Intimidade interrompida | Orkut Buyukkokten

Recentemente, fui a uma conferência em Los Angeles. Acabei participando de uma oficina chamada “Liderando com vulnerabilidade para homens”. A oficina começou separando todos em duplas. A primeira instrução foi que as duplas se encarassem, olho no olho. O exercício foi tão assustador que alguns dos participantes começaram a suar. Depois, pediram que compartilhássemos informações íntimas sobre nós com o estranho à nossa frente. “O que você mais ama em você?”, “O que você gostaria que eu soubesse sobre você?”, “Do que você se esconde na vida?” Foi preciso muita coragem para abrir nossos corações e abaixar a guarda. Quando a sessão de uma hora acabou, nos sentíamos mais próximos uns dos outros, mais íntimos uns dos outros. A oficina nos ajudou a nos conectarmos uns aos outros de forma muito íntima e emocional.

A teoria triangular do amor, desenvolvida por Robert Sternberg, declara que os três componentes do amor são a intimidade, a paixão e o comprometimento. Pesquisas também mostram que há uma relação ainda mais forte com a intimidade e a paixão. A paixão é, principalmente, uma função cerebral relacionada à gratificação da sexualidade. A paixão, muitas vezes, é definida como a excitação física resultante da atração física.

Nossa cultura é centrada na paixão e no sexo há muitas décadas. Nós nos concentramos demais apenas no sexo, principalmente desde a revolução sexual da década de 60. As letras de 30% das músicas mais ouvidas nos últimos 50 anos tinham referências ao desejo sexual. Começamos a nos esquecer da intimidade. Nós decidimos não dar nome ao sentimento que falta a muitos de nós, não gostamos de falar disso e fingimos que ele não existe. Temos medo dessa palavra, porque a intimidade exige que nos tornemos vulneráveis, que tiremos nossas máscaras. As máscaras que nos ajudam a fingir ser o que não somos, para nos encaixarmos na sociedade. Até a oficina de que participei se chamava “Liderando com vulnerabilidade”, não “com intimidade”. Me pergunto quantos homens participariam de uma oficina chamada “intimidade”.

Quando você pergunta às pessoas se sexo é melhor do que intimidade, a resposta provavelmente será sim. Com o tempo, o sexo se torna uma rotina, uma tarefa por fazer, nós desistimos dele ou tentamos apimentar as coisas e vivenciá-lo com novos parceiros. Experimentamos novas posições, exploramos nossos lados submissos e dominantes, nos fantasiamos, tentamos levar uma terceira pessoa para o quarto, usamos brinquedos sexuais, transamos no chuveiro, na bancada da cozinha, assistimos pornografia juntos, aprendemos a fazer sexo oral como estrelas pornô, aceitamos ser o ativo ou o passivo como ninguém. Mas, ainda assim, temos medo de olhar nos olhos do outro na hora do orgasmo. Porque temos medo da intimidade. Nada se compara há intimidade que você sente quando olha nos olhos de seu parceiro durante o orgasmo. Surpreendentemente, muita gente nunca sentiu isso. Experimente. É incrível.

Precisamos nos concentrar mais na intimidade se quisermos ter sucesso no amor.  O estranho, para mim, é como armamos para nós mesmos. Passamos tanto tempo em aplicativos de relacionamento, tendo encontros casuais como se estivéssemos pedindo comida, constantemente em busca de uma companhia, mas já não sabemos mais como nos relacionarmos uns aos outros. Morremos de medo de falar demais, de menos, ou falar algo errado, quando nosso único possível erro seria não falar nada.

A intimidade vem com o compartilhamento de nossas emoções sem medo de rejeição e represália. Compartilhar nossos sentimentos é um problema ainda maior para homens, pois, historicamente, “homens de verdade” não choram, não expressam o que sentem. Os homens têm que ser corajosos, rudes e fortes. Não percebemos que amizades entre homens não são um sinal de fraqueza, mas de força e masculinidade. Um estudo no Reino Unido revelou que homens heterossexuais que vivenciam amizades próximas com homens, com proximidade sexual não física, e até mesmo beijos e abraços, são mais emocionalmente íntimos uns com os outros do que com suas famílias e namoradas.

O toque é a forma com que propagamos a compaixão, empatia e amor. É como nos relacionamos e construímos a confiança. É como desenvolvemos intimidade com outras pessoas. O toque está vinculado ao nosso DNA. Nós aprendemos, desde crianças, com o abraço de nossas mães, que o toque é proteção, apoio e amor, um sustento sem o qual não conseguimos viver. Toque e seja tocado com mais frequência. E, mais importante, escolha um abraço em vez de um aperto de mão. O toque é um dos principais componentes da intimidade.

Um artigo de pesquisa observou os locais onde as pessoas mais se tocam. Os Estados Unidos estão no fim da lista, enquanto o Brasil é um dos primeiros colocados. No Reino Unido, meio milhão de pessoas mais velhas passam pelo menos cinco dias na semana sem ver ou tocar outra pessoa. Isso mostra como nós, como uma sociedade, nos privamos do toque. Precisamos estourar essa bolha de ar que chamamos de espaço social. 

Todos nós temos, dentro de nós, o poder para sermos mais íntimos com as pessoas em nossas vidas, tanto on-line quanto off-line. É preciso ter coragem para ser íntimo de alguém. Com a coragem, vem o medo. Por isso, é sempre mais fácil fugir da intimidade em vez de buscá-la. A boa notícia é que podemos dar o primeiro passo. Podemos abrir nossos corações, abaixar nossa guarda e nos tornar vulneráveis. Quando encontrarmos a pessoa certa, ela também terá intimidade conosco. É muito mágico ter alguém em nossa vida que nos entenda de verdade. Da próxima vez que estiver com um amigo próximo, ou com um parceiro, dê o primeiro passo e faça as perguntas mais difíceis:

“O que você mais ama em você?”

“O que você gostaria que eu soubesse sobre você?”

“Do que você se esconde na vida?”

Continuem lindos.

Empreendedor pioneiro em mídias sociais de São Francisco e co-fundador e CEO da hello.com, dedica-se a reunir pessoas, online e offline. Construiu uma das primeiras redes sociais, o orkut.com, que inspirou mais de 300 milhões de usuários ao redor do mundo a se unirem e fazerem conexões autênticas. Orkut é gay e militante da diversidade e da igualdade. Comentarista frequente sobre impactos positivos e negativos das redes sociais, também é um ávido programador, barman e massagista profissional. Adora dançar e é conhecido por fazer uma das melhores festas durante o Pride em São Francisco. Acompanhe o Orkut em instagram.com/orkutb e participe da nova rede social: hello.com