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Vivemos um momento extremamente desafiador, mas é importante pensar: quando tudo isso passar, o que terá mudado para melhor dentro de você?

Não dá para negar que 2020 está sendo extremamente atípico para todos nós. Tudo começou com a pandemia de Covid-19, que para muita gente significou a perda de pessoas queridas, do emprego ou do negócio próprio. Depois soubemos da morte de George Floyd, que entrou para a longa lista de negros que perdem a vida nos Estados Unidos por causa do racismo –um fato que desencadeou revoltas turbulentas por todo o mundo. E então vieram as ondas de calor que causaram incêndios florestais de proporções devastadoras na Califórnia, onde eu moro.

Por tudo isso, muitos diriam que tem sido um ano terrível até aqui. Para mim, o momento (literalmente) mais sufocante dessa pandemia trouxe um olhar diferente sobre tudo o que está acontecendo, e me fez pensar que esses tempos tão desafiadores podem trazer também reflexões positivas para a nossa vida.

Essa virada de chave aconteceu num dia que parecia ter começado como qualquer outro. Como de costume, acordei com o despertador tocando. Mas, quando abri os olhos, vi que meu quarto ainda estava super escuro. Achei que tivesse colocado o alarme no horário errado, e que ainda era de madrugada. Quando olhei para o relógio, levei um susto: eram nove da manhã!

Abri as cortinas e lá fora também estava uma escuridão total. Era como se o dia tivesse virado noite. Parecia o apocalipse: nuvens gigantescas de fumaça das queimadas das florestas pairavam sobre São Francisco, deixando o céu da cor laranja, parecendo Marte, como vemos nos filmes de ficção científica. Naquele momento, as queimadas estavam avançando por toda a costa oeste dos Estados Unidos, até chegar ao Canadá. Milhões de hectares foram carbonizados, pois era muito difícil conter o fogo em um clima seco e com ventos muito fortes.

Na cidade, a poluição do ar era tamanha que os carros nas ruas ficaram cobertos de cinzas. Nós não podíamos sair na rua, não dava para respirar esse ar. Aqui em São Francisco, como o clima é diferente, é muito raro as casas terem ar-condicionado como aí no Brasil, então imagina passar esse calorão em casa, sem poder tomar um ar na rua ou se refrescar em um shopping center climatizado ou em um café. Eu não tive outra saída senão ficar uma semana trancado no apartamento, até aquela cinza toda baixar.

No começo, me veio o sentimento de tristeza: justo quando pensei que as coisas iriam melhorar, elas ficaram piores. Tantas coisas ruins acontecendo pareciam significar que a humanidade precisava chegar ao fundo do poço para, enfim, avançar. E então eu comecei a pensar de outra forma. Talvez nem tudo precise ser tão ruim. Talvez tudo isso signifique que apertamos o botão de pausa. Talvez possamos tirar boas lições dessa pandemia e de tudo o que está acontecendo pelo mundo.

Então vou estender a você a pergunta que venho fazendo para mim e para os meus amigos: o que você tirou de bom da experiência da pandemia? Qual será o resultado positivo de tudo isso?

Podemos estar fisicamente limitados pelas circunstâncias, mas nossa mente segue vivendo e aprendendo. Todos os dias nos trazem lições, e a pandemia pode ser também uma oportunidade rara de refletir sobre tudo o que já fizemos na vida, de ter mais consciência sobre o nosso momento presente, e de ganhar um tremendo conhecimento para o futuro. É por isso que eu quero compartilhar com vocês o que aprendi de positivo durante a pandemia:

Somos todos humanos e precisamos de propósito

Não importa o gênero, a raça, a cultura, a religião, o endereço ou a riqueza: somos todos parte da mesma sociedade e estamos juntos nessa vida. Somos todos frágeis. Não importa quanto poder e influência alguém tenha: no final todos tivemos que ficar trancados em casa. Ninguém ficou imune ao que estava acontecendo. Em momentos assim é que percebemos que não vamos levar carros bacanas ou contas recheadas para o além. Uma hora tudo acaba e perece. Quando sabemos disso, podemos focar de verdade no que é importante para nós e encontrar nosso propósito na vida.

Mais conexões reais = mais felicidade

Quem me conhece sabe que eu amo abraçar as pessoas. Por isso, uma das partes mais difíceis dessa jornada, para mim, é não poder dar aquele abraço nos amigos (e até em quem eu acabo de conhecer). A necessidade de se conectar, de fazer parte de uma família, de uma comunidade, da sociedade está arraigada no nosso DNA, então a privação da convivência física pesa na nossa saúde mental. Isso nos mostra o quanto nossas conexões são importantes.

Por isso, temos dedicado mais tempo a ligar para quem antes estava meio esquecido. É uma maneira de dizer que aquela pessoa é daquelas que a gente guarda do lado esquerdo do peito. Eu mesmo tenho ligado muito mais para a minha mãe, falo com ela toda hora durante a pandemia. Também passo mais tempo falando com as pessoas por telefone, trocando mensagens. São essas conexões que nos dão ânimo quando estamos estressados, solitários, ansiosos. Cultivá-las faz bem: estudos já apontaram que a falta de conexão social pode ser tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia ou beber demais.

A generosidade existe – só estava escondida

Esses tempos difíceis também revelaram que somos capazes de uma profunda gentileza, de dar apoio e ter generosidade e compaixão com quem precisa. Percebemos que temos, sim, uma comunidade que se importa e que está disposta a compartilhar –e é incrível ver como as pessoas se reúnem para ajudar as outras. (Re)descobrimos que somos capazes de dar e de receber muito amor –nunca é demais recebermos mais e mais desse sentimento tão lindo.

Devemos agradecer as pequenas coisas

Sabe a história de que a gente era feliz e não sabia? Pois é. A pandemia nos mostrou quão preciosos são os detalhes do dia a dia, pois fomos privados deles. Sentir o cheiro de uma flor, aproveitar a luz do sol. Tomar uma caipirinha no seu bar preferido. Abraçar amigos. Acariciar seu gato, seu cachorro (eu mesmo amaria ter dois filhotes de husky siberiano, mas por hoje me divirto com meu cão-robô, o Taco).

Em vez de buscar a perfeição, precisamos ter mais consciência, viver mais o momento presente. Isso nos ajuda a sentir gratidão por tudo o que podemos desfrutar, por menores que essas coisas pareçam. Quando a pandemia passar, acho que muita gente vai perceber que benção, que privilégio é poder fazer uma viagem, sair para comer, dançar ou tomar um simples café com um amigo. Muita gente não pode se dar esses luxos. Daí a importância de sermos gratos pelas pequenas coisas que temos.

Hobbies também são importantes

Ficar em casa (muitas vezes sós) por um período tão prolongado nos dá uma oportunidade incrível para rever nossas vidas e nossas prioridades. Pensando nisso, reavivamos algumas paixões que havíamos enterrado no tempo. Redescobrimos hobbies que nos fazem muito bem, mas que varremos para debaixo do tapete na correria do dia a dia. Tivemos a chance de finalmente ler aquele livro para o qual nunca tínhamos tempo, ou para rever o violão, o pincel ou o joystick que não pegávamos havia anos. Ou de escrever um diário, tomar chá e maratonar aquela série que nunca dava para assistir.

Muitos amigos meus descobriram novas paixões, se aventuraram em novas receitas. Eu mesmo voltei a fazer coisas que eu não fazia há muito tempo, como desenhar, colorir e tocar teclado –eu costumava tocar violão, piano, flauta e bandolim. Também tenho passado mais tempo programando, o que me leva de volta às minhas origens na ciência da computação. E me diverti muito montando um quebra-cabeças de 500 peças que ganhei de presente, uma imagem sexy da cena icônica do game e da série The Witcher: a do Geralt de Rivia nu, tomando um banho de banheira.

Diante de tudo isso, me sinto esperançoso. Temos sistemas de saúde, médicos, enfermeiros e cientistas que estão unindo forças no mundo inteiro para entender a Covid-19 e desenvolver vacinas e tratamentos. Em algum momento, tudo isso vai passar e vamos renascer das cinzas.

Quando o coronavírus for passado, é provável que muita gente se esqueça de muita coisa. Mas acho importante que certos aprendizados continuem vivos dentro de nós. No futuro, quando você parar para se lembrar deste momento, será importante pensar no que fizemos durante esses tempos tão difíceis. Será que aproveitamos essa oportunidade para nos conectar e apoiar, refletir, aprender e crescer, cultivando uma versão melhor de nós mesmos? Quando a pandemia e as dificuldades passarem, o que terá mudado em você?

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Empreendedor pioneiro em mídias sociais de São Francisco e co-fundador e CEO da hello.com, dedica-se a reunir pessoas, online e offline. Construiu uma das primeiras redes sociais, o orkut.com, que inspirou mais de 300 milhões de usuários ao redor do mundo a se unirem e fazerem conexões autênticas. Orkut é gay e militante da diversidade e da igualdade. Comentarista frequente sobre impactos positivos e negativos das redes sociais, também é um ávido programador, barman e massagista profissional. Adora dançar e é conhecido por fazer uma das melhores festas durante o Pride em São Francisco. Acompanhe o Orkut em instagram.com/orkutb e participe da nova rede social: hello.com