Eu gosto muito da palavra “gay” (que significa “alegre”, em inglês) e acho que foi uma das escolhas mais felizes em relação aos homossexuais. Não sabemos bem porque o termo virou referência para homossexual. Sabemos apenas que era usado de forma pejorativa e os gays souberam reverter isso, se apropriando da palavra pra si.

Eu entendo ser necessário por uma questão de visibilidade usarmos a sopa de letrinhas que alguns grupos até chegaram a criar o LGBTQQICAPF2K+, principalmente na questão de pessoas trans, visto que identidade de gênero e orientação sexual são coisas bem distintas, intersexualidade não é uma orientação sexual, etc.

Mas entendo que muitos se incomodam com o crescente número de siglas… Eu mesmo já não sei o significado de LGBTQQICAPF2K+.

Então falando dos gays, penso que independente das pequenas divisões, poderíamos nos perceber como um grande grupo, o grupo que luta contra a incompreensão da sua identidade sexual/gênero e preconceito, que atende pelo nome único de “gay”. Até a Judith Butler, em seu livro “Gender Trouble”, se refere a LGBT+ apenas como “gay”. E a Butler é a autora da teoria da orientação sexual, no lugar da escolha sexual.

Logo pequenos somos colocados diante de uma tarefa que a grande maioria das pessoas só vai passar muito mais tarde, quase na vida adulta: lutar pelo seu desejo. Ser “bicha”, “maricona”, “pederasta” é tudo que a maioria não quer ser e as famílias compartilham esse pensamento.

Outro dia um leitor da minha coluna pediu que eu escrevesse um texto sobre ser gay, pois sua mãe não o aceita.

Eu não sei fazer isso. “Gay” pode ser evangélico da igreja inclusiva, da diversidade católica, pode ser um militante chato como eu, pode ser um nerd agarrado aos livros, pode ser uma barbie (nome dado ao gay sarado e descamisado). A diversidade sexual deve ser a ênfase e não a nomeação dos indivíduos a partir de seus parceiros sexuais, por isso “gay” é tão diverso quanto a sexualidade humanidade e isso é fabuloso.

Eu consigo ver nessa luta por ir em busca do seu desejo algo que nos aproxima, não sei se por isso a maioria tem mais coragem de demonstrar afeto, ser sensível, chorar num filme ou dizer “eu te amo” para seus amigos (claro que sempre tem um coitado que acha que o estilo machão é melhor).

Não entendo como alguém pode desdenhar da alegria das drags caricatas ou da coragem de vida de um transex, que luta por seu corpo, sua identidade e seus direitos desde sempre. Que orgulho eu tenho em tê-las no mesmo barco.

Os gays afeminados, em boa parte por identificação com as amigas da escola (não, ninguém escolhe ou controla seu jeito de ser, só com muito sofrimento) também têm a coragem de deixar claro sua orientação e muito bem, “quem quiser queira”: há vinte anos atrás, nós nem sonhávamos com isso. Viva os efeminados que mudam o mundo para nós, pena que morrendo e apanhando, afinal, muitos (infelizmente) acham que homofobia é exagero e que todo tipo de gente morre.

As lésbicas nos mostram o feminino em sua pura falação, casamentos em eterno diálogo e repensamentos, a angústia e a alegria de montar uma família (ou podem ser fálicas, comedoras, tão libidinosas quanto o padrão macho heteronormativo).

Não somos diferentes dos héteros, eles também podem ser promíscuos, são a grande maioria dos pedófilos e é claro que tem que parecer mais agressivos.

Se sua mãe reclama a falta de um neto, conte para ela que nós, gays, somos capazes de mudar uma vida, temos sobra de amor, alegria, afeto e temos o melhor controle de natalidade do mundo: não engravidamos e já estamos podendo adotar.

E ela nunca terá uma “nora maldita” que irá perturbar, pode sim ganhar outro filho para ter mimos em dobro.

Eu sei que muita gente acha melhor ser hétero. Eu acho que no máximo é mais fácil, embora eu deteste a ideia de ter que pagar drinks, ficar duas horas cantando uma garota e ter que dançar duro feito uma tábua para não ser zoado pelos meus amigos. Como um hétero vive sem a coreografia da Anitta jamais entenderei.

No mundo gay conheci as melhores festas da vida, fiz amigos que são como irmãos e vivi coisas que só na biografia não autorizada vocês ficarão sabendo. Tenho uma vida intensa e feliz (e a sua pode ser assim também). Mas temos que tomar as rédeas dessa vida e deixar de se importar um pouco com essa sociedade careta e covarde.

Se você acha que o mundo gay não é nada disso, querido, mude de amigos, não de sexualidade.

Não posso generalizar, porém: os estudos e minhas escolhas de vida me fazem viver numa bolha de privilégio e sei quantos gays sofrem somente por viverem sua sexualidade. Morrem ou são torturados em países como Equador, Rússia, alguns da África, do Oriente Médio e em lugares remotos do Brasil.

Ser gay ainda é ilegal em 70 países e há punição com pena de morte em 6 destes. No Brasil, este ano faremos um ano da criminalização da LGBTfobia, embora o Brasil seja o campeão mundial em mortes (dos países que registram).

Mudamos a lei para protegermos nossos irmãos. Temos que garantir essa vitória na prática. Assim, além de sermos alegres, de sermos corajosos, poderemos nos orgulhar de ter mudado o mundo.

“Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo são as que o mudam” – Jack Kerouac

Ps.: Por isso, sempre que eu me referir a “gays”, entendam incluídas todas as identidades que tem ênfase na orientação sexual e inclusão das minorias sexuais que desejarem.