A atriz Renata Carvalho foi vencedora POC AWARDS 2019 na categoria “Artivista do Ano” pela peça Manifesto Transpofágico. Transpóloga (antropóloga trans) e fundadora do Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart), Renata observa avanços sociais para pessoas trans no Brasil, mas ainda há muito a ser feito.

Foto: Reprodução
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1 –  Antes de tudo, Parabéns! Como é receber o troféu POC AWARDS 2019 na categoria artivista do ano?

Renata Carvalho: Eu quem agradeço a todos do Gay Blog Br, e as pessoas que votaram em mim nesta categoria. Esse prêmio tem um gosto especial, porque o Manifesto Transpofágico é uma peça bem especial para mim. Esta peça também faz parte de uma pesquisa que desenvolvo no teatro há 14 anos sobre os corpos trans, sou uma Transpóloga (antropóloga trans). Pensei, escrevi e atuo nela, então tem uma satisfação ainda maior de ter o trabalho reconhecido. E realmente sou uma artista e ativista, artivista. Meu corpo me obriga ser, o meu corpo é político. Então é natural que isso reflita no meu trabalho.

2 – Ainda sabemos que é um grande desafio ter pessoas trans no cotidiano da sociedade, exercendo profissões que as pessoas cis o fazem. No entanto, você conseguiu um espaço no meio artístico e está seguindo uma carreira. Como você encara essas transformações sociais? Acha que há algum tipo de avanço em relação as pessoas trans de serem incluídas? Qual sua opinião sobre o assunto?

Renata Carvalho: Primeiro precisamos deixar uma coisa bem nítida. Estou no Teatro há 24 anos e só há 4 que consigo me sustentar com minha arte. Tive que cair na prostituição compulsória, trabalhar em salão, em produção, maquiagem e por aí vai. Quando sou selecionada para interpretar Jesus de Nazaré na peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do céu”, que foi um divisor de águas na minha carreira, tudo começa a mudar. Nesses anos dentro do teatro de grupo não era natural ver travestis e pessoas trans ocupando os palcos, isso sempre me foi angustiante. Mas eu não conseguia outros personagens, porque sempre escolhiam um ator/atriz cisgêneros para interpretar personagens trans. Com “O evangelho” passei a viajar pelo Brasil e minha voz chegou a lugares que nunca consegui estar, e passei a denunciar a falta de pessoas trans nas artes. Sempre denunciei o “Trans Fake” (que na época não tinha nome) e sempre era a mesma resposta: – “Não existem pessoas trans nas artes.” Mas nós sempre estivemos na arte, só não tínhamos espaço para trabalhar.

Em março de 2017 eu fundo o MONART (Movimento Nacional de artistas Trans) e dentro dele o “Manifesto Representatividade Trans” – que visa que artistas trans interpretem personagens trans e que os coletivos artísticos incluam corpos trans nos espaços de criação – e comecei a juntar essas/ esses artistas do Brasil todo e começamos a debater o tema, a levar para Festivais, instituições, reuniões, grupos e coletivos artísticos. É obvio que não fiz isso tudo sozinha, tem muitos artistas que apoiaram e estiveram junto. Hoje somos mais de 100 artistas no MONART. Depois de 3 anos é nítida a mudança nas artes e o quanto vemos artistas trans nos palcos, series, novelas… A música também foi um grande impulsionador, temos trans na música que são incríveis e cheias de talento.

A mudança conseguimos ver e sentir, mas ainda precisamos avançar muito. Ano passado por exemplo estrearam 3 filmes nacionais com Trans Fake. Muitos artistas famosos praticam e ganham dinheiro se apropriando de nossas histórias e vidas. Mas o debate está aí e precisa continuar. Nós queremos parar de morrer. Então pedimos que os cisgêneros parem de interpretar personagens trans por 30 anos, e como pesquisadora posso te afirmar que se fizermos isso daqui a 30 anos esse país deixará de ser o país que mais mata pessoas trans no mundo, e sabe por quê?

Porque nosso corpo será naturalizado, vai se tornar humano. É por isso que a representatividade é tão importante. Precisamos ver pessoas trans em lugares de prestigio social, e dizer para nós mesmas(o) que é possível. Lembro quando vi Pedra de Córdoba no programa do Jô Soares e chorei, pois vi que era possível ser uma travesti e atriz.

Foto: Reprodução
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3 – Aproveitando esse gancho, você também é fundadora do Coletivo T, formado por artistas trans e pessoas não-binárias. Comente um pouco sobre como surgiu o Coletivo T e quais as metas que você pretende alcançar.

Renata Carvalho: O Coletivo T fundo, como fiz com o MONART, para mostrar que existem artistas trans nas artes. E já fizemos algumas intervenções e apresentações. O Coletivo T está num momento de pesquisa profunda, precisamos entender o nosso corpo e a nossa população para poder falar dela com responsabilidade, pesquisa, conteúdo, preparação e qualidade artística. Tenho um projeto muito pessoal com o Coletivo T, mas ainda não posso falar muita coisa, estamos no trabalho de mesa, desenvolvendo, pesquisando e nos conectando.

Foto: Luciane Pires Ferreira
Foto: Luciane Pires Ferreira

4 – A peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi censurada em diversos lugares e você chegou a sofrer ameaças. Por que os religiosos teriam tanto ódio de uma pessoa pelo simples fato de ser uma travesti interpretando Jesus?

Renata Carvalho: Como transpóloga posso te afirmar que isso aconteceu e acontece devido a construção social, midiática, carnavalesca que permeia o imagético do senso comum. Somos vistas como um corpo violento, patologizado, criminalizado, sem moral, profano, sem Deus, endemoniado e feitas para o sexo. Então para algumas pessoas um corpo travesti não pode ou não deve encarnar Jesus, nem numa obra de ficção, é blasfêmia. Não somos um corpo santo, por isso somos indignas de representa-lo.

Independente de quem seja essa atriz, o que eles atacam é o meu corpo travesti, minha identidade e vivência. Por isso é tão importante desconstruir essa imagem da travesti. E isso só conseguiremos com a Representatividade Trans. Pois a representatividade coloca nosso corpo presente nos espaços de poder e com o corpo presente as pessoas cisgêneras são obrigadas a conviverem com nossos corpos. E é só no convívio que poderemos desmistificar, desfolclorizar tornando nosso corpo natural, humano e acalmando os olhos e olhares cisgêneros.

5 – Quais são seus futuros projetos?

Renata Carvalho: Esse ano terá a estreia do filme “Vento Seco” no Brasil – fizemos a estreia em Berlim no Berlinale. Espero estrear outro filme “Os primeiros soldados”. E estou muito animada com a confirmação da segunda temporada de “Pico da Neblina”, começaremos a gravar no meio do ano. E continuar viajando com meus trabalhos, podendo viver da minha arte, não só eu, todes as pessoas trans, esse é o futuro que eu almejo e luto. Evoé.

Confira os vencedores abaixo (alternativamente, veja a lista na revista Exame ou no Terra).

Prêmio do Júri – POC AWARDS 2019

POC DO ANO: Tarcis Duarte
ARTIVISTA DO ANO: Renata Carvalho
BOY MAGIA: Wanrley Cardoso, para 48 horas
QUE HINO: “Proibido o Carnaval” – Daniela Mercury e Caetano Veloso
MÚSICO POC BRASILEIRO: Renato Enoch, por “Recortes {b}”
PEGUE MEU DINHEIRO (publicidade): Shell – “De Causo em Causo”
UNICÓRNIO (startup): Jow Centro Automotivo
ATIVO 19 (iniciativa): Coordenação de Políticas para LGBTI da Prefeitura de SP

Menções Honrosas – POC AWARDS 2019

MANDA VÍDEO: Inritado, por Porta dos Fundos
GRANDE DIA: Criminalização da homotransfobia
ELAS QUE LUTAM (ativismo): Fábio Felix

Prêmio do Público – POC AWARDS 2019

POC DO ANO: Jesuíta Barbosa
CANCELAMENTO: “É a união de dois caras”
FANFIC (o pior enredo de ficção): Damares com “Frozer”
THE BOSH: Titi Müller com “a galera tá pedindo Anitta demais”
MELHOR AÇÃO PUBLICITÁRIA: Crivella promovendo a literatura LGBT+
GRANDE DIA: Radialista Luiz Gama demitido após comentário homofóbico
TEM LOCAL (turismo): San Francisco, promovido por SFTravel
O AUGE: Pabllo Vittar dando bronca nas colocadas em Salvador
ARTIVISTA: Laerte
BOY MAGIA: Max Souza, Mister Lins 2019
QUE HINO AmarElo” – Emicida, Majur e Pabllo Vittar
CHACOTA DO ANO: Eu mereci
MANDA VÍDEO (cinema): Bixa Travesty, por Linn da Quebrada, Kiko Goifman e Claudia Priscilla
MÚSICO POC BRASILEIRO: Jão
PEGUE MEU DINHEIRO (campanha): Governo da Bahia – “Aqui é Bahia, aqui é respeito”
INSULTO DO ANO: Cidadão de bem
UNICÓRNO (startup): Bicha da Justiça
ELAS QUE LUTAM (ativismo): David Miranda
ARTISTA DO ANO: Tabatha Aquino cantando Gloria Groove no metrô
ATIVO 19 (iniciativa do ano): Felipe Neto
CONTATINHO (plataforma de relacionamento): Grindr
AVANT GARDE (empreendedorismo): Suruba Beneficente, de Dedalos Bar
PERSONALIDADE DA MÍDIA: Kaíque Brito
KIT GAY (a maior ameaça que converte héteros em gay): Rodrigo Hilbert

Jornalista formado pela PUC do Rio de Janeiro, dedicou sua vida a falar sobre cultura nerd/geek. Gay desde que se entende por gente, sempre teve um desejo de trabalhar com o público LGBT+ e crê que a informação é a melhor arma contra qualquer tipo de "fobia".