posicionou após o ocorrido? Ele não sofreu nenhuma pena de atentado ao pudor?

O que sabemos é que essa notícia fictícia com a foto (que não é suposta) provavelmente rendeu muitos cliques aos sites a que replicaram, abriu espaço para comentários homofóbicos e igualou redatores ao mesmo nível da Damares Alves: fiscalizando o cu alheio e promovendo o celibatarismo. É o Felipe Prior como a princesa do “Frozer” lésbica em um castelo de areia.

Há ainda um delírio coletivo que quer ilustrar a suposta homossexualidade de Prior por supostas curtidas em páginas no Facebook voltadas para o público LGBT+. De fato, o perfil dele tinha essas curtidas, averiguei. Mas por esta linha de raciocínio de CSI de internet, é conveniente também fazer vista grossa na ausência de curtidas de seu perfil em páginas de divas pop, baladas gays, boys magias e posicionamentos políticos.

Daniel Lenhardt, outro participante da atual edição do BBB, teve também sua sexualidade suposta após aparecer por 15 segundos em um vídeo.

“Meu nome é Daniel Lenhardt, sou natural de Selbach, Rio Grande do Sul. Eu quero tudo, eu quero provar de tudo. Se não for pra se (sic) divertir eu nem vou”, disse na chamada do programa. E disso noticiariam que Daniel supostamente seria bissexual.

“Seria legal se o Daniel fosse bissexual” ou “Eu gostaria que Daniel fosse bissexual” se transformou em fic news como “Daniel supostamente é bissexual”. Já tem até “Daniel supostamente é pansexual”, porque o rapaz escreveu “free spirit” na bio do Instagram. Eu mesmo tenho uma fanfic onde shippo o Felipe Prior e o Daniel Lenhardt, mas infelizmente não é uma notícia.

De suposto em suposto, já existe uma vida pós-morte para Gugu. Sintetizando, é mais ou menos esta a informação: “Supostamente gay, mas supostamente bissexual por suposta fala de advogado, Gugu Liberato não deixou herança para suposta esposa; vejam a foto do suposto caso do Gugu que supostamente teria viajado com ele recentemente”.

No caso do apresentador, alguns criticam a imprensa por desrespeitar a privacidade do morto, outros culpam o morto por supostamente não ter lidado bem com a herança e com a sua suposta homo ou bissexualidade. Se ele foi para o inferno ninguém sabe, mas o diabo se chama Suposto. Sempre haverá cliques se a chamada da notícia encaixar “suposto” e “Gugu” na mesma sentença. Inclusive, “Gugu era gay?” é um dos termos mais buscados aqui no site.

O perigo do jornalismo de suposição é o leitor se acostumar em acreditar em histórias fantasiosas, que se alinham muito aos discursos fascistas e supostamente religiosos, onde o receptor se transforma em gado e não sabe o porquê de estar pastando.

Suponho eu.

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